A relação entre tradição e futuro raramente é equilibrada, mas há quem consiga caminhar nessa linha com clareza. Nos Açores, a viola da terra continua a ser mais do que um instrumento. É memória, identidade e, em alguns casos, um compromisso de vida. Rafael Carvalho tem feito desse compromisso um percurso consistente, onde ensinar, compor e preservar coexistem sem conflito.
Ao longo dos anos, o músico açoriano tem contribuído para expandir o repertório da viola da terra, levando-a para novos contextos sem a descaracterizar. Entre discos, ensino e colaborações, construiu um trabalho que ajuda a manter o instrumento vivo fora do circuito estritamente tradicional.

A viola da terra tem um peso histórico forte nos Açores. Em que momento da tua vida percebeste que este instrumento ia definir o teu percurso musical?
Iniciei a aprendizagem da viola da terra aos 13 anos, no grupo folclórico São Paulo da Ribeira Quente, com o Mestre Carlos Quental. O que ele me dizia sempre era que me estava a ensinar com o sentido de eu também ensinar a outros. Aos 15 anos comecei a ensinar aos amigos da freguesia e, a partir daí, passou a ser uma missão de vida.
Penso que terá sido nessa altura, quando assumi esse papel, que a minha vida começou a estar orientada para a viola da terra.
O teu trabalho tem procurado expandir o repertório da viola da terra. Quando começaste a sentir essa necessidade de criar novas peças para o instrumento?
Desde cedo sempre senti a necessidade de explorar a viola noutras sonoridades. Desde criar algumas variações das peças de folclore, para diversificar, como a tocar no instrumento as músicas que na juventude ouvíamos das nossas bandas preferidas. Os originais, em específico, só começam a surgir há década e meia, com a necessidade de estruturar ideias musicais que me surgiam e de levar o instrumento para outras sonoridades. Para isso contribuiu, também, ter adquirido, na altura, uma nova viola, com outras qualidades de afinação e sonoras, que me permitiram, de imediato, outras abordagens. A viola que eu tinha estava a limitar-me!
O álbum Relheiras, lançado em 2017, marcou uma fase importante do teu percurso a solo. O que representou esse disco no teu caminho como compositor?
Com o meu primeiro álbum “Origens”, em 2012, apresentei 5 originais para viola da terra e esse foi um passo importante na minha exposição enquanto músico. No entanto, a intenção era dar a conhecer o trabalho que desenvolvia na altura e ainda com 5 peças tradicionais na minha execução pessoal. Com “Relheiras”, em 2017, praticamente todas as peças do álbum foram originais meus e algumas que já resultaram de pedidos diversos que me começaram a ser feitos de originais para bandas sonoras de documentários ou genéricos de programas de produção regional. Desse modo, posso afirmar que “Relheiras” trouxe uma afirmação e consolidação do trabalho que vinha a desenvolver e um reconhecimento dessa vertente de composição para a viola da terra.
A composição “Baía da Laja” nasceu inspirada numa paisagem concreta do Pico. Que papel têm os lugares e a memória das ilhas no teu processo criativo?
A peça “Baía da Laja” é inspirada no local com esse nome, em São Mateus do Pico. Viver nos Açores é um privilégio diário e uma inspiração. Por isso, toda a minha composição é inspirada nesses lugares, memórias e vivências. Poder compor para a nossa viola, companheira e confidente dos açorianos, torna tudo isso ainda mais especial.
Nesta peça surge um diálogo entre viola da terra e flauta. Como surgiu a ideia de explorar essa combinação pouco habitual?
Já tinha trabalhado com a Sílvia Oliveira algumas vezes, com participações que ela aceitou integrar com a flauta na Orquestra de Violas da Terra da Ilha de São Miguel. Com o decorrer do tempo veio a ideia de escrever uma peça para duo de flauta e viola da terra. Obviamente que, até estar realmente gravado, temos sempre aquela expectativa de aferir se o resultado final corresponderia ao imaginado. Neste caso em concreto, superou em muito as minhas expectativas.
A colaboração com Sílvia Oliveira trouxe uma dimensão muito própria à música. O que procuras quando escolhes músicos para trabalhar contigo?
Sim. A peça para a viola da terra resume-se a uma melodia em forma de arpejo e a flauta veio acrescentar uma dimensão extraordinária à mesma, dando-lhe mais camadas e leveza. A própria introdução da peça foi idealizada no próprio momento de gravação em estúdio, onde pedimos à Sílvia se conseguiria produzir uma ideia do “som do vento” com a flauta, para dar essa ideia de movimento, e ela de imediato concretizou. A gravação e mixagem estiveram a cargo do amigo Emanuel Cabral.
Quando peço alguma colaboração musical procuro músicos que possam entender a minha visão para as peças, mas acrescentar, com a sua qualidade e experiência, um toque pessoal. Também procuro pessoas responsáveis e comprometidas, pois é a única forma que vejo como séria para se trabalhar com credibilidade.
Tens mais de quarenta composições originais para viola da terra editadas desde 2012. Como olhas hoje para esse percurso de criação contínua?
Com muito orgulho e sentido de missão cumprida. Se, inicialmente, sentia alguma insegurança e até vergonha de apresentar as minhas ideias musicais pela primeira vez, a esta distância analiso as coisas de forma diferente. Acho que esse contributo tem sido importante para a nossa viola da terra e, de certo modo, também vai inspirando outros músicos a dedicarem-se à composição e a mostrarem os seus trabalhos.
Além da criação artística, também tens ligação ao ensino da viola da terra. Que desafios encontras quando transmites este instrumento às novas gerações?
Sim. Desde 1995 que estou ligado ao ensino da viola da terra. Inicialmente em cursos pontuais na Ribeira Quente, mas, depois, na Academia de Música da Povoação, Escola de Violas da Fajã de Baixo e Conservatório Regional de Ponta Delgada. Neste último, lecionei de 2008 a 2022 e tive a missão de estruturação curricular do curso de viola da terra.
Os desafios no ensino são muitos e diários. As dificuldades ainda mais. No entanto, o maior desafio, para mim, será sempre como motivar os alunos. Cada qual tem a sua forma e ritmo de aprendizagem. Uns estudam com vontade, outros só se dedicam na hora da aula ou em momentos de preparação de apresentações públicas. O desafio é sempre saber como conseguir motivar o aluno para a vontade de estudar os conteúdos propostos. Um aluno motivado toca e é tocando que se aprende!
A tradição é muitas vezes vista como algo que deve ser preservado. Até que ponto sentes liberdade para reinventar a viola da terra sem perder a sua identidade?
A tradição deve sempre ser preservada e isso é um assunto que daria uma quantidade de debates sobre esta temática e sobre o que é o entendimento de cada um sobre o que se entende como tradição. No entanto, como também já ouvi e partilho da mesma ideia, uma tradição estanque desaparece. Se não se adaptar aos tempos e às realidades de cada contexto e geração, muitas vezes fica esquecida e desaparece.
Tento que as minhas composições mantenham muito da essência do instrumento, sem lhe alterar em demasia as técnicas de execução tradicionais ou a afinação do instrumento e no sentido de compor para a viola e para as suas potencialidades. Desse modo, desenvolvem-se ainda mais as técnicas que aprendemos do passado e cria-se repertório com conteúdos assentes na tradição. Claro que tudo isso pode ser discutível, dependendo das opiniões pessoais de cada qual e de cada pessoa que ouve essas composições. Não haverá duas pessoas que ouçam uma música da mesma forma ou com o mesmo sentimento e opinião em relação à mesma.
Nos últimos anos tem havido uma renovação da música feita nos Açores. Como observas o momento atual da criação musical açoriana?
Vou seguindo uma nova geração de músicos e de música feita nos Açores, dos mais diversos estilos (claro que com maior atenção para o tradicional ou dentro dos meus gostos musicais pessoais) e vejo muito talento e qualidade que tem surgido no nosso Arquipélago. Aliado aos ditos músicos da “velha guarda” que também continuam a produzir novo material, de elevada qualidade, assisto a uma região que, sendo pequena de população, é enorme de talento.
Sinto-me feliz por partilhar palcos com toda esta gente talentosa, das várias gerações referidas, e grato por ver que alguns consomem e partilham o meu trabalho e eu, do mesmo modo, consumo e partilho o deles. No entanto, ainda falta mais união entre os músicos nos Açores. Seríamos todos individualmente mas mais fortes e valorizados se fôssemos mais unidos colectivamente.
Estar feliz pelo sucesso alheio é uma mais-valia!
O videoclipe de “Baía da Laja” recupera uma composição de 2017 e dá-lhe uma nova vida visual. Que importância têm os formatos audiovisuais na forma como hoje apresentas a tua música?
Dar imagem a uma música é dar-lhe, de certo modo, mais vida e projecção. Poder transportar uma composição de um álbum para o audiovisual dá-lhe outra dimensão e permite que a peça alcance outros públicos e formas de promoção. Daí que a concretização deste videoclipe “Baía da Laja” foi uma forma fundamental de a peça ser reouvida e, de certo modo, valorizada de uma forma que ainda não tinha acontecido.
Neste caso em concreto, foi devido à colaboração da Palco de Ilusões, que produziu o videoclipe para o DVD “10 Anos de Origens” como forma colaborativa e de reconhecimento de um trabalho conjunto, em outras produções, de muitos anos. Também foi fundamental a disponibilidade, talento e amizade da Sílvia Oliveira.
Olhando para o futuro, que caminhos ainda gostarias de explorar com a viola da terra que sentes que continuam por descobrir?
Esta é uma questão para a qual não tenho uma resposta em concreto, uma vez que esses caminhos vão sendo, de certo modo, descobertos diariamente! Tem sido assim ao longo do meu percurso, em que a concretização de cada ideia e sonho levou ao sonho seguinte.
Claro que tenho os meus próximos 2 álbuns já idealizados e várias colaborações musicais sonhadas e que aguardam tempo para concretizar, como também o contexto certo e a música adequada para que aconteçam. Mas vamos deixar esse caminho também em aberto e numa descoberta diária, para que tenha algum mistério e interesse e levarmos o dia a dia com algumas certezas mas também com ainda mais expectativas.

