A capa merece atenção porque não ilustra simplesmente o tema. Interroga-o.
O espelho está presente, mas não cumpre a sua função habitual. Não revela uma identidade. Pelo contrário, apresenta uma ausência. O rosto que esperamos encontrar desapareceu.
Pode ser lido como uma metáfora para a memória, para a passagem do tempo ou para todas as partes de uma pessoa que nunca chegam a ser conhecidas por inteiro.
Também pode ser apenas uma imagem. E talvez seja essa ambiguidade que lhe dá força.
Uma boa capa não precisa de explicar a revista. Precisa de criar vontade de entrar nela.
Entre aquilo que vivemos e aquilo que contamos
Uma das questões mais interessantes quando a literatura se aproxima das vidas humanas está na distância entre experiência e narrativa.
Ninguém conta a própria história exactamente como a viveu. A memória reorganiza os acontecimentos. O tempo altera a importância de determinados momentos. E aquilo que parecia central pode tornar-se secundário quando voltamos a olhar para trás.
É nesse espaço que a literatura trabalha.
Granta em Língua Portuguesa dedica este número a esse território humano sem precisar de transformar “Vidas” numa definição fechada. A palavra fica aberta. Pode significar uma pessoa, uma família, uma geração, uma memória ou simplesmente um momento que ganhou peso suficiente para ser contado.
E talvez seja essa a melhor forma de entrar numa revista dedicada às vidas: não procurar imediatamente uma resposta, mas perceber que cada história começa sempre por esconder alguma coisa.
