Quarta-feira, 7 de Outubro de 2026
Curtas

Gilmar Bolla 8 chega a Portugal com “Inteligência Ancestral” e 40 anos de história

Por Jorge Silva Medeiros 7 Out 2026

Antes de o Manguebeat ganhar um nome, uma estética e uma dimensão internacional, já havia em Pernambuco uma música feita de memória, comunidade e tambor. Gilmar Bolla 8 esteve dentro dessa história. Fundador do Lamento Negro e integrante da formação original de Chico Science & Nação Zumbi, o percussionista, cantor e compositor chega agora a Portugal para assinalar quatro décadas de carreira com um projeto que olha para essa herança sem a transformar em peça de museu.

Entre outubro e novembro, Gilmar Bolla 8 apresenta IA – Inteligência Ancestral em Lisboa, Porto e Coimbra, acompanhado pelo Combo X. O espetáculo cruza percussão, cultura popular e tecnologia digital, mas a ideia central está num instrumento muito mais antigo do que qualquer máquina: o tambor.

 

 

É nele que Gilmar encontra uma forma de conhecimento transmitida entre gerações. O tambor comunica, organiza, convoca e guarda memória. Em IA – Inteligência Ancestral, essa dimensão ancestral encontra teclados, samplers, guitarra e beats, numa formação que não procura reconstruir o passado, mas perceber o que ainda pode nascer dele.

O passado não fica parado

A trajetória de Gilmar Bolla 8 está ligada a um dos momentos de maior transformação da música popular brasileira.

No Lamento Negro, grupo afro-cultural de Peixinhos, em Olinda, o músico participou de uma experiência onde música, cultura negra, dança e comunidade se cruzavam. Mais tarde, a sua ligação à formação original de Chico Science & Nação Zumbi colocou essa experiência no centro de uma linguagem que viria a marcar profundamente a música brasileira.

O Manguebeat abriu espaço para que ritmos e instrumentos associados à cultura popular pernambucana dialogassem com rock, hip-hop, música eletrónica e outras linguagens urbanas. O que parecia uma colisão acabou por revelar uma lógica: a tradição não precisava de ficar presa ao passado para continuar a ser tradição.

É essa lógica que permanece em IA – Inteligência Ancestral.

“Não queremos repetir o passado. Queremos reconhecer os códigos que nos formaram e utilizá-los para criar o novo. É fazer o passado e o futuro dançarem juntos”, afirma Gilmar.

A frase resume bem a proposta. O músico não regressa aos tambores para os repetir da mesma maneira. Regressa a eles porque continuam a ter coisas para dizer.

Quando o tambor encontra a máquina

O nome do espetáculo estabelece desde logo uma provocação. Fala-se hoje de inteligência artificial, mas Gilmar parte de uma inteligência que existia muito antes dos algoritmos: aquela que nasce do corpo, da escuta, da experiência e da transmissão coletiva.

O tambor é apresentado como tecnologia ancestral. Não no sentido de uma comparação fácil com os dispositivos contemporâneos, mas enquanto ferramenta de comunicação e transmissão de conhecimento.

No palco, essa ideia ganha forma através do encontro entre a percussão de Gilmar e o universo sonoro do Combo X, composto por Alisson Costa, nos teclados e sampler, e Márcio Alves, na guitarra.

A eletrónica não aparece para apagar a origem. Serve para continuar a pesquisa.

É uma distinção importante. O projeto não pretende colocar tradição e tecnologia em lados opostos. Pelo contrário, procura perceber o que acontece quando ambas entram no mesmo espaço.

E talvez seja aí que a experiência acumulada por quatro décadas se torna mais interessante: Gilmar conhece suficientemente bem a origem para não precisar de a imitar.

Portugal como lugar de encontro

A passagem por Portugal começa a 16 de outubro, na Fábrica Braço de Prata, em Lisboa, com um concerto de Gilmar Bolla 8 & Combo X. A noite terá ainda a participação do Baque do Tejo, grupo dedicado ao maracatu de baque virado, criando uma ligação direta entre a tradição pernambucana e a cena percussiva portuguesa.

No dia seguinte, 17 de outubro, Gilmar regressa ao mesmo espaço para orientar a oficina “Repertório do Tambor”. A sessão, dirigida a grupos percussivos, parte da experiência do músico para trabalhar repertório, ritmo e linguagem.

A programação segue para o Porto, onde, a 18 de outubro, o Instituto Pernambuco recebe uma palestra de Gilmar Bolla 8, um pocket show e a exibição de Dynamite Som: O Futuro é Lamento Negro, no âmbito do Dia da Música Popular Brasileira.

Em Coimbra, o músico integra o MATE Festival, entre 24 e 27 de outubro. O concerto com o Combo X está marcado para 25 de outubro, estando ainda previstas outras atividades, incluindo oficina, DJ set e exibição do documentário.

A programação inclui também uma sessão do filme seguida de debate com Gilmar Bolla 8 na Casa Brasil, em Lisboa, em data ainda por definir, e a participação na Sarapatel Session, a 2 de novembro, na Fábrica Braço de Prata.

A memória também passa pelo cinema

A presença de Dynamite Som: O Futuro é Lamento Negro nesta circulação não é um detalhe secundário.

Realizado por Lia Letícia e Pedro Severien, o filme recupera a história do Lamento Negro através de uma narrativa que imagina um futuro onde a música e a dança desapareceram. Duas jovens viajam ao passado à procura dessas memórias e encontram o grupo afro-cultural de Peixinhos.

Gilmar integra o elenco e assina a trilha sonora.

O filme prolonga, por outra linguagem, a mesma questão que atravessa o espetáculo: o que acontece quando uma comunidade deixa de transmitir aquilo que sabe?

A resposta passa pela memória, mas também pela criação. Preservar uma cultura não significa congelá-la. Significa permitir que continue a ser utilizada, transformada e passada adiante.

É precisamente isso que Gilmar Bolla 8 parece procurar nesta nova etapa.

Quatro décadas depois dos primeiros passos, o tambor continua no centro. Mudaram os instrumentos à sua volta, mudaram as tecnologias e mudou o mundo onde essa música circula. Mas permanece a necessidade de comunicar através dele.

E talvez seja essa a verdadeira inteligência ancestral de que fala o espetáculo: saber de onde se vem sem deixar que a origem impeça o próximo passo.

PROGRAMAÇÃO EM PORTUGAL

16 de outubro, 22h
Gilmar Bolla 8 & Combo X
Fábrica Braço de Prata, Lisboa
Entrada: 10 euros
Abertura: Baque do Tejo

17 de outubro, 14h30–17h30
Oficina “Repertório do Tambor”
Fábrica Braço de Prata, Lisboa
Inscrição: 12 euros

18 de outubro, 15h
Palestra, pocket show e exibição de Dynamite Som: O Futuro é Lamento Negro
Instituto Pernambuco, Porto

25 de outubro
Gