Sábado, 7 de Novembro de 2026
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Hipots e Cashmere: «Ride or Die» nasce do encontro entre duas identidades musicais

Por Mafalda Matos 7 Nov 2026

Hipots e Cashmere cruzam hip-hop, pop, trap e R&B em «Ride or Die», uma colaboração que nasceu de uma aproximação natural entre dois percursos diferentes. Mais do que juntar duas vozes, o single procura encontrar um ponto de equilíbrio entre experiências, influências e formas distintas de olhar para a música. Nesta conversa com o MusicaTotal.net, os dois artistas falam sobre a origem da colaboração, o significado de «Ride or Die», o processo criativo, a importância da imagem e aquilo que poderá surgir depois deste primeiro encontro.

«Ride or Die» junta-vos numa colaboração que cruza diferentes influências musicais. Como surgiu a ideia de trabalharem juntos e o que vos fez perceber que havia aqui uma música para construir em conjunto?

HIPOTS: Conheci a Cashmere através de um grupo de amigos e vi algumas atuações dela ao vivo que, na altura, me captaram a atenção. Interiormente, pensei para comigo: «Um dia vamos fazer algo juntos». Apesar da diferença de estilos musicais, no momento em que construí a ideia deste tema, não me surgiram dúvidas de que era a voz dela que ia preencher aquilo que faltava à música. Na música, para mim, não existem limites e, por vezes, são as diferenças que trazem o complemento certo.

CASHMERE: A música tem essa capacidade de aproximar universos que, à partida, podem parecer diferentes. A colaboração surgiu a partir de um desafio lançado pelo Hipots e dessa vontade de experimentar, cruzar influências e perceber o que poderia nascer desse encontro.

O título «Ride or Die» pode ter diferentes interpretações. O que significa para cada um de vocês e que ideia ou sentimento esteve na origem desta canção?

HIPOTS: «Ride or Die» pode ser interpretado de diversas formas, mas a ideia inicial foi a de que todos temos sempre alguém que está lá para nós, «no matter what»: o nosso parceiro ou parceira, seja numa relação amorosa, numa amizade ou noutro tipo de ligação. É aquela pessoa que, apesar da «montanha-russa» que são as nossas vidas, nos acompanha no bom e no mau e, por mais adversidades que surjam, mantém uma ligação que é superior a tudo isso. Também tem uma vertente mais espiritual para mim. Fez-me pensar que, num mundo de corpos vazios, as almas verdadeiras reconhecem-se à distância. E, nos dias que vivemos, temos de nos agarrar a algo ou alguém que nos mantenha de pé.

CASHMERE: Para mim, «Ride or Die» representa lealdade, cumplicidade e aquela ligação que permanece independentemente das circunstâncias. É sobre estar presente, escolher ficar e viver as coisas com intensidade. Mas gosto da ideia de que cada pessoa possa interpretar a música à sua maneira e encontrar nela um significado próprio.

Hipots, tens mais de uma década de percurso na música e passaste por diferentes fases artísticas. O que procuras hoje numa canção que talvez não procurasses quando começaste?

HIPOTS: Estamos sempre em evolução, assim como tudo o que nos rodeia. A música também mudou ao longo dos anos e temos de ter a capacidade de nos adaptar e recriar. No meu caso, e falo só por mim, mantenho a paixão que tinha inicialmente pela música, mas com outra maturidade. Por exemplo, sou mais exigente com aquilo que faço. Se me perguntassem se hoje seria capaz de lançar algum dos temas que lancei há dez anos, talvez dissesse que não, porque já não me revejo neles. Mas, se calhar, outros, refazendo o tema e o instrumental, talvez dessem um bom remake.

Cashmere, este lançamento marca uma nova etapa no teu percurso. Que aspetos da tua personalidade e das tuas influências queres mostrar ao público através deste projeto?

CASHMERE: Acima de tudo, quero mostrar a minha versatilidade e curiosidade musical. Cresci a ouvir diferentes géneros e nunca senti necessidade de me limitar a um estilo. Gosto de explorar novas sonoridades e sair da minha zona de conforto. Esta nova etapa representa precisamente isso: liberdade para experimentar e descobrir diferentes versões de mim enquanto artista.

Quando duas identidades musicais se encontram, nem sempre existe uma visão igual sobre o caminho a seguir. Durante a criação de «Ride or Die», houve ideias diferentes ou decisões que vos obrigaram a sair da vossa zona de conforto?

HIPOTS: Desde o início, eu tinha um «rascunho» do tema com aquilo que pretendia e dei liberdade à Cashmere para alterar o que fosse necessário, de forma a que se sentisse confortável na música. As ideias fluíram naturalmente.

CASHMERE: O Hipots já tinha uma visão bastante clara daquilo que queria para o tema, o que foi ótimo como ponto de partida. Ao mesmo tempo, teve sempre abertura para ouvir as minhas ideias e ajustar o que fizesse sentido. Acho que essa disponibilidade foi fundamental para que a música não fosse apenas a concretização de uma ideia inicial, mas o resultado de uma verdadeira colaboração.

Hip-hop, pop, trap e R&B convivem neste single. Estas influências surgiram naturalmente durante a criação ou partiram de uma ideia sonora que tinham definido desde o início?

