Terça-feira, 6 de Outubro de 2026
Radar Açores

Cultura açoriana atravessa a programação de Ponta Delgada 2026

Por Mafalda Matos 6 Out 2026

Uma cidade também se conta pelas vozes que guarda. Pelas histórias que passam de geração em geração, pelas músicas que mudam quando atravessam uma ilha e pelas tradições que continuam vivas mesmo quando o tempo parece empurrá-las para trás.

É nesse território entre memória e criação que se move a programação da Ponta Delgada Capital Portuguesa da Cultura 2026 entre 6 e 11 de outubro. A semana junta património, música, teatro, oralidade, ciência e artes performativas, com propostas que vão de Rabo de Peixe ao jazz, passam pelo cancioneiro tradicional açoriano e chegam à Sinagoga de Ponta Delgada.

Mais do que uma sucessão de eventos, existe um fio comum: a relação entre cultura e território.

“Chão” leva ao Coliseu uma memória que atravessa Portugal

A 8 de outubro, o Coliseu Micaelense recebe Chão, espectáculo que olha para o património cultural imaterial português através da música e da palavra.

Fado, Cante Alentejano, tradições do Minho e expressões musicais dos Açores encontram-se numa criação que procura aproximar diferentes geografias através daquilo que cada comunidade preservou, transformou e transmitiu.

No centro está uma figura feminina, projectada cenicamente como símbolo de uma manifestação cultural. É através dela que a narrativa estabelece ligações entre tempos, lugares e comunidades.

Depois da apresentação em Braga, no contexto de Braga 25 – Capital Portuguesa da Cultura, Chão chega aos Açores com uma pergunta que atravessa toda a criação: o que acontece quando diferentes memórias culturais se encontram no mesmo palco?

Os bilhetes estão disponíveis para levantamento na bilheteira do Coliseu Micaelense.

Rabo de Peixe e a autonomia entram no palco

Também a 8 de outubro, às 18h00, o Museu Carlos Machado – Núcleo de Arte Sacra inaugura Do Mar, a Terra — As Despensas de Rabo de Peixe.

A videoinstalação de Rubén Monfort Meseguer, com sonoplastia de Gonçalo Valério e curadoria de António Pedro Lopes, parte das danças das Despensas para olhar para uma tradição onde festa, devoção, comida, música e generosidade se cruzam.

É precisamente essa dimensão comunitária que torna a proposta particularmente interessante. As Despensas não aparecem apenas como património a observar, mas como uma prática onde a comunidade se reconhece e onde o gesto de dar também significa acolher.

No dia seguinte, 9 de outubro, às 19h00, o mesmo espaço recebe À Bolina no Autonomia, dos Cães do Mar, da Terceira.

A criação percorre episódios da história açoriana através de uma linguagem assumidamente teatral e cómica. A viagem de Francisco Corte Real entre a Terceira e Ponta Delgada, a 17 de maio de 1895, num barco de papel chamado Autonomia, serve de ponto de partida para uma tapeçaria de histórias.

Três intérpretes cruzam sketches, canções, música ao vivo, dança e mímica para falar de uma palavra que continua a ter peso no arquipélago: autonomia.

Mas a peça vai mais longe e coloca outras questões: o que significa ser açoriano? E quem define essa identidade?

As cantigas também são uma forma de memória

A transmissão da cultura aparece de outra maneira em Costurar Cantigas e Histórias, proposta do Taleguinho que chega ao Estúdio 13 nos dias 9 e 10 de outubro, com sessões destinadas ao público escolar.

Aqui, a memória passa pela voz.

Cantigas, adivinhas, provérbios e trava-línguas recuperam um património oral que atravessou gerações. A proposta parte também das recolhas de Artur Santos sobre o cancioneiro tradicional açoriano e transforma esse material numa experiência dirigida a crianças, famílias e educadores.

Os instrumentos tradicionais, os cenários e os adereços ajudam a construir uma experiência onde ouvir, cantar, olhar e participar fazem parte da mesma linguagem.

