Sábado, 10 de Outubro de 2026
LIVROS

David Foster Wallace regressa com Breves Entrevistas a Homens Hediondos

Por Mafalda Matos 10 Out 2026

A capa vermelha mostra um homem com um saco de papel na cabeça. Dois círculos negros fazem de olhos, mas não há rosto, expressão ou identidade que possamos reconhecer. Em Breves Entrevistas a Homens Hediondos, David Foster Wallace conduz-nos a um território onde as pessoas falam, justificam-se e tentam controlar a imagem que deixam nos outros. Nem sempre conseguem.

Publicado em Portugal pela Quetzal, o livro reúne histórias sobre relações humanas, desejo, poder e as contradições de quem procura explicar o próprio comportamento. Wallace não facilita a vida ao leitor. As personagens podem ser desconcertantes, os diálogos nem sempre conduzem a uma conclusão e o humor surge, por vezes, no momento em que seria mais confortável desviar o olhar.

O resultado não é uma simples coleção de retratos de homens difíceis. É uma observação incómoda daquilo que acontece quando alguém começa a falar de si próprio e a conversa revela mais do que essa pessoa gostaria de admitir.

Vinte e três histórias sobre as contradições humanas

Publicado originalmente em 1999, Breves Entrevistas a Homens Hediondos reúne 23 contos que exploram temas como o sexo, a misoginia, a depressão, a dependência de drogas, os relacionamentos amorosos e as dificuldades de comunicação. A edição portuguesa, publicada pela Quetzal, tem tradução de Vasco Teles de Menezes.

O título pode sugerir uma sucessão de personagens particularmente cruéis. Wallace vai mais longe. Interessa-lhe perceber como estas pessoas pensam, de que maneira justificam os seus atos e como conseguem construir uma versão de si próprias que nem sempre corresponde àquilo que fazem.

O formato das entrevistas é especialmente revelador. As personagens falam, respondem e procuram explicar-se, mas nem sempre conseguem controlar o sentido das próprias palavras. Uma resposta pode esclarecer um detalhe e, ao mesmo tempo, levantar novas dúvidas. O leitor acaba por prestar tanta atenção ao que é dito como à forma de o dizer.

Wallace não procura tornar estas figuras simpáticas. Também não as transforma em caricaturas sem profundidade. A sua escrita mantém o olhar sobre as contradições, deixando espaço para que o leitor encontre nelas algo mais complexo do que uma simples condenação moral.

O humor aparece quando o desconforto já começou

Existe uma ironia muito particular na escrita de David Foster Wallace. O absurdo e o banal convivem sem grandes cerimónias, e algumas situações provocam um riso que desaparece assim que percebemos melhor o que está em causa.

Em Breves Entrevistas a Homens Hediondos, o humor expõe a arrogância, o egoísmo e as justificações das personagens. A misoginia ocupa um lugar importante, mas o escritor não se limita a apontar o dedo a comportamentos individuais. Observa também as ideias e os hábitos culturais que permitem que esses comportamentos persistam.

O efeito é desconfortável porque nem sempre conseguimos manter a distância que gostaríamos. As personagens podem provocar repulsa, mas a escrita obriga-nos a acompanhá-las de perto, a ouvir os seus argumentos e a perceber como organizam o próprio pensamento.

É aqui que Wallace demonstra a sua capacidade de observação. Não precisa de interromper uma história para explicar o que devemos pensar. Muitas vezes, basta deixar uma personagem falar durante mais algum tempo.

A linguagem nem sempre diz a verdade

A escrita de Wallace é conhecida pela experimentação formal, pela atenção aos movimentos da consciência e pela capacidade de transformar uma conversa aparentemente banal num exercício de observação psicológica.

Neste livro, as palavras funcionam como instrumentos de aproximação, mas também como mecanismos de defesa. Uma pessoa pode admitir um erro sem reconhecer verdadeiramente as suas consequências. Pode falar de sentimentos sem conseguir estabelecer contacto com quem a escuta. Pode até parecer sincera enquanto procura conduzir a conversa para um terreno mais conveniente.

Estas contradições ajudam a explicar por que razão os textos não se esgotam nos temas que abordam. A questão não é apenas aquilo que as personagens fazem, mas a maneira como constroem explicações para continuar a viver consigo próprias.

A leitura exige alguma disponibilidade. Wallace não segue sempre caminhos narrativos convencionais, e o experimentalismo pode tornar certos momentos mais exigentes. Em contrapartida, oferece uma perspetiva invulgar sobre as pequenas operações mentais que tantas vezes passam despercebidas nas relações humanas.

Um livro que continua a incomodar

David Foster Wallace publicou Breves Entrevistas a Homens Hediondos depois de A Piada Infinita, o romance de 1996 que consolidou a sua reputação como uma das vozes mais singulares da literatura norte-americana contemporânea. A nova edição portuguesa recupera uma obra que permite conhecer outra dimensão da sua escrita, concentrada em histórias mais curtas e em personagens cujas contradições ocupam o primeiro plano.

O livro não oferece respostas simples sobre os homens que retrata. A sua força está precisamente na atenção que dedica aos comportamentos, às palavras e às tentativas de justificar aquilo que nem sempre tem justificação.

A capa vermelha continua a ser uma imagem sugestiva para acompanhar esta leitura. O saco de papel esconde o rosto, mas não apaga a presença da figura. Sabemos que existe alguém por detrás daquela máscara, embora não consigamos perceber quem é.

Talvez o mais inquietante seja isso: nem sempre precisamos de conhecer o rosto de alguém para perceber que existe alguma coisa que essa pessoa não quer mostrar.

Mafalda Matos

Mafalda Matos é jornalista no Música Total, onde assina sobretudo peças sobre [novidades musicais / entrevistas / cultura regional]. Com [10 anos] ligada ao jornalismo cultural, tem acompanhado de perto [festivais, lançamentos nacionais, etc.] e é uma das vozes mais regulares do Radar Nacional e da secção de Entrevistas do site.

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