HIPOTS: Como já falámos anteriormente, a música está sempre em permanente evolução e, atualmente, este é o estilo com que mais me identifico. Daí fazer algo com que me sinta confortável e, ao mesmo tempo, me permita adaptar à evolução da indústria.

Para além da música, «Ride or Die» procura aproximar som, imagem e performance. Que importância tem a componente visual na forma como querem apresentar este projeto e contar a sua história?

CASHMERE: A componente visual é uma extensão da música. Ajuda a criar um ambiente, transmitir emoções e dar uma dimensão diferente àquilo que se ouve. Hoje, a experiência de um projeto artístico vai muito além da própria canção e acho interessante poder explorar essa ligação entre som, imagem e presença em palco.

HIPOTS: Como a Cashmere já disse, todo o projeto artístico deve ter um conceito que englobe muito mais do que a música. Muitas vezes, os artistas esquecem esse pormenor. Um projeto tem toda uma estrutura por trás que muitas vezes não se vê. A DBK Collective veio dar-nos esse apoio na criação e identidade artística, bem como em todo o trabalho antes e depois do lançamento.

Qual foi o momento mais desafiante durante a criação de «Ride or Die»? Houve alguma escolha musical ou interpretação que tenha acabado por definir o resultado final?

HIPOTS: A maior dificuldade para mim foi o facto de termos de sair do estúdio (risos). As coisas saíram tão naturalmente que não me recordo de nada que tenha sido realmente «difícil».

CASHMERE: Diria que o maior desafio foi encontrar o equilíbrio entre duas identidades musicais distintas, sem perder a autenticidade de cada uma. Para mim, foi também interessante explorar uma abordagem interpretativa diferente daquela a que estou habituada.

Hipots, o teu percurso inclui também a experiência com os Richfellaz e o reconhecimento nos International Portuguese Music Awards. De que forma essas experiências influenciaram a maneira como encaras novas colaborações e projetos como este?

HIPOTS: O facto de ter ganho dois prémios nos EUA só me dá mais vontade de continuar a fazer música. Não pelos prémios em si, mas pelo reconhecimento internacional que me foi dado. Perceber que a nossa música é ouvida e, principalmente, apreciada noutros pontos do globo é, para mim, muito motivante. O que mudou desde esse momento? Talvez tenha percebido que a música deve ser feita com amor, alma e dedicação. Isso irá chegar às pessoas. O facto de a indústria em Portugal não dar visibilidade a certos artistas deve-se a muitos fatores que fui percebendo ao longo dos anos. Mas, antes de querer mudar o mundo, temos de estar bem com aquilo que somos e com aquilo que queremos transmitir a quem nos ouve.

Cashmere, a formação musical e a experiência coral fazem parte do teu percurso. Que influência tiveram essas experiências na tua forma de interpretar e na identidade sonora que estás agora a desenvolver?

CASHMERE: Todas as experiências anteriores tiveram uma influência importante, embora de formas diferentes. As aulas de música e piano deram-me uma primeira estrutura e sensibilidade musical. O coro ensinou-me a ouvir, a harmonizar e a cantar fazendo parte de um todo, numa fase em que tinha vergonha de fazer ouvir a minha voz. Mais tarde, os projetos de palco trouxeram a interpretação e a liberdade de expressão. Hoje, olho para todas essas experiências como peças de uma identidade musical que continua em construção.

«Ride or Die» é o primeiro capítulo desta colaboração. Já existem ideias para novos temas ou projetos em conjunto, ou preferem perceber primeiro onde esta música vos pode levar?

HIPOTS: Depois desta colaboração, que foi tão natural, claro que já falámos em novos temas, mas o tempo irá mostrar o que aí vem.

CASHMERE: Nunca gosto de fechar portas, especialmente quando estamos a falar de música. «Ride or Die» é o primeiro capítulo e queremos, sobretudo, que encontre o seu caminho junto do público. Mas, quando existe vontade de criar e uma boa química artística, há sempre espaço para novas possibilidades. Vamos deixar a música conduzir-nos.

Depois de apresentarem «Ride or Die» ao público, o que gostariam que as pessoas descobrissem sobre Hipots e Cashmere que ainda não conheciam através dos vossos trabalhos anteriores?

HIPOTS: No meu caso, quero que leve as pessoas a procurar mais sobre nós, individualmente e também enquanto coletivo. Será sinal de que «Ride or Die» fez o seu trabalho e de que estamos no caminho certo.

CASHMERE: Gostava que descobrissem alguém com vontade de experimentar, de arriscar e de não ficar presa a fórmulas. Que percebessem que a música pode ser um espaço de liberdade, onde diferentes influências e personalidades coexistem. E, acima de tudo, que sentissem a energia e a autenticidade que colocámos neste projeto.

 

 

Mafalda Matos

Mafalda Matos é jornalista no Música Total, onde assina sobretudo peças sobre [novidades musicais / entrevistas / cultura regional]. Com [10 anos] ligada ao jornalismo cultural, tem acompanhado de perto [festivais, lançamentos nacionais, etc.] e é uma das vozes mais regulares do Radar Nacional e da secção de Entrevistas do site.

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