Domingo, 26 de Julho de 2026
Editorial

Alice Coltrane continua a inspirar novas gerações no Museu de Leiria

Por Mafalda Matos 26 Jul 2026

Quase vinte anos depois da sua morte, Alice Coltrane continua a ser uma referência incontornável para quem procura na música um espaço de liberdade, espiritualidade e experimentação.

O seu legado atravessa o jazz, a música contemporânea e até a eletrónica, influenciando artistas que continuam a encontrar na sua obra novas formas de criar. É essa herança que está no centro do sexto Capítulo, iniciativa que regressa ao Museu de Leiria para revisitar uma das figuras mais singulares da história da música.

Entre 18 de julho e 27 de setembro, a Sala do Capítulo transforma-se num espaço de descoberta, onde a vida e a obra da pianista, harpista e compositora norte-americana são revisitadas através de uma proposta que cruza exposição, artes visuais e criação musical contemporânea.

Muito mais do que um nome na história do jazz

Antes de ser conhecida mundialmente como Alice Coltrane, a artista já procurava construir uma identidade própria. Ao longo da sua carreira rompeu fronteiras ao juntar jazz, improvisação, música clássica, espiritualidade e sonoridades oriundas de diferentes culturas, criando uma linguagem que ainda hoje continua difícil de catalogar.

A influência da compositora permanece evidente em muitos músicos contemporâneos. A forma como explorou a harpa, o piano e a improvisação abriu caminhos que continuam a ser percorridos por artistas ligados ao jazz moderno, à música experimental e à criação ambiental, tornando a sua obra tão atual como quando foi apresentada pela primeira vez.

Um diálogo entre a memória e a criação artística

O conceito do Capítulo desafia criadores contemporâneos a dialogarem com artistas que mudaram a forma de ouvir e interpretar a arte. Em vez de olhar apenas para o passado, a iniciativa procura imaginar como poderia soar uma nova obra desses nomes históricos nos dias de hoje.

Nesta sexta edição, a artista visual Neuza Matias aceitou o desafio de criar a capa de um disco imaginário de Alice Coltrane. Paralelamente, a compositora Leonor Arnaut desenvolveu uma peça original inspirada no universo sonoro da pianista norte-americana, estabelecendo uma ponte entre diferentes gerações e linguagens artísticas.

O resultado é uma leitura contemporânea que demonstra como a influência de Alice Coltrane continua viva, inspirando novas formas de criação muito para além do jazz.

Uma exposição para descobrir sem pressa

A programação tem início a 18 de julho, às 15h00, com uma conversa entre Hugo Ferreira e Neuza Matias, dedicada ao percurso artístico de Alice Coltrane e ao processo criativo que deu origem à obra desenvolvida para esta edição.

Ao longo da exposição, os visitantes são convidados a percorrer diferentes momentos da vida da compositora, conhecendo o seu percurso artístico, as ideias que moldaram a sua visão da música e a dimensão espiritual que marcou profundamente toda a sua produção. Mais do que uma visita expositiva, a proposta convida cada pessoa a escutar, observar e descobrir uma criadora cuja influência continua bem presente na música contemporânea.

Um concerto que encerra a homenagem

O Capítulo termina a 27 de setembro, às 18h30, com a apresentação ao vivo da composição criada por Leonor Arnaut especialmente para esta homenagem. O concerto constitui o momento culminante do projeto e traduz em música contemporânea a herança artística deixada por Alice Coltrane, cruzando improvisação, experimentação e sensibilidade.

A entrada é gratuita, mediante inscrição prévia através do Museu de Leiria.

Depois desta edição dedicada a Alice Coltrane, o projeto continuará em 2026 com duas novas homenagens: Miriam Makeba, no Capítulo #7, e Jorge Peixinho, no Capítulo #8, reforçando a missão de aproximar o público de artistas que transformaram a história da música e continuam a inspirar novas gerações.

No fundo, essa é talvez a maior força de Alice Coltrane. A sua música nunca ficou presa ao tempo em que foi criada. Continua a desafiar músicos, artistas e ouvintes a explorar territórios onde a curiosidade vale sempre mais do que as certezas.

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Mafalda Matos

Mafalda Matos é jornalista no Música Total, onde assina sobretudo peças sobre [novidades musicais / entrevistas / cultura regional]. Com [10 anos] ligada ao jornalismo cultural, tem acompanhado de perto [festivais, lançamentos nacionais, etc.] e é uma das vozes mais regulares do Radar Nacional e da secção de Entrevistas do site.