Segunda-feira, 13 de Julho de 2026
NOVAS MUSÍCAS

Michael Brook recupera Cobalt Blue e Live at the Aquarium em edição remasterizada da 4AD

Por Mafalda Matos 13 Jul 2026
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Poucos discos conseguem envelhecer de forma tão discreta e, ao mesmo tempo, ganhar uma relevância cada vez maior com o passar dos anos. É precisamente isso que acontece com Cobalt Blue, o segundo álbum de Michael Brook, agora recuperado pela 4AD numa edição remasterizada que lhe devolve o lugar que merece na história da música ambiental e instrumental.

 

 

A acompanhar esta reedição chega também, pela primeira vez em vinil, Live at the Aquarium, um registo ao vivo que revela outra dimensão da obra do compositor canadiano.

Disponível em Crystal Clear 2xLP, 2xCD e formato digital, esta edição reúne dois trabalhos que durante décadas permaneceram como pequenas joias escondidas do catálogo da editora britânica.

Um álbum que o tempo soube valorizar

Lançado originalmente em 1992, Cobalt Blue surgiu numa fase particularmente criativa da carreira de Michael Brook. Depois da estreia com Hybrid, o guitarrista mudou-se para Inglaterra, aproximou-se do universo criativo de Brian Eno e aprofundou uma linguagem musical muito própria, onde o ambiente cinematográfico, a eletrónica subtil, o jazz e influências da música tradicional de várias partes do mundo convivem naturalmente.

O resultado foi um disco instrumental de enorme elegância, construído sobre texturas delicadas, melodias contemplativas e uma utilização muito particular da guitarra. Em vez de procurar protagonismo técnico, Brook opta por criar paisagens sonoras onde cada nota parece suspensa no tempo.

Ao longo dos anos, Cobalt Blue deixou de ser visto apenas como um álbum de culto para passar a ser reconhecido como uma referência importante na evolução da música ambiente contemporânea.

A guitarra infinita como assinatura sonora

Grande parte da identidade de Michael Brook está ligada à invenção da chamada “infinite guitar”, um sistema desenvolvido pelo próprio que permite produzir notas com sustentação praticamente infinita.

Essa inovação despertou rapidamente o interesse de músicos como The Edge, dos U2, e do produtor Daniel Lanois, tornando-se uma ferramenta essencial na construção do som característico de Brook.

Paralelamente, o compositor desenvolveu uma carreira marcante no cinema, assinando bandas sonoras para filmes como Heat, Into the Wild e The Perks of Being a Wallflower, além de colaborar com artistas como Nusrat Fateh Ali Khan, Youssou N’Dour, Brian Eno, Roger Eno e Daniel Lanois.

Toda essa experiência acumulada acabou por influenciar profundamente Cobalt Blue, onde diferentes tradições musicais se cruzam de forma orgânica, sem nunca perderem unidade.

Live at the Aquarium chega finalmente ao vinil

Gravado em Londres durante o mesmo período, Live at the Aquarium oferece um olhar diferente sobre estas composições.

Enquanto o álbum de estúdio privilegia o detalhe e a construção minuciosa das atmosferas, o concerto revela um Michael Brook mais espontâneo, deixando espaço para a improvisação e para uma abordagem mais emocional.

Temas como “Shona Bridge”, “Ultramarine”, “Lakbossa” ou “Red Shift” ganham novas formas perante o público, mostrando a capacidade do músico em transformar estruturas aparentemente minimalistas em experiências profundamente envolventes.

Esta é a primeira vez que o registo é editado em vinil, tornando esta edição particularmente apetecível para colecionadores e admiradores da editora 4AD.

Uma reedição que faz justiça ao catálogo da 4AD

As novas edições foram remasterizadas por Rashad Becker e apresentam nova produção gráfica assinada por Alison Fielding, inspirada no design original do histórico estúdio v23.

A crítica internacional tem recebido esta recuperação de forma muito positiva. A Record Collector atribuiu quatro estrelas ao lançamento, destacando a beleza meticulosa de Cobalt Blue e a maior fragilidade emocional de Live at the Aquarium. Também publicações como Qobuz, The Big Takeover, Boomkat e Vive le Rock! voltaram a colocar estas obras entre os grandes discos esquecidos da década de 1990.

Mais de trinta anos depois da sua edição original, Cobalt Blue continua a soar surpreendentemente atual. Talvez porque nunca procurou seguir tendências. Limitou-se a construir um universo próprio, silencioso e paciente. E há discos que apenas precisam desse tempo para serem finalmente escutados como sempre mereceram.

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Mafalda Matos