Há festivais que crescem pelo tamanho do recinto. O Faial da Terra Blues continua a crescer por uma razão bem mais difícil de alcançar: a identidade.
Entre 30 e 31 de julho e 1 de agosto, a pequena freguesia da costa sul de São Miguel volta a receber músicos que ajudaram a escrever a história dos blues e da soul, provando que nem sempre são as grandes cidades a acolher os momentos mais especiais da música ao vivo.
Enquanto muitos festivais portugueses disputam os mesmos artistas e seguem fórmulas semelhantes, o Faial da Terra escolheu outro caminho. Aqui, o cartaz internacional convive naturalmente com os músicos açorianos, a gastronomia local, o artesanato, o mar e uma comunidade que faz do festival muito mais do que uma sucessão de concertos. É essa autenticidade que continua a distinguir um evento que cresce sem perder a alma.
Gisele Jackson traz aos Açores uma parte da história da soul norte-americana
A grande protagonista da quinta edição é Gisele Jackson & The Shu Shu’s, um nome que dispensa apresentações para quem acompanha a história da soul e dos blues.
Natural de Baltimore, começou a cantar nos clubes de Brooklyn até ser escolhida para integrar as lendárias Raylettes, o grupo vocal de Ray Charles. Poucas artistas podem afirmar que receberam a confiança daquele que continua a ser uma das figuras maiores da música norte-americana.
Ao longo da carreira dividiu palco com Donna Summer e James Brown, abriu espetáculos para Tito Puente, Bette Midler, The Commodores e The B-52’s, cantou na tomada de posse do Presidente Bill Clinton e passou por salas históricas como o Carnegie Hall e o Madison Square Garden.
No Faial da Terra será acompanhada pelos The Shu Shu’s, com Abel Boquera no órgão, Dave Wilkinson na guitarra e Caspar St. Charles na bateria.
Mais do que uma cabeça de cartaz, Gisele Jackson chega aos Açores como uma artista que transporta consigo décadas de história da soul, do rhythm and blues e do gospel, fazendo de cada atuação uma verdadeira viagem pelas raízes da música afro-americana.
Quando chegam os concertos principais, o público já vive o espírito do evento. E, mesmo depois de terminarem, a festa continua com DJ Antoine C, DJ Helder Figueiredo e DJ Flamingo.
Três artistas norte-americanos elevam o nível internacional do festival
Se Gisele Jackson representa a herança da soul, Neal Black simboliza uma das guitarras mais respeitadas do blues contemporâneo.
Natural do Texas, soma mais de trinta anos de carreira, mais de duzentas composições editadas e dezasseis álbuns. Tocou ao lado de Chuck Berry, Johnny Copeland, Gerardo Velez e Harvey Brooks, abriu concertos de Stevie Ray Vaughan e viu temas seus gravados por nomes como Taj Mahal e Billy Price.
Entre os Estados Unidos e França, continua a afirmar-se como uma referência do blues elétrico moderno, cruzando a tradição texana com o rock e uma abordagem profundamente pessoal da guitarra.
Completa o trio internacional Juwana Jenkins, cantora oriunda da Filadélfia que encontrou no blues a continuidade natural das raízes gospel que a acompanharam desde criança. Atualmente residente em Praga, distingue-se pela intensidade das interpretações e pela forma como cruza soul, gospel, funk e blues clássico, preservando o espírito da velha escola enquanto lhe acrescenta uma energia contemporânea.
A presença destes três artistas confirma a ambição crescente do festival, que continua a trazer aos Açores músicos habituados aos grandes palcos internacionais.
O blues também se fala com sotaque açoriano
A identidade do Faial da Terra Blues nunca dependeu apenas dos nomes internacionais. O festival continua a reservar um espaço privilegiado para os músicos da região, valorizando projetos que ajudam a construir uma verdadeira cena blues nos Açores.
Uma das novidades é a estreia em São Miguel dos The Mahogony Brothers, projeto que junta Felix The First e Flávio Cristóvam. Amigos desde a adolescência, encontram nas raízes do Delta Blues e da folk americana um ponto de encontro onde as guitarras acústicas e as harmonias assumem o protagonismo.
Regressa também a Kevin Leo Blues Band, liderada pelo músico e produtor italiano Kevin Leo, atualmente radicado nos Açores, num concerto onde blues, soul, rock e funk se cruzam de forma natural.
O cartaz regional fica completo com o regresso da Patricia Ferreira Blues Project, uma artista açoriana que deixou excelente impressão na sua anterior passagem pelo festival e regressa agora para mostrar a evolução do seu percurso.
Ao colocar artistas locais e internacionais lado a lado, o Faial da Terra Blues continua a demonstrar que o talento açoriano merece o mesmo palco e a mesma atenção.
Um festival onde a música encontra o Atlântico
Quem visita o Faial da Terra Blues percebe rapidamente que a experiência começa muito antes do primeiro acorde.
À medida que o sol desce sobre a costa sul de São Miguel, o Palco Sunset transforma-se num dos pontos mais procurados do recinto. Entre mesas ao ar livre, o aroma da gastronomia regional e a vista sobre o Atlântico, a música acompanha o final da tarde com atuações da Farra da Terra, do projeto Helder F & Bandarra e dos The Bett Kings Duo, criando um ambiente descontraído que se tornou uma das imagens de marca do festival.
Quando chegam os concertos principais, o público já vive o espírito do evento. E, mesmo depois de terminarem, a festa continua com DJ Antoine C, DJ Helder Figueiredo e DJ Flamingo.
Durante os três dias há ainda passeios de barco, snorkeling, kayak, paddle, artesanato local e dezenas de propostas gastronómicas que reforçam a ligação do festival ao território e à comunidade.
É precisamente essa ligação que explica o crescimento do Faial da Terra Blues. Num verão repleto de festivais, poucos conseguem oferecer uma experiência tão próxima, tão genuína e tão ligada ao lugar onde acontecem. Entre a serra e o Atlântico, o blues encontra aqui um cenário improvável, mas talvez por isso mesmo absolutamente inesquecível.
