Quinta-feira, 30 de Julho de 2026
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As noites que fizeram da Maré de Agosto muito mais do que um festival

Por Mafalda Matos 30 Jul 2026

Nunca consegui responder a uma pergunta que aparece todos os verões.

“Qual foi o melhor concerto da história da Maré de Agosto?”

A resposta muda consoante a pessoa a quem se pergunta. Uns lembram Carlos Paredes. Outros falam dos Extreme, de Mariza, de Michael Kiwanuka ou de Angélique Kidjo. Há quem nunca esqueça uma noite de jazz, outros uma banda de reggae ou um grupo que poucos conheciam e que, anos mais tarde, passou a encher grandes festivais.

E talvez seja essa a resposta certa.

A Maré de Agosto nunca se construiu à volta de um único concerto. Construiu-se através de noites que, pouco a pouco, lhe deram uma identidade impossível de copiar. Enquanto muitos festivais cresceram para receber mais público, a Maré cresceu sem perder aquilo que a tornou especial: a capacidade de fazer cada concerto parecer único.

Quando o sol começa a desaparecer atrás da baía da Praia Formosa, o vento muda, as primeiras luzes acendem-se sobre o palco e o mar continua ali, a poucos metros. Antes de soar a primeira nota, já existe um espetáculo.

É nesse momento que começa verdadeiramente a Maré.

Quando a música parecia conversar com o mar

Há artistas que não precisam de grandes produções para deixar uma marca.

Carlos Paredes foi um deles.

Quem assistiu ao seu concerto recorda sobretudo o silêncio. Não aquele silêncio de um recinto vazio, mas o de milhares de pessoas completamente entregues à música. Durante alguns instantes parecia que até as ondas respeitavam aquelas melodias.

Anos mais tarde, os Madredeus voltariam a oferecer um momento semelhante. A delicadeza das canções misturava-se com a paisagem e era difícil perceber onde terminava o palco e começava a praia.

Foram noites que ajudaram a definir uma das maiores qualidades da Maré: nunca teve medo da subtileza. Num tempo em que muitos festivais apostavam apenas no impacto, Santa Maria provava que também havia espaço para a contemplação.

Descobrir hoje os artistas de amanhã

Uma das maiores virtudes da Maré de Agosto sempre foi a curiosidade.

Muito antes de Michael Kiwanuka conquistar os maiores festivais europeus, já tinha passado pela Praia Formosa. Na altura, muitos foram assistir ao concerto sem imaginar que estavam perante um dos nomes mais importantes da música britânica da década seguinte.

O mesmo aconteceu com Selah Sue. A espontaneidade com que ocupou o palco fez perceber que havia ali qualquer coisa diferente, mesmo para quem nunca tinha ouvido uma única canção.

É uma história repetida várias vezes ao longo dos anos. Na Maré, o cartaz nunca serviu apenas para confirmar nomes conhecidos. Serviu, sobretudo, para fazer descobertas.

Talvez seja essa uma das razões pelas quais tanta gente continua a regressar.

Um festival onde cabia o mundo inteiro

Poucos eventos portugueses conseguiram viajar tanto sem sair do mesmo lugar.

Numa noite podia ouvir-se música do Mali. Na seguinte, reggae, jazz, rock, blues, eletrónica ou fado. A Praia Formosa transformava-se num ponto de encontro de culturas que dificilmente se cruzariam noutro palco.

Angélique Kidjo encheu o recinto de ritmo e celebração.

Asian Dub Foundation mostrou que uma pista de dança também pode ser um espaço de intervenção.

Gabriel o Pensador trouxe um discurso direto, irreverente e inesperado para um festival que nunca teve receio de desafiar o público.

A Maré nunca escolheu um género musical para a definir.

Escolheu a diversidade.

Há concertos que ficam para sempre. Há festivais que vivem deles.

Mariza levou o fado até à areia e mostrou que uma voz pode encher um horizonte inteiro.

Os Extreme deram ao festival um dos seus momentos mais simbólicos. Ver Nuno Bettencourt regressar aos Açores não foi apenas assistir a um grande guitarrista. Foi perceber que, por vezes, um concerto também conta uma história de regresso a casa.

Ao longo de mais de quarenta anos, passaram pela Praia Formosa centenas de artistas. Uns chegaram já consagrados. Outros saíram de Santa Maria rumo a palcos cada vez maiores.

É impossível escolher apenas dez concertos para resumir tudo isso.

E ainda bem.

Porque os grandes festivais não vivem de rankings.

Vivem das memórias que cada pessoa leva consigo.

Entre 19 e 22 de agosto, a Maré de Agosto voltará a escrever mais um capítulo da sua história.

Daqui a vinte anos, alguém voltará a perguntar qual foi o melhor concerto de sempre.

Haverá respostas diferentes.

Mas todas terão uma coisa em comum.

Nenhuma falará apenas de música.

Falarão de uma noite de verão, de um palco junto ao mar e daquela estranha sensação de que, durante algumas horas, o mundo inteiro coube na Praia Formosa.

Mafalda Matos

Mafalda Matos é jornalista no Música Total, onde assina sobretudo peças sobre [novidades musicais / entrevistas / cultura regional]. Com [10 anos] ligada ao jornalismo cultural, tem acompanhado de perto [festivais, lançamentos nacionais, etc.] e é uma das vozes mais regulares do Radar Nacional e da secção de Entrevistas do site.

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