O amor nem sempre chega como esperamos. Às vezes, aparece no meio de uma viagem, numa conversa banal ou numa situação que só mais tarde percebemos ter algum significado. É neste território, onde a vida comum se cruza com as contradições dos sentimentos, que se situa Amor Chega em Breve num Volkswagen, o novo livro de poesia de Filipa Leal, publicado pela Assírio & Alvim.
O título tem uma ironia própria. Junta um sentimento difícil de explicar a um automóvel perfeitamente reconhecível, como se o amor pudesse ser localizado, encomendado ou simplesmente aguardado à porta de casa. A imagem é inesperada, quase cinematográfica, e abre espaço para pensar a forma como nos relacionamos com os outros num tempo em que tudo parece ter hora marcada.
O amor também acontece fora dos grandes momentos
A poesia de Filipa Leal encontra frequentemente matéria naquilo que passa despercebido. Um gesto, uma frase, uma recordação ou uma situação aparentemente insignificante podem revelar mais sobre as pessoas do que uma declaração cuidadosamente preparada.
Neste novo livro, o universo quotidiano cruza-se com diferentes referências literárias e culturais. As viagens de Uber, o erotismo associado à escrita de Anaïs Nin e uma carta dirigida a Emily Dickinson surgem entre os elementos que ajudam a construir o percurso da obra. A honestidade no século XXI é também uma das questões presentes neste conjunto de textos.
São referências distintas, mas que permitem aproximar a experiência individual de perguntas mais amplas. O desejo, a intimidade e a dificuldade de dizer aquilo que realmente sentimos continuam a fazer parte das relações humanas, mesmo quando mudam os cenários e os hábitos.
Entre a intimidade e a ironia
Existe qualquer coisa de particularmente sugestivo na escolha de um Volkswagen para acompanhar a promessa de um amor iminente. Não é uma imagem grandiosa, nem procura o romantismo habitual das histórias sentimentais. É uma situação que poderia acontecer a qualquer pessoa, num dia perfeitamente normal.
Essa proximidade com a vida real torna o título interessante. A promessa de que o amor chega em breve contém simultaneamente expectativa e incerteza. O que significa esperar por alguém? Até que ponto aquilo que imaginamos corresponde à pessoa que acaba por aparecer?
O humor pode funcionar aqui como uma forma de aproximação a temas mais delicados. Em vez de transformar os sentimentos numa sucessão de grandes declarações, a escrita pode observá-los a partir das suas contradições, dos equívocos e das pequenas situações em que nos reconhecemos.
A presença de referências como Anaïs Nin e Emily Dickinson acrescenta outra dimensão a esta conversa. Duas escritoras de épocas e universos distintos que permitem pensar a intimidade, o desejo e a expressão individual através de diferentes perspetivas literárias.
Filipa Leal e a atenção ao que nos rodeia
Nascida no Porto, em 1979, Filipa Leal tem desenvolvido um percurso que cruza a poesia com o jornalismo e a escrita para cinema e televisão. A sua obra tem explorado as relações humanas e os acontecimentos do quotidiano, procurando nas situações comuns matéria para interrogar aquilo que sentimos e a maneira como nos relacionamos.
Amor Chega em Breve num Volkswagen apresenta-se como mais um capítulo desse percurso. A combinação entre experiências reconhecíveis, referências literárias e questões contemporâneas oferece diferentes pontos de entrada para o universo do livro.
Mais do que procurar respostas definitivas sobre o amor, interessa perceber as perguntas que permanecem depois dos encontros, das conversas e das expectativas que construímos em torno dos outros.
O título deixa-nos precisamente nesse lugar. O amor está a caminho, garante a promessa. Falta saber quem o espera, quem vem ao volante e se alguém estará preparado quando finalmente chegar.