No sábado, 10 de outubro, a programação olha ainda para outro tipo de transmissão: a relação entre conhecimento e natureza.

Florestas de Água: Caminhos de Ciência, no Museu Carlos Machado, convida crianças dos 6 aos 8 anos a explorar a ligação entre água, solos, biodiversidade e equilíbrio dos ecossistemas.

A actividade integra a exposição a branda respiração de um tempo mais verde, de Margarida Andrade, e decorre entre as 10h30 e as 12h00.

A cidade também tem histórias para contar

Às 16h00, a Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Ponta Delgada recebe Contos e Cantos, projecto que parte de uma ideia simples: os lugares onde passamos todos os dias também guardam histórias.

Uma rua, uma igreja, um mercado, uma loja ou uma fonte podem tornar-se matéria para uma narrativa.

O projecto cruza conto e canto, oralidade e participação, procurando descobrir novas formas de contar o território e, ao mesmo tempo, envolver quem o habita.

É uma perspectiva particularmente adequada a uma Capital da Cultura: antes de procurar grandes histórias, olhar para aquilo que está mesmo à nossa volta.

Do jazz às canções de Luís Alberto Bettencourt

A música regressa ao centro da programação no sábado.

Às 16h00, o Carlos Mendes Jazz Trio apresenta Jazz em Movimento no Jardim Antero de Quental.

O projecto leva o jazz para fora das salas tradicionais e percorre diferentes espaços históricos de Ponta Delgada. O repertório cruza standards de jazz americano, europeu e africano com composições originais, elementos do folclore açoriano e sons naturais gravados no arquipélago.

A ideia dos Açores como ponto de encontro de geografias e culturas está, neste caso, inscrita na própria música.

Mais tarde, às 21h30, a viagem segue para São Jorge.

No Auditório Municipal de Velas, Luís Alberto Bettencourt apresenta-se num formato acústico e mais próximo do público, acompanhado pela cantora Pilar Pacheco.

Com um percurso ligado a projectos como os extintos Construção e Rimanço, Bettencourt revisita canções que marcaram diferentes momentos da sua carreira e dá-lhes novas possibilidades num espectáculo pensado para a proximidade.

É uma outra forma de olhar para a memória musical açoriana: não através do arquivo, mas através da canção que continua a ser tocada e ouvida.

Uma semana que termina entre vozes e silêncio

A 11 de outubro, às 16h00, a Sinagoga de Ponta Delgada recebe Corações ao Alto!, uma experiência de canto e escuta orientada por Margarida Mestre.

O projecto nasceu da observação de celebrações religiosas praticadas em Lisboa e da construção posterior de uma partitura musical com um grupo de participantes.

As palavras nem sempre são compreendidas. O que permanece é a voz, a sua propagação no espaço e a sensação criada pelo conjunto.

A cada apresentação é acrescentado um tema inspirado num ritual ou numa prática do território onde o projecto acontece. Em Ponta Delgada, essa relação entre lugar, escuta e cultura ganha uma dimensão particularmente forte.

Entre 6 e 11 de outubro, a programação da PDL26 acaba por regressar várias vezes à mesma matéria: aquilo que uma comunidade guarda, aquilo que transmite e aquilo que decide transformar.

E talvez seja precisamente aí que a cultura deixa de ser apenas programação e começa a tornar-se memória viva.

Os eventos indicados são de participação gratuita, embora algumas actividades estejam sujeitas a levantamento de bilhetes ou inscrição prévia.

Mafalda Matos

Mafalda Matos é jornalista no Música Total, onde assina sobretudo peças sobre [novidades musicais / entrevistas / cultura regional]. Com [10 anos] ligada ao jornalismo cultural, tem acompanhado de perto [festivais, lançamentos nacionais, etc.] e é uma das vozes mais regulares do Radar Nacional e da secção de Entrevistas do site.

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