Maglore por Elisa Imperial (@imperioteca)
A Maglore lança “Fluxo Natural”, sexto álbum de estúdio da banda baiana, e encontra no amor uma forma de atravessar o tempo sem ficar presa ao passado. Entre referências dos anos 70 e 80, rock brasileiro, MPB, indie e folk, o novo disco renova a sonoridade do grupo sem perder a importância da canção.
O tempo é uma das matérias-primas de “Fluxo Natural”. Não aparece apenas como tema, mas como uma força que atravessa as onze canções e também a própria história da Maglore.
Formada em 2009, a banda chega ao sexto álbum com uma ideia que poderia parecer simples: seguir o movimento das coisas. Mas o conceito não aponta para uma aceitação passiva. Em “Fluxo Natural”, deixar acontecer também implica escolher como continuar.
Teago Oliveira, vocalista e guitarrista, coloca o amor no centro dessa equação. Não apenas o amor romântico, mas aquilo que permanece quando tudo o resto muda. Mesmo perante imagens de guerra, destruição, corpos transformados ou futuros incertos, o sentimento aparece como uma espécie de âncora.
É uma ideia suficientemente grande para sustentar um álbum inteiro.
Um disco brasileiro que olha para os anos 70 e 80
A Maglore não abandona o seu território. O indie, o rock brasileiro, o folk e a MPB continuam presentes, mas “Fluxo Natural” apresenta uma produção mais moderna e uma atenção especial às sonoridades dos anos 80, com referências da década anterior.
A influência não surge como exercício de nostalgia. O disco olha para essas décadas como matéria musical e não como uma época a recuperar. Guitarras, teclados, sintetizadores e diferentes texturas ajudam a construir um som mais amplo, mas a canção continua a ocupar o centro.
“Farol” é uma das peças fundamentais desse universo. A ideia de deixar perder, deixar estar e continuar a deixar o menino sonhar funciona quase como uma porta de entrada para o álbum.
“Raio de Sol” aproxima o amor da própria mecânica do planeta, usando a relação entre o sol e a lua para imaginar a possibilidade de um sentimento sobreviver ao tempo. “O Rio e O Mar” leva essa permanência para outro lugar, entre memória, saudade e a expectativa de um reencontro.
A geografia também pesa. Rios, mar, chuva, sol, luar e paisagens da Bahia aparecem ao lado de imagens mais abstractas. É um disco que parece querer manter os pés no chão mesmo quando começa a falar de sonhos, fé ou futuros possíveis.
A definição de rock brasileiro cabe em “Fluxo Natural”, mas não chega para o explicar. A Maglore parte daí e abre espaço para uma paleta mais larga.
Amor, guerra, ficção e a vontade de continuar
O amor não aparece sempre de forma luminosa. Em “Palestina Nos Seus Olhos”, uma das canções mais densas do álbum, a guerra e a destruição entram em confronto com gestos mínimos de intimidade.
A canção aproxima a violência colectiva de imagens quotidianas, criando um contraste entre aquilo que é destruído à escala de um país e aquilo que continua a existir dentro de uma relação humana. O resultado é uma das passagens mais pesadas do disco, mas também uma das que melhor traduzem a ideia central de permanência.
“Amor Sci-Fi” desloca essa transformação para um cenário futurista. A personagem perde a casa, o corpo e a própria história e encontra no risco e no presente uma possibilidade de libertação.
Em “Sonho Real”, a fronteira entre fantasia e realidade torna-se mais difícil de distinguir. A pergunta sobre querer acordar ou permanecer dentro do sonho resume uma canção onde o amor funciona quase como uma passagem para outra dimensão.
Depois chega “Tudo Bem”, talvez o momento mais próximo de um abraço dentro do álbum. É uma balada sobre aceitar os dias difíceis e encontrar algum espaço para a autocompaixão quando tudo parece demasiado pesado.
“O mundo muda, as pessoas mudam, as bandas também. A questão passa a ser o que permanece.”
A Maglore encontra ainda espaço para uma característica muito brasileira em “Curva de Trivela”. O futebol transforma-se em metáfora para a vida e para a capacidade de encontrar uma saída quando os caminhos mais óbvios não funcionam. A “malandragem” aparece aqui como inteligência prática, uma maneira de correr por fora quando os holofotes estão noutro lugar.
Uma capa feita de tempo e movimento
A própria imagem de “Fluxo Natural” segue o conceito do disco.
A capa, criada por Teago Oliveira, coloca formas geométricas sobre um fundo preto. O vazio, o espaço e a sensação de cosmos convivem com quatro cores que representam raios de luz e diferentes emoções.
Existe ainda uma segunda leitura. As quatro linhas contínuas e paralelas podem representar os quatro elementos da Maglore, cada um com a sua própria cor, mas todos a avançarem na mesma direcção.
É uma imagem simples e bastante eficaz porque não tenta ilustrar literalmente o título. Sugere movimento sem mostrar exactamente para onde ele conduz.
Essa mesma lógica aparece em “Para Lô”, composta por Lucas Gonçalves e Carime Elmor. A canção inclui uma homenagem a Lô Borges e Márcio Borges e recebeu um arranjo inspirado na fase dos anos 80 de Caetano Veloso.
“Caravelas” fecha o álbum com outra imagem ligada à paisagem brasileira. Escrita musicalmente por Lucas Gonçalves e com letra em parceria com Gustavo Galo, a canção olha para um dia de verão nas praias da Bahia, entre a baía, o alto mar e ondas que parecem montanhas feitas de água.
São referências diferentes, mas existe uma linha entre elas. A Maglore olha para a memória brasileira sem transformar o passado numa peça de museu.
Onze canções para continuar em movimento
“Fluxo Natural” foi construído ao longo de um período em que a banda conciliava a criação com as digressões. As primeiras ideias começaram a surgir em 2024 e as gravações aconteceram entre diferentes espaços de estúdio, incluindo o Karpa Studio, Fleeting Media, Dissenso Studio e Buena Familia Studio.
A produção ficou entregue a Otávio Bonazzi, Teago Oliveira e à própria Maglore. A mistura foi realizada por Otávio Bonazzi e a masterização por Fili Filizzola. O álbum é lançado pela LOCO Records.
O resultado é um disco que não tenta esconder a passagem do tempo. Pelo contrário, aceita-a como parte da própria identidade da banda.
Depois de quase duas décadas de actividade, a Maglore não precisa de provar que consegue continuar. O desafio é outro: perceber o que ainda pode mudar sem perder aquilo que torna uma canção sua.
“Fluxo Natural” responde com movimento.
Não procura uma resposta definitiva para o tempo. Escolhe continuar dentro dele.
FAIXA A FAIXA
Sul-Americano
Uma canção sobre coragem e sobre vencer o medo de sonhar, inspirada na história de Ney Matogrosso e numa identidade sul-americana marcada pela resistência.
Farol
Uma das chaves do álbum, entre aceitação, escolha e a vontade de continuar a sonhar.
Palestina Nos Seus Olhos
Guerra, destruição e afecto encontram-se numa das canções mais densas do disco.
Sonho Real
Amor e fantasia confundem-se numa canção sobre a fronteira entre sonho e realidade.
Raio de Sol
Uma balada romântica sobre permanência e a possibilidade de um amor atravessar o tempo.
O Rio e O Mar
Memória, saudade e reencontro numa canção sobre um sentimento que permanece para lá da ausência.
Amor Sci-Fi
Uma narrativa futurista sobre perda, transformação e libertação.
Para Lô
Homenagem a Lô Borges e Márcio Borges, com um arranjo inspirado na fase dos anos 80 de Caetano Veloso.
Tudo Bem
Uma canção de conforto sobre aceitar os momentos em que tudo parece demasiado difícil.
Curva de Trivela
Futebol e malandragem transformados numa metáfora para sobreviver e encontrar caminhos alternativos.
Caravelas
Uma viagem pelas paisagens de verão da Bahia, entre o mar, as ondas e a sensação de liberdade.
FICHA TÉCNICA
Maglore
Teago Oliveira, voz e guitarra
Lelo Brandão, guitarra e teclado
Lucas Gonçalves, baixo e voz
Felipe Dieder, bateria
Produção: Otávio Bonazzi, Teago Oliveira e Maglore
Engenharia de som: Otávio Bonazzi, Teago Oliveira e Lucas Gonçalves
Mistura: Otávio Bonazzi
Masterização: Fili Filizzola
Lançamento: LOCO Records
