Os Dog Meet fecham um ciclo com Dog Meet Nr.3, o EP que completa uma trilogia iniciada em 2024 e que acompanha o crescimento da banda açoriana. A partir de São Miguel, o grupo cruza rock clássico, psicadelismo e sonoridades alternativas, sem perder o gosto pela gravação orgânica e pela liberdade de experimentar. Nesta conversa com o MusicaTotal.net, fala sobre a evolução ao longo destes três lançamentos, o papel do Dog House Studio, as vantagens de criar música nas ilhas e a vontade de dar o próximo passo com um álbum de carácter mais conceptual.
«Dog Meet Nr.3» é o vosso novo EP e o terceiro capítulo de um percurso que começou em 2024. O que representa este lançamento para a banda e em que momento vos encontra enquanto músicos?
Para nós, este EP representa o fim da trilogia que queríamos fazer. Quando a banda começou a ter um bom volume de canções prontas, achámos que seria uma boa estratégia dividi-las em três lançamentos. Permitiu-nos tirar mais «sumo» das músicas, criar contactos e chegar aos media de forma faseada.
Enquanto músicos, é um momento de libertação. Por um lado, estamos finalmente a mostrar às pessoas o que andámos a fazer, mas, por outro, dá-nos um alívio enorme poder começar a criar do zero outra vez. Nestes dois anos, crescemos imenso, tanto individualmente como enquanto banda, e estamos mais maduros. Podem olhar para estes três EP como a introdução aos Dog Meet.
O título mantém a sequência dos trabalhos anteriores, «Nº1» e «Dog Meet Nº2». Existe uma ideia de continuidade entre os três EP ou cada lançamento representa uma fase diferente da identidade dos Dog Meet?
Sim, existe definitivamente uma continuidade porque, na verdade, as canções nasceram todas mais ou menos na mesma altura. A diferença é que não foram gravadas todas de uma vez. Fomos experimentando várias coisas pelo meio, com diferentes abordagens de gravação e produção em cada um dos EP.
Portanto, partilham a mesma era de criação, mas não a mesma era de gravação e produção. Se ouvires agora o primeiro e o comparares com este último, notas bem a evolução. Estamos muito mais ligados, conhecemo-nos melhor e sabemos tocar muito melhor juntos. É uma continuidade, sim, mas com muita evolução pelo meio.
A vossa música cruza referências do rock clássico com elementos de rock psicadélico e alternativo. Quais são as principais influências que vos acompanham atualmente e como procuram transformá-las numa linguagem própria?
É sempre complicado descrever as nossas influências porque bebemos um bocado de tudo o que é rock and roll, atual e clássico. Essencialmente, inspiramo-nos naquilo que nós próprios gostaríamos de ouvir numa canção. Numa só música, podes ouvir um toque de The Strokes e dos Beatles ao mesmo tempo.
Quanto à linguagem própria, não é algo que planeemos muito. A canção acaba por se criar a si mesma. Tocamos o mesmo som cem ou duzentas vezes no ensaio e, de forma muito natural, ele ganha a sua própria identidade. Se, a meio do processo, percebermos que aquilo não está a resultar, somos honestos connosco próprios e a ideia fica pelo caminho.
Quando começam a trabalhar numa nova canção, o que surge primeiro: um riff de guitarra, um ritmo de bateria, uma melodia vocal ou uma ideia que vai ganhando forma durante os ensaios?
É sempre uma mistura. Pode começar por qualquer lado. Uma vez, estávamos a ver um concerto dos Thin Lizzy antes do ensaio e o Jimmy comentou que era pena as músicas de hoje em dia já não terem solos de bateria.
Mais tarde, enquanto ensaiávamos uma das malhas do EP, chegámos a um momento da música que pedia qualquer coisa, e eu disse-lhe: «Olha, faz aí um solo de bateria!» A ideia colou e acabou por ficar gravada.
A inspiração está em todo o lado. Essa é só uma das milhões de formas de chegarmos a uma canção.
Em que medida «Dog Meet Nr.3» se distingue dos EP anteriores? Houve alguma mudança na composição, na sonoridade ou na forma como trabalharam em estúdio?
Todos os EP são diferentes entre si. Fizemos questão de não nos repetirmos. Mas, desta vez, o processo foi muito mais intenso e hardcore por causa do estúdio.
Quando começámos a gravar pela primeira vez, havia uma certa «ignorância» da nossa parte, no bom sentido. Mas, quanto mais comecei a ouvir com atenção, mais senti necessidade de melhorar o espaço.
O nosso espaço acompanhou a evolução da banda: começou por ser uma sala de cimento, depois ganhou uns painéis acústicos e, neste EP, já era um estúdio incrível, com pré-amplificadores analógicos que foram, sem dúvida, um dos grandes fatores na evolução da banda neste trabalho.
Como as músicas foram compostas mais ou menos na mesma altura, a produção, a gravação e a mistura foram sempre o maior foco nesta fase.
O vosso processo criativo passa pelo Dog House Studio. Que liberdade vos dá trabalhar num espaço associado à própria banda e até que ponto o ambiente de gravação influencia o resultado final das canções?
