Quarta-feira, 26 de Agosto de 2026
Radar Açores

Engengroaldenga está a reinventar a Viola da Terra a partir de Santa Maria

Por Beatriz Ambrósio 26 Ago 2026

A partir de Santa Maria, Engengroaldenga está a levar a Viola da Terra para um território diferente daquele a que o instrumento costuma ser associado. Rui Resendes e Alexandre Fontes cruzam a viola com eletrónica, guitarras, percussão e outras linguagens contemporâneas, mantendo o instrumento no centro da proposta.

O projeto lançou em 2025 o álbum Nalgum Tempo, composto por dez temas originais. Mais do que recuperar repertório tradicional, Engengroaldenga procura perceber o que pode acontecer quando a Viola da Terra é usada como matéria para criar música nova.

Uma história que começa em Santa Maria

Os dois músicos têm percursos ligados à música da ilha. Alexandre Fontes começou a aprender Viola da Terra com o pai e a avó. Rui Resendes iniciou o seu percurso musical numa filarmónica local aos nove anos.

Os caminhos acabaram por cruzar-se em diferentes projetos até ao nascimento de Engengroaldenga, em 2018. A formação começou por trabalhar versões de temas associados ao cancioneiro açoriano, mas foi progressivamente encontrando uma linguagem própria.

Essa mudança é importante para perceber Nalgum Tempo. A tradição continua presente, mas deixou de ser o destino final da música.

 

 

A Viola da Terra como ponto de partida

Em Nalgum Tempo, a Viola da Terra mantém uma presença central, mas aparece integrada numa abordagem contemporânea. O instrumento é colocado em contacto com ritmos, texturas e estruturas que ultrapassam o seu contexto tradicional.

“Terratrónica” é um dos temas que melhor permite entrar neste universo. “Nalgum Tempo”, que dá nome ao álbum, ajuda a perceber a outra dimensão do projeto: existe uma ligação clara à memória, mas também vontade de a deslocar.

É nessa tensão que Engengroaldenga encontra a sua identidade. Não se trata de abandonar a tradição, mas de testar aquilo que ela ainda pode produzir.

A escolha da Faísca 2026

 

“A Viola da Terra também pode ser instrumento de experimentação.”

 

O trabalho do duo chamou também a atenção do Tremor. Engengroaldenga foi selecionado para a Faísca 2026, iniciativa que reuniu propostas musicais provenientes de diferentes ilhas dos Açores.

A seleção colocou o projeto de Santa Maria ao lado de outras propostas emergentes da região e levou Engengroaldenga ao programa do Tremor. Para o duo, foi também uma oportunidade de apresentar uma abordagem à Viola da Terra num contexto dedicado à criação contemporânea.

A presença no festival confirma uma mudança de escala para o projeto, mas a sua origem continua a ser a mesma: Santa Maria e um instrumento profundamente ligado à história musical dos Açores.

Uma tradição que continua a mudar

O interesse de Engengroaldenga está precisamente nessa relação. A Viola da Terra não é tratada apenas como património a preservar. Também pode ser instrumento de experimentação.

Rui Resendes e Alexandre Fontes partem de um elemento reconhecível da música açoriana, mas não ficam presos à forma como ele foi usado no passado. Nalgum Tempo mostra esse caminho com clareza.

Para ouvir primeiro: “Terratrónica” e “Nalgum Tempo”.

Beatriz Ambrósio

Beatriz Ambrósio é jornalista e colaboradora do Música Total, dedicada à cobertura da atualidade musical nacional e internacional. Privilegia uma escrita clara, objetiva e rigorosa, acompanhando lançamentos, concertos, festivais e os principais acontecimentos da indústria da música. O seu trabalho procura informar os leitores de forma rápida e contextualizada, mantendo sempre o foco na relevância das notícias e na proximidade com quem vive a música todos os dias.

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