Com de.bu.te., Esteves sem Metafísica apresenta um dos discos de estreia mais singulares da música portuguesa recente. Nesta entrevista ao Música Total, a cantora e compositora fala da influência de Fernando Pessoa, da importância de crescer em Arruda dos Vinhos, do processo criativo por detrás do álbum e da estreia no NOS Alive. Pelo caminho, reflete sobre a escrita, a fragilidade, a dúvida e a forma como todas essas dimensões se cruzam na sua música.
Num diálogo marcado pela sinceridade e pelo humor, Teresa revela as referências que moldaram o seu universo artístico, explica porque deixou de se preocupar com rótulos e partilha aquilo que espera que o público leve consigo depois de ouvir de.bu.te. ou assistir a um concerto de Esteves sem Metafísica pela primeira vez.
O nome Esteves sem Metafísica remete imediatamente para Álvaro de Campos e para “Tabacaria”. O que encontrou nesse universo que acabou por se tornar parte da sua identidade artística?
Eu não tenho particular interesse em encontrar ou descrever a minha identidade artística, nem sei em que é que ela difere da minha identidade geral. Mas sei que o universo de Fernando Pessoa, que me chegou pelas mãos de um excelente professor de Português nos terríveis tempos do ensino secundário, rasgou o véu entre mim e a minha sensibilidade artística. Tomei consciência, pela primeira vez, de que havia formas de materializar a relação entre o mundo interior e o mundo exterior. Foi a partir daí que comecei a consumir avidamente aquilo a que chamamos arte, sobretudo poesia, literatura, música e cinema. Ou seja, foi Fernando Pessoa quem me levou a construir o universo que hoje tenho.
Cresceu em Arruda dos Vinhos e costuma referir a importância da paisagem e do silêncio. De que forma esse ambiente continua presente nas suas canções?
Se esse ambiente está refletido nas minhas canções, não será de forma deliberada nem consciente. Mas o privilégio de viver numa zona rural é o que me tem dado algum descanso interior, o que para mim é uma coisa inestimável, dada a minha natureza desassossegada, para não dizer atormentada, que já é um termo muito démodé. Esse equilíbrio permite-me trabalhar num ritmo muito próprio, com tempo, espaço e num contacto muito próximo com a Natureza.
Por outro lado, estou muito perto de Lisboa, o que me permite ter uns bochechos de urbanidade, que de vez em quando me fazem falta. Como dizia a Hannah Montana: “It’s the best of both worlds.”
Para além disto tudo, há uma dimensão que me atrai muito: estar inserida numa comunidade mais pequena. Tenho uma tendência natural para escorregar para o eremitério e tudo na vida moderna, principalmente nas cidades, parece atirar-me ainda mais para aí. Em Arruda posso ter esse resguardo, que me é vital, mas, ao mesmo tempo, ir fazendo parte da vida comunitária. É desafiante, mas é assim que quero levar a minha vida.
Antes da música, houve a escrita e a crítica literária e musical. Em algum momento sentiu que a canção era o lugar onde todas essas linguagens se podiam encontrar?
Na verdade, a primeira dessas linguagens a aparecer foi a música. Desde muito cedo que, por influência dos meus pais, oiço muita música muito variada. Acho que é aí que se começa a torcer o pepino. As minhas escolas informais foram os coros de igreja e as casas de Fado, onde fui afinando a sensibilidade musical, perdendo o medo da exposição e descobrindo a criatividade que tinha. A escrita e a crítica, apesar de terem vindo a público antes, surgiram muito mais tarde.
A canção acaba por ser mais uma das linguagens que se relaciona com todas as outras num mesmo lugar: eu própria. Sou o meio através do qual todas essas dimensões se articulam de forma muito particular, e o meu trabalho é a matéria dessa articulação.
O livro A Morte não tem Pátria foi a primeira obra publicada em nome próprio. O que mudou em si entre essa publicação e o nascimento de de.bu.te.?
Estruturalmente não mudou nada. Mas houve uma espécie de grito do Ipiranga. Há, nos dias de hoje, uma enorme reticência por parte dos artistas, sobretudo dos que estão em início de carreira, em considerarem-se, de facto, artistas. É quase como se ser artista fosse um lugar sagrado que não somos dignos de pisar e que estivesse reservado a uns poucos eleitos.
Admitir que se sofre de síndrome do impostor passou a ser uma defesa quase obrigatória, não vá alguém desconfiar que a conta em que me tenho é de tal maneira insuflada que até me considero “artista-artista”. Fui alinhando nessas modas patetas, mas, desde a publicação do livro até ao lançamento do disco, entrou em cena a total indiferença em relação a essas considerações. Estou-me, figurativamente, nas tintas para o título que o meu trabalho me confere. Esse foi um ponto de charneira que me libertou de muitas amarras.
A residência artística em Cernache foi decisiva para algumas das canções do álbum. Que memórias guarda desse período e o que acabou por levar consigo para o disco?
