Sábado, 29 de Agosto de 2026
LIVROS

Antero de Quental: “Prosas II” recupera os anos em que o escritor quis mudar Portugal

Por Mafalda Matos 29 Ago 2026

Antero de Quental continua a ser lembrado прежде de tudo como poeta. Os sonetos, a Geração de 70 e a morte em Ponta Delgada construíram uma imagem pública tão forte que acabaram por esconder uma parte importante da sua obra. Antero não escreveu apenas poesia. Escreveu para discutir, contrariar, responder e intervir.

É esse escritor que regressa em Prosas II: Lisboa, 1868-1881. O novo volume reúne textos de um período decisivo da vida de Antero, anos em que a literatura deixou de ser o único território das suas inquietações. Lisboa tornou-se o centro de uma actividade intelectual cada vez mais ligada à política, à sociedade e à pergunta que atravessaria grande parte do seu pensamento: afinal, porque parecia Portugal incapaz de acompanhar as mudanças do seu tempo?

Editado pela Tinta-da-China e organizado por Ana Maria Almeida Martins, Prosas II integra o projecto de publicação da prosa de Antero de Quental. Mais do que acrescentar um novo título à bibliografia do escritor açoriano, o livro permite olhar para uma parte da sua obra que ficou demasiado tempo atrás da poesia.

Os anos de Lisboa em que Antero deixou de escrever apenas para a literatura

O período abrangido por este volume, entre 1868 e 1881, corresponde a uma transformação importante no percurso de Antero de Quental.

Depois dos anos de Coimbra e das polémicas que marcaram a juventude, Antero entra numa fase em que a escrita se aproxima cada vez mais da intervenção pública. As discussões literárias continuam a fazer parte do seu mundo, mas já não chegam para responder às questões que o ocupavam.

Portugal, a organização da sociedade, o pensamento político e o atraso da Península Ibérica passam a surgir com outra intensidade.

Antero pertence a uma geração que cresceu perante uma Europa em transformação. As novas ideias políticas circulavam, a industrialização alterava sociedades e a questão social começava a ocupar o centro das preocupações intelectuais. Portugal parecia viver parte dessas mudanças à distância.

Antero não aceitava essa distância com indiferença.

A sua escrita começa então a procurar causas, responsabilidades e alternativas. A pergunta deixa de ser apenas como renovar a literatura portuguesa. Passa também a ser como renovar um país.

É nesse contexto que a prosa ganha uma importância diferente. Os textos não funcionam apenas como complemento da poesia. São o espaço onde Antero testa ideias, responde ao seu tempo e tenta compreender os problemas que vê à sua volta.

Um escritor que a imagem do poeta deixou escondido

A fama de Antero de Quental como poeta é inteiramente justificada. O problema começa quando essa fama ocupa todo o espaço.

Durante décadas, a imagem mais repetida foi a do autor dos sonetos, do intelectual atormentado e da figura central da Geração de 70. Essa leitura existe, tem importância, mas é incompleta.

O Antero que aparece em Prosas II é também polemista, ensaísta e interveniente. É um escritor disposto a entrar nas discussões do seu tempo e a defender posições que nem sempre eram confortáveis.

Essa dimensão ajuda a perceber melhor o próprio poeta.

As grandes questões presentes na poesia de Antero, a crise espiritual, a procura de sentido, a inquietação perante o mundo e a dificuldade em encontrar respostas, não surgiram isoladas da realidade histórica. O homem que escreveu os sonetos era o mesmo que acompanhava as transformações políticas e sociais do seu século.

Separar completamente o poeta do pensador é uma forma de simplificar um autor que nunca foi simples.

Prosas II tem precisamente esse interesse: permite acompanhar Antero enquanto as ideias ainda estão em confronto com o presente. Não estamos apenas perante o clássico que a história da literatura consagrou. Estamos perante um escritor no meio do seu tempo, reagindo aos acontecimentos e tentando encontrar uma linguagem para explicar o que considerava estar errado.

Essa diferença é fundamental.

Os clássicos chegam-nos muitas vezes já arrumados. A obra está organizada, a importância está decidida e a imagem do autor parece definitiva. A prosa devolve alguma desordem a Antero. Mostra um pensamento em movimento.

Quando a pergunta era porque Portugal ficou para trás

Entre os textos associados a este período está uma das reflexões mais conhecidas de Antero: Causas da Decadência dos Povos Peninsulares nos Últimos Três Séculos.

O título continua a dizer muito sobre as suas preocupações.

Antero queria perceber porque Portugal e Espanha tinham perdido a posição que ocupavam na Europa e porque pareciam incapazes de acompanhar as grandes transformações do século XIX. A pergunta podia ter sido escrita por um economista, um político ou um historiador. Foi colocada por um poeta que não aceitava que a cultura estivesse desligada da vida.

A resposta de Antero procurava causas profundas.

Não bastava culpar um governo ou um acontecimento. Era necessário olhar para a história, para as instituições, para a religião, para a organização social e para a forma como os povos peninsulares tinham construído a sua relação com a modernidade.

É aqui que Prosas II ganha uma importância que ultrapassa a simples recuperação histórica.

O leitor encontra um escritor que não escreve para confirmar certezas. Antero escreve porque está descontente com as respostas disponíveis.

Essa inquietação é provavelmente uma das razões pelas quais a sua prosa merece ser lida sem a distância reverencial que normalmente reservamos aos clássicos. Nem todos os seus diagnósticos precisam de ser aceites hoje. O interesse está também nas perguntas, no método e na recusa em tratar os problemas como inevitáveis.

Antero acreditava que pensar podia ser uma forma de intervir.

Para ele, as ideias tinham consequências.

Um escritor dos Açores que pertenceu ao debate português

Antero nasceu em Ponta Delgada, em 1842, mas a sua vida intelectual nunca coube numa geografia limitada.

Coimbra marcou os anos da juventude e do confronto literário. Lisboa corresponde a uma fase de maior intervenção política e social. Outros lugares entrariam mais tarde no seu percurso. A obra construiu-se entre deslocações, leituras, polémicas e mudanças profundas na forma como Antero via o mundo.

Essa dimensão torna-o particularmente importante para os Açores.

Não porque seja necessário transformar Antero num símbolo regional, mas porque a sua origem açoriana faz parte de uma trajectória intelectual que alcançou uma dimensão muito maior. Antero saiu de Ponta Delgada sem nunca deixar de fazer parte da história cultural das ilhas.

Ainda hoje, porém, a memória pública tende a concentrar-se nos mesmos momentos.

Os sonetos.

A Geração de 70.

A morte.

Prosas II obriga a deslocar o olhar.

Entre 1868 e 1881 existiu um Antero profundamente envolvido nas questões do seu tempo. Um escritor que discutia o país, a sociedade e o futuro com uma intensidade que nem sempre aparece quando a sua obra é reduzida à poesia.

Talvez este novo volume não mude a imagem que temos de Antero de Quental.

Mas torna essa imagem mais difícil de resumir.

E um escritor como Antero merece precisamente isso: continuar a levantar problemas quando seria mais cómodo deixá-lo fechado numa ideia definitiva.

Ficha do livro

Título: Prosas II: Lisboa, 1868-1881
Autor: Antero de Quental
Edição: Ana Maria Almeida Martins
Editora: Tinta-da-China
Lançamento: 10 de Setembro de 2026

Mafalda Matos

Mafalda Matos é jornalista no Música Total, onde assina sobretudo peças sobre [novidades musicais / entrevistas / cultura regional]. Com [10 anos] ligada ao jornalismo cultural, tem acompanhado de perto [festivais, lançamentos nacionais, etc.] e é uma das vozes mais regulares do Radar Nacional e da secção de Entrevistas do site.

Newsletter Semanal

RECEBE A
MÚSICA PRIMEIRO.

Curadoria semanal das melhores novidades musicais, entrevistas exclusivas e agenda de festivais — direto na tua caixa de entrada.

Subscreve gratuitamente

Ao subscrever aceitas os nossos Termos e Condições e Política de Privacidade. Podes cancelar em qualquer momento.