Hoje, 5 de outubro, Maria João e João Farinha levam o seu Electric Duo à ilha de Santa Maria. Amanhã, a mesma formação segue para São Jorge. É uma pequena imagem daquilo que está por trás da 20.ª edição do Festival Internacional dos Açores: num arquipélago onde cada deslocação entre ilhas pesa, a própria circulação dos artistas faz parte do programa.
Sob o mote “A Terra e o Sonho”, o festival prolonga-se entre 2026 e 2027 e assume uma dimensão particularmente ambiciosa: levar programação cultural às nove ilhas, cruzando música, teatro, cinema, formação e criação com as comunidades locais.
Maria João e João Farinha atravessam o arquipélago
O concerto de Maria João & João Farinha Electric Duo acontece esta segunda-feira, às 21h00, na Igreja de Nossa Senhora da Vitória, em Santa Maria, com entrada livre. Na terça-feira, 6 de outubro, o duo apresenta-se às 21h30 no Auditório Municipal de Velas, em São Jorge.
A proposta parte da voz de Maria João e da abordagem eletrónica de João Farinha. Temas originais e clássicos do jazz encontram sonoridades eletrónicas num formato que procura espaço para improvisação, liberdade e diálogo entre os dois músicos.
É precisamente esta passagem de uma ilha para outra que dá outra leitura ao festival. O concerto não fica preso a um único centro cultural. Viaja. E, ao viajar, obriga a programação a confrontar-se com a geografia dos Açores.
O festival não fica pela música
A programação dos próximos meses mostra que o FIA quer trabalhar várias linguagens artísticas.
A Terceira recebe a 10 de outubro Nicolás Pérez-Nievas Baquedano, no Palácio dos Capitães-Generais. No Pico, Artur Pizarro e Daniel Bernardes apresentam-se a 20 de outubro, seguindo-se uma masterclass no dia seguinte. No dia 22, Pizarro leva as Sonatas de Chopin a São Miguel, enquanto Daniel Bernardes apresenta um cine-concerto de Nosferatu no Teatro Faialense.
A programação continua depois com Rafael Kyrychenko, na Terceira, e Heroínas do Destino, de Carla Caramujo e Pedro Lopes, em São Jorge. Em novembro, a Graciosa recebe Entre Mulheres, de Ana Paula Russo e Nuno Dias.
O resultado é um programa que não trata a descentralização como uma nota de rodapé. A localização faz parte da própria construção do festival.
Quando a comunidade também entra na criação
Existe outra dimensão que merece atenção: o FIA não quer apenas levar espetáculos às ilhas. Há projetos em que os habitantes passam a fazer parte do próprio processo artístico.
Em Rabo de Peixe, na ilha de São Miguel, O sonho e a terra, de Alexandra Battaglia, junta workshop comunitário e criação artística entre 29 de outubro e 6 de novembro, com apresentação prevista para 7 de novembro. Na Terceira, A ilha EnCena, de Custódia Gallego, segue uma lógica semelhante, com trabalho comunitário e criação entre o final de novembro e o início de dezembro.
Esta escolha altera a relação habitual entre palco e público. Em vez de uma programação que chega pronta, existe um período de trabalho antes da apresentação. O território deixa de ser apenas o lugar onde o espetáculo acontece e passa a participar naquilo que o espetáculo é.
É uma diferença pequena no papel, mas importante quando se fala de um festival distribuído por nove ilhas.
“A Terra e o Sonho” também olha para a cultura açoriana
A 20.ª edição inclui ainda momentos de reflexão sobre o próprio percurso cultural da Região.
A 9 de novembro, o Teatro Micaelense recebe a conferência “50 Anos de Autonomia – O Estado da Cultura nos Açores”. Mais tarde, a 29 de novembro, a Biblioteca de Angra do Heroísmo acolhe a conferência comemorativa da 20.ª edição do Festival Internacional dos Açores.
É uma forma de fechar o círculo. O festival começou por ser uma proposta artística e chega à sua 20.ª edição transformado também num espaço para discutir cultura, território e futuro.
Nos Açores, fazer circular música e criação artística nunca é apenas uma questão logística. É uma escolha cultural.
E esta edição do FIA parece querer assumir precisamente isso: nove ilhas não como nove públicos separados, mas como diferentes pontos de um mesmo palco.
