PARA OUVIR AGORA
Não é uma descoberta. E talvez seja precisamente por isso que merece entrar nesta rubrica.
O nome já circula há alguns anos, existem discos, concertos, colaborações e um percurso que não começou ontem. Mas Muito Mais, o terceiro álbum de originais, coloca-a num ponto diferente. O disco saiu a 27 de março de 2026 pela Cuca Monga e revela uma artista menos preocupada em caber numa ideia pré-definida de cantora e mais disponível para experimentar tudo aquilo que lhe apetece.
E isso ouve-se.
Quem é Beatriz Pessoa?
Beatriz Pessoa vem de uma formação ligada ao jazz, mas nunca ficou confortável dentro de uma só gaveta. O seu percurso passou por diferentes formas de canção e por uma relação evidente com a música brasileira, ao mesmo tempo que foi construindo uma pop própria.
Muito Mais é importante porque parece existir aqui uma mudança de atitude. A própria artista descreveu o álbum como uma espécie de libertação de receios sobre aquilo que seria ou não suposto fazer. Em vez de escolher uma linguagem e ficar por aí, decidiu juntar as peças que já faziam parte do seu universo.
É uma diferença pequena no discurso, mas grande na música.
O álbum não tenta convencer-nos de que Beatriz Pessoa encontrou finalmente uma fórmula. Pelo contrário. Parece mais interessada em descobrir quanto espaço consegue criar dentro da própria canção.
O que está a fazer diferente?
A resposta está na mistura.
Em Muito Mais convivem referências aos anos 70, salsa, música barroca, trap, jazz, MPB e pop. À partida, isto podia resultar num disco sem centro. Não resulta. O fio condutor é a própria Beatriz Pessoa, sobretudo na maneira como usa a voz e transforma diferentes referências em matéria pop.
É aqui que o disco fica interessante.
“A Pique C’est Chique” mostra o lado mais imediatamente pop. “I Wish” introduz a salsa e ainda muda de idioma. “O Fim do Princípio” reduz tudo ao piano e à canção. “9,99€” trabalha a repetição rítmica. E “Espanta”, com Guilherme Gomes, acrescenta outra textura ao álbum.
Não é variedade pela variedade. O risco está precisamente em tentar fazer caber tanta coisa no mesmo disco.
Por vezes resulta muito bem. Noutras, sente-se que Beatriz Pessoa ainda está a descobrir qual destas possibilidades quer levar mais longe.
E essa imperfeição é interessante.
Qual é a música que interessa?
Para começar, “Espanta”.
Não porque seja necessariamente a canção mais fácil do álbum, mas porque funciona como uma boa porta de entrada para perceber o que Beatriz Pessoa está a tentar fazer agora. A faixa conta com Guilherme Gomes e aparece num disco onde a artista decidiu abrir bastante mais o leque das suas referências.
Depois vale a pena ir para “A Pique C’est Chique” e “9,99€”. São duas músicas que ajudam a perceber o lado mais pop e performativo deste novo momento.
E há uma razão para ouvir o álbum inteiro depois dessas três. Muito Mais parece construído para revelar as suas diferenças ao longo da escuta. Não é um daqueles discos em que a primeira faixa explica tudo.
A produção, assinada em co-produção por Beatriz Pessoa e Guss, também tem um papel importante nessa abertura. O álbum ganha quando deixa as canções respirarem e quando não tenta transformar cada influência numa demonstração de virtuosismo.
Beatriz Pessoa não está a tentar escolher entre as suas referências. Está a descobrir o que acontece quando deixa todas entrarem na mesma sala.
O que ainda falta e porque ouvir agora?
É aqui que a recomendação do Música Total deve ser honesta.
Muito Mais não é um disco revolucionário. E não precisa de ser.
A sua força está mais na liberdade do que na ruptura. Beatriz Pessoa ainda pode ir mais longe na construção de uma identidade que seja imediatamente reconhecível sem depender tanto das referências que alimentam as canções.
Mas já existe uma coisa importante: vontade de arriscar.
Depois de Primaveras e PRAZER PRAZER, este terceiro álbum não parece simplesmente uma continuação. É um passo lateral, por vezes inesperado, que abre mais possibilidades para o que poderá vir a seguir.
É precisamente por isso que entra no Para Ouvir Agora.
Não porque Beatriz Pessoa seja uma novidade.
Porque 2026 parece ser um daqueles momentos em que vale a pena voltar a ouvi-la com atenção.
Artista: Beatriz Pessoa
Álbum: Muito Mais
Faixa para começar: “Espanta”
Depois ouvir: “A Pique C’est Chique” e “9,99€”
Se gostas de: pop portuguesa, MPB, jazz, canção de autor e música que não tem medo de misturar referências
O que procurar: voz, arranjos, mudanças de linguagem e a forma como diferentes estilos são colocados dentro da mesma estrutura pop
Veredicto Música Total: Merece atenção
