Sexta-feira, 9 de Outubro de 2026
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Alceu Valença celebra 80 anos em Portugal com «80 Girassóis» e os clássicos de uma vida

Por Jorge Silva Medeiros 9 Out 2026

Alceu Valença chega a Portugal com «80 Girassóis», um espetáculo que celebra oito décadas de vida através de canções que continuam a fazer parte da memória musical brasileira. Lisboa, Coimbra e Porto recebem o músico entre 30 de outubro e 1 de novembro, numa passagem que junta grandes êxitos, referências às raízes nordestinas e uma produção visual concebida para acompanhar a força da sua música.

«Anunciação», «Tropicana», «Belle de Jour» e «Coração Bobo» fazem parte de um repertório que atravessou gerações. Mas reduzir Alceu Valença a estas canções seria deixar de fora uma das características mais interessantes do seu percurso: a forma como trouxe os ritmos tradicionais do Nordeste brasileiro para uma linguagem própria, sem perder o contacto com o presente.

 

 

Oito décadas de vida, uma carreira sem fronteiras

Aos 80 anos, Alceu Valença revisita uma trajetória iniciada na década de 1970, quando começou a afirmar uma identidade musical que escapava às classificações mais convencionais. O baião, o frevo, o maracatu e as cirandas cruzaram-se com uma abordagem elétrica, urbana e aberta à experimentação.

O espetáculo recupera temas como «Agalopado» e «Espelho Cristalino», canções que ajudam a perceber a ligação entre a tradição popular brasileira e a inquietação artística que acompanha o músico desde os primeiros anos. A presença de Luiz Gonzaga também se faz sentir em temas como «Pagode Russo» e «Sabiá», num alinhamento que percorre diferentes momentos da sua obra.

Gonzaga encontrou uma definição particularmente feliz para esta mistura de referências ao descrever a música de Alceu como uma «banda de pífanos elétrica». A expressão continua a fazer sentido. Existe tradição nestas canções, mas também existe uma vontade permanente de lhe dar outra forma, sem as transformar em peças de museu.

Em «80 Girassóis», essa identidade surge acompanhada por uma componente visual própria, com projeções e grafismos concebidos sob direção artística de Rafael Todeschini. A imagem acompanha a música, mas o centro do espetáculo continua a ser o repertório de um artista que construiu uma linguagem reconhecível ao longo de várias décadas.

«Anunciação», «Tropicana» e canções que passam de geração em geração

Existem canções que deixam de pertencer exclusivamente a quem as criou. «Anunciação» é um desses casos. A música tornou-se presença habitual em celebrações, encontros e estádios, chegando a públicos que nem sequer eram nascidos quando Alceu Valença começou a construir a sua carreira.

«Tropicana», «Belle de Jour», «Como Dois Animais» e «Coração Bobo» reforçam essa ligação entre o artista e os ouvintes. Cada tema ocupa um lugar próprio no repertório, mas todos ajudam a explicar a capacidade de Alceu para combinar melodias reconhecíveis com ritmos e referências que têm raízes muito particulares.

O percurso não se esgota nos êxitos mais conhecidos. Em canções como «Cavalo de Pau» e «Cabelo no Pente», o universo nordestino ganha espaço através de imagens, ritmos e sonoridades que transportam o ouvinte para um Brasil diferente daquele que habitualmente domina as exportações musicais do país.

Também por isso, a música de Alceu Valença não cabe facilmente numa única categoria. O artista aproxima tradições populares, energia rock e elementos da música urbana brasileira sem perder a sua assinatura. É essa combinação que permite que o repertório funcione tanto como celebração coletiva como viagem por uma cultura musical com raízes profundas.

Lisboa também faz parte da história

A relação de Alceu Valença com Portugal não se resume às datas de uma digressão. Lisboa tornou-se um dos lugares importantes da sua vida e do seu trabalho criativo, a par do Rio de Janeiro e de Olinda.

A capital portuguesa serviu de inspiração para projetos literários, entre os quais o livro de poemas «Poeta da Madrugada». O músico tem também outros trabalhos em preparação, incluindo um livro de crónicas e um documentário autobiográfico.

Esta ligação encontra um reflexo natural na música. As tradições portuguesas e brasileiras desenvolveram-se em contextos diferentes, mas há pontos de contacto na forma como a música popular transforma lugares, sentimentos e experiências em canções. No universo de Alceu, essa aproximação não exige que os estilos se confundam. Basta reconhecer que a música viaja e ganha novos significados quando encontra outros públicos.

«Pelas Ruas que Andei» e «Belle de Jour» fazem parte de um repertório particularmente ligado a lugares e memórias. A segunda ganhou também uma nova interpretação num dueto com a cantora francesa Zaz, demonstrando como uma canção pode encontrar outros caminhos sem perder a identidade original.

Para quem acompanha o músico em Portugal, os concertos oferecem, assim, mais do que uma oportunidade de ouvir os temas mais conhecidos. São também um reencontro com um artista que encontrou neste país um espaço de vida e de criação.

De Olinda a Portugal, a música continua a ser uma festa

O lado festivo de Alceu Valença ocupa um lugar central na sua identidade. O Carnaval de Olinda, o frevo e a força das celebrações populares estão profundamente ligados à sua música e à forma como se apresenta perante o público.

O bloco carnavalesco Bicho Maluco Beleza é uma expressão dessa ligação. Associado às celebrações de Carnaval, reúne multidões em torno de um repertório que transforma a música numa experiência coletiva. Essa dimensão ajuda a compreender a presença de temas como «Anunciação» e «Tropicana» nos concertos: são canções que convidam à participação e que ganham outra vida quando cantadas em conjunto.

Na digressão «80 Girassóis», Alceu Valença apresenta-se acompanhado por Tovinho, nos teclados e na direção musical, Cássio Cunha, na bateria, Zi Ferreira, na guitarra, Nando Barreto, no baixo, André Julião, na sanfona, e Costinha, nas flautas. Lui Coimbra participa nas violas e no violoncelo.

A passagem portuguesa começa a 30 de outubro, no Coliseu de Lisboa, continua a 31 de outubro, no Convento São Francisco, em Coimbra, e termina a 1 de novembro, no Coliseu do Porto. Depois, a digressão prossegue por Dublin, Bruxelas, Amesterdão, Londres, Paris, Zurique, Genebra, Berlim e Oslo.

O título do espetáculo encontra uma explicação nas próprias palavras do músico. Alceu Valença descreve-se como um eterno menino e brinca com a ideia de ter 80 anos ao contrário, como se tivesse apenas oito. Depois, transforma o número na imagem de um oito deitado, símbolo do infinito.

A frase diz muito sobre a forma como olha para a idade e para a música. Em vez de encerrar uma história, os 80 anos tornam-se mais uma passagem. E, quando as primeiras notas de «Anunciação» começarem a soar em Portugal, será o público a dar continuidade a essa história.

 

Jorge Silva Medeiros

Jorge Silva Medeiros é técnico de som na RTP e fundador do Música Total, um dos projetos editoriais dedicados à música com maior longevidade em Portugal, dentro da plataformas. Ligado ao setor da comunicação e da música há mais de duas décadas, criou também a Rádio Atlântida e tem desenvolvido um trabalho contínuo na divulgação da música portuguesa, dos artistas emergentes e dos grandes eventos culturais, assim como produção de eventos.

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