Dá-nos um nível de conforto que antes era inimaginável. Podemos deixar a sala toda montada durante semanas, gravar vezes sem conta ou simplesmente arrumar tudo e passar meses só a fazer barulho e a atirar ideias para o ar.
Gostamos de manter um bocado aquele espírito de garagem: inventamos, gravamos no telemóvel para não perder a ideia e só mais tarde colocamos os microfones para gravar as demos e, consequentemente, a música.
Os Dog Meet nasceram e desenvolvem o seu trabalho em São Miguel, nos Açores. A insularidade influencia a vossa música, mesmo quando essa influência não é intencional, ou sentem que a vossa identidade artística poderia ser a mesma em qualquer outro lugar?
Com a internet e as plataformas, acho que o local onde estás no mundo já não dita a tua sonoridade de forma tão crucial. Hoje vivemos numa era completamente aberta. Tens bandas nos Estados Unidos influenciadas pelos Led Zeppelin exatamente da mesma maneira que tens em Portugal.
A insularidade pode influenciar outras coisas, como a velocidade a que crias ou a tua disponibilidade, mas, a nível estritamente artístico, acho que a nossa identidade seria a mesma.
Fazer rock alternativo nos Açores significa trabalhar fora dos principais centros da indústria musical portuguesa. Que dificuldades encontram para divulgar a vossa música e que vantagens reconhecem em construir um projeto a partir das ilhas?
Não sentimos uma grande diferença negativa, muito honestamente. É claro que estamos mais longe dos grandes centros e da indústria, e não temos tantas oportunidades para tocar ao vivo. Mas as vantagens superam tudo isso.
Nas ilhas, a vida corre mais devagar e isso dá-nos uma coisa essencial: tempo. Para teres uma banda, não basta ensaiar; precisas de investir muito mais do que isso e, no continente, as pessoas quase já não têm tempo livre.
Portanto, pode ser um desafio do ponto de vista da indústria, mas, para o processo de fazer música e gravar, estar em São Miguel é espetacular.
O rock psicadélico e as sonoridades associadas às décadas de 1960 e 1970 continuam a influenciar muitos músicos contemporâneos. O que vos atrai nesse universo e como evitam ficar presos à nostalgia?
O que mais nos atrai é a própria essência do som. Aquela cena crua, a componente orgânica, a dinâmica que se cria quando pões uma banda a tocar toda junta na mesma sala. Aqueles pequenos «erros» que não vale a pena sacrificar se o take for bom, um dedo a raspar nas cordas, um ruído de fundo… Essas coisas só acontecem se gravarmos todos juntos. Soam à banda e não a uma produção esterilizada, faixa a faixa.
Para não ficarmos presos na nostalgia, fazemos questão de ouvir muita música moderna. Ouvimos o rock e o pop que se faz atualmente. E, claro, tiramos partido da tecnologia. Estamos em 2026 e há ferramentas incríveis de produção que não existiam nos anos 60 ou 70. Não vamos deixar de as usar. A nossa música tem uma estética vintage, mas também carrega elementos e influências muito atuais.
Quando levam as vossas canções para o palco, procuram reproduzir fielmente o que foi gravado ou gostam de alterar estruturas, prolongar momentos instrumentais e deixar espaço para a improvisação?
Acabamos sempre por prolongar os momentos instrumentais e os solos. Adoramos tocar os nossos instrumentos e divertirmo-nos em palco, por isso damos sempre espaço para a música respirar.
Às vezes, mudo uma ou outra palavra da letra porque faz sentido para interagir com o público naquele momento, ou alguém altera ligeiramente um arranjo de guitarra porque, naquele dia, pareceu fixe fazê-lo assim.
Que lugar ocupa a independência no vosso projeto? Preferem controlar todas as etapas da criação e edição ou gostariam de encontrar parceiros que ajudassem a levar os Dog Meet a novos públicos?
A independência é fixe, mas gostaríamos de ter parceiros que nos ajudassem a crescer. Especialmente alguém que cuidasse do design gráfico, fizesse os nossos cartazes e tratasse da estética da banda, idealmente com uma forte componente de ilustração.
A componente visual é muito importante para nós. É a porta de entrada para as pessoas mergulharem no som.
Às vezes, usamos IA para nos desenrascar nos cartazes, porque recorremos às ferramentas que temos à mão, mas não é a mesma coisa. Preferíamos ter um artista humano e autêntico a trabalhar connosco nessa área.
Além disso, seria muito bom ter um agente, alguém que soubesse vender espetáculos de forma profissional.
Depois de «Dog Meet Nr.3», o que gostariam de fazer a seguir? Estão já a trabalhar em novas canções, pensam avançar para um álbum ou preferem continuar a desenvolver o projeto através de EP?
Já estamos focados no futuro e temos várias canções novas a ganhar forma. Neste momento, estamos fechados no estúdio a fazer as primeiras demos e a perceber para onde queremos levar o nosso som.
Depois desta trilogia, a nossa ideia é avançar para um álbum, algo um pouco mais conceptual. Estamos agora na fase de definir o universo que vamos explorar.
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