“Amor e Magia”: Sarah Negra fala sobre corpo, espiritualidade e liberdade no novo álbum

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Entre poesia, performance, espiritualidade e canções que parecem nascer de um estado quase ritual, Sarah Negra construiu em Amor e Magia um dos discos portugueses mais intensos e difíceis de encaixar em fórmulas rápidas. A artista fala sobre liberdade criativa, corpo, amor, luto e transformação emocional numa conversa onde o álbum surge não apenas como coleção de músicas, mas como extensão física e espiritual da própria experiência de viver.

Nesta entrevista, Sarah Negra reflete sobre o percurso que a levou até Amor e Magia, a importância da voz enquanto ferramenta de expressão e o desejo de transformar concertos em experiências capazes de suspender a realidade por alguns instantes.

Como começou a tua ligação à música e à escrita antes deste álbum existir?

O som e a relação com a voz como instrumento de composição, investigação e expressão começaram bem cedo, dentro do contexto das artes performativas. O mesmo aconteceu com a escrita. A escrita surgiu até antes de eu seguir para a escola de teatro ou trabalhar em teatro, mas era uma escrita muito espontânea, despreocupada e até infantil.

A ideia de cantar numa banda e fazer temas musicais só apareceu mais tarde, há cerca de 10 anos, quando juntei um pequeno grupo de músicos numa garagem para compor e cantar os temas que escrevia. Na altura, a minha principal motivação era não ter de dizer os guiões de outras pessoas. Queria escrever e performar os assuntos que sentia como urgentes, da forma que queria.

Quando começámos, esta ideia de banda era, para mim, sinónimo de uma enorme liberdade criativa e isso apaixonou-me. Essa liberdade existia no teatro e na performance, mas na música sentia-a de forma ainda maior. Era algo verdadeiramente meu e sem a obrigatoriedade formal que o teatro muitas vezes traz. Tudo me parecia mais louco, mais leve e cheio de possibilidades infinitas.

Que memórias ou experiências mais antigas sentes que acabaram por influenciar diretamente Amor e Magia?

Acho que o disco traz, em cada tema, uma urgência para que as pessoas se permitam amar-se mais a si próprias e também aos outros. Que valorizem a sua voz. Esse caminho é longo e cheio de tropeços.

No meu percurso, sempre usei a minha voz, mas senti muitas vezes que não assumia verdadeiramente o lugar da frente. Aqui tento fazer isso e gosto de pensar que também convido os outros a fazerem o mesmo.

Nada se faz sozinho, mas se cada um conseguir conhecer-se melhor e viver com mais vitalidade e paixão, talvez isso contagie o mundo. Também existe uma urgência em expressar afeto e amor, algo que ficou ainda mais presente depois da morte do meu pai.

Fiquei com a sensação de que não queria voltar a perder oportunidades de dizer às pessoas da minha vida que as amo, que têm valor, que as quero e estimo. O tempo é uma ilusão e, no meio da correria, podemos facilmente afastar-nos desse prazer vital: amar e sermos amados.

Em que momento percebeste que este projeto tinha de ganhar forma como álbum e não apenas como temas soltos?

Não sei se existiu um momento específico em que percebi que estes temas tinham de ser um disco. O que tinha mesmo de acontecer era o meu primeiro álbum. Isso era um sonho antigo que precisava de ganhar forma.

Depois do EP Deus Só, eu só queria fazer o disco. Não sabia exatamente como, mas sabia que tinha de acontecer. Comecei a escrever e o nome do álbum só surgiu muito mais tarde, quando já tinha cerca de 15 temas.

Quase todas as músicas me foram “dadas”. Lembro-me de passar um mês e meio praticamente a descansar, a ler, a ir à praia, e as letras surgiam-me inteiras na cabeça. Claro que depois eram revistas e reescritas, mas os temas vieram até mim. Acho que fui apenas um canal aberto para isso.

Foi aí que percebi que o disco queria mesmo existir.

O que mudou em ti, a nível artístico e pessoal, durante o processo de criação deste disco?

Mudou muita coisa. Cresceu a minha confiança, o meu descaramento, a minha alegria e a minha força. Também fortaleceu muito a relação com os meus parceiros criativos, o Ricardo, o Alex e o Pedro Geraldo.

Acho que todos saímos apaixonados no fim deste processo.

Como defines hoje a tua identidade enquanto artista dentro da música portuguesa?

A minha identidade é ser infinita e rica em criatividade e existência. Não me procuro definir. Já tive esse “monstro” a tirar-me o sono.

A palavra definição parece-me pequena para qualquer ser vivo. Procuro expandir-me e continuar a surpreender-me com aquilo que posso criar e ser.

Sinto que estamos apenas a começar e que existe uma imensidão de caminhos por descobrir. Mas, se tivesse de explicar, diria que a nossa abordagem é poderosa porque traz consciência, expansão e liberdade no som, nas palavras e na performance.

O nosso som vai para além do som. Entra na carne, levanta questões, cria encanto e desconforto. Muitas vezes não se percebe pela lógica e isso agrada-me muito.

Já houve pessoas a saírem dos concertos a dizer: “Não sei exatamente o que acabei de ver, mas estou arrepiado e apaixonado.” É muito isso.

Mais importante do que me definir é conseguir atravessar as pessoas. Fazê-las rir, chorar, sonhar ou voar, nem que seja por um instante.

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