A preponderância da residência artística O Círculo, que fiz em Cernache, vai muito além das músicas que lá compus, duas das quais acabaram por integrar o disco. Foram dois meses em que tive o privilégio de me dedicar inteiramente à criação. Com tempo, espaço e, principalmente, com uma microcomunidade de quatro artistas, cada um da sua área, que fizeram desses dois meses uma experiência de um valor que nunca conseguirei calcular.
Passados quase dois anos, ainda ando a marinar muito do que lá se passou e continuam a revelar-se, de forma inesperada, coisas que nasceram dessa experiência. É uma iniciativa extraordinária dos jesuítas portugueses, que promovem tudo isto sem qualquer custo para os artistas.
Em várias ocasiões tem falado da fragilidade como uma forma de força. Num tempo em que se valoriza tanto a segurança e a certeza, porque é importante preservar a dúvida?
A ideia da fragilidade como lugar onde se encontra a força é antiga. Aprendi-a, e continuo a aprendê-la, com São Paulo, que nos diz, na Segunda Carta aos Coríntios, que “quando sou fraco, então é que sou forte”.
Quanto à dúvida, vejo-a como uma peça sobre coragem em dois atos. O primeiro ato é a coragem de pisar chão movediço, pôr-me em causa, olhar para as minhas certezas e distinguir as que são refúgio das que são convicção. O segundo ato é a coragem de não me afogar nas dúvidas, comprometer-me com as respostas que vou encontrando, não duvidar de tudo a toda a hora e não cair no ceticismo acrítico. Só consigo preservar a dúvida se estas duas condições estiverem presentes.
Os Beatles, a literatura, a cultura irlandesa e até o Fado fazem parte do seu imaginário. Que referências mais inesperadas acabaram por influenciar este primeiro disco?
Na minha cabeça e na minha história, as referências que tenho fazem todo o sentido, por isso não me soam nada inesperadas. Claro que, vistas de fora, podem parecer meio aleatórias. Mas não somos todos um catálogo de referências aparentemente aleatórias?
Para este disco usei coisas muito concretas e de forma consciente, como uma parte da peça espanhola do século XIX Asturias, de Isaac Albéniz, um riff inspirado em Heaven on Their Minds, do musical Jesus Christ Superstar, de Andrew Lloyd Webber, uma batida retirada de Love If Possible, de Shintaro Sakamoto, ou uma melodia que me surgiu quando estava a ouvir e a tentar tocar uma peça de Bach na guitarra.
Depois há também as referências que, por já viverem tão profundamente em mim, acabam por surgir sem que eu as convoque. Os Beatles, a Irlanda, a literatura, o Fado, Tolkien, entre outros, fazem parte desse arquivo mais estrutural.
Há alguma canção de de.bu.te. que tenha sido particularmente difícil de terminar ou de deixar partir para o público?
A mais difícil de dar à luz foi “redenção”. Desde a ideia à composição e à produção. Queria fazer uma coisa meio prog-pop, com várias secções diferentes, pouco texto, cantado quase como um mantra, e com pouco destaque para a minha voz. Depois de muito trabalho, meu e do Sebastião Macedo, que produziu o disco, acabou por ficar aquilo.
A dificuldade de deixar partir para o público é uma coisa que ainda não me aconteceu. Quando estou contente com um resultado, o que me apetece é mesmo largá-lo.
O humor aparece muitas vezes lado a lado com a melancolia na sua forma de olhar para o mundo. Essa combinação surge naturalmente ou é algo que procura conscientemente?
É-me bastante natural. Não sei bem o que a psicologia terá a dizer sobre isto, mas sinto que o humor surge como um mecanismo de sobrevivência. Ajuda-me a articular o desconforto existencial e a pôr-me a mim, aos outros e às coisas no seu lugar. Não há pedestais para nada nem para ninguém porque, no fundo, somos todos, ao mesmo tempo, sagrados e ridículos.
Vai apresentar de.bu.te. no NOS Alive, um dos maiores festivais do país. O que significa viver essa estreia num palco com tanta visibilidade?
Significa perceber que não sou tão inepta como sempre cuidei ser. Sinto que finalmente estou a ter as boas notas que nunca tive no meu percurso escolar. Ir tocar ao NOS Alive vai ser uma espécie de defesa da tese de mestrado para a qual estou tão confiante quanto nervosa. Sei da matéria melhor do que ninguém, mas tenho a responsabilidade de fazer um pequeno brilharete perante o júri que lá estiver.
O que espera que alguém leve consigo depois de ouvir o disco ou assistir a um concerto de Esteves sem Metafísica pela primeira vez?
Espero que o meu disco e os meus concertos sejam um buffet e que cada pessoa se sirva daquilo de que mais sente falta.
Se pudesse deixar uma mensagem à Teresa de 2023, quando editou A Morte não tem Pátria em edição de autor, o que lhe diria hoje?
“Epá, ó Maria Teresa, não és assim tão importante e especial. És apenas um precioso grão de areia num universo infinito, e isso basta-te.”
LER: https://musicatotal.net/esteves-sem-metafisica-apresenta-o-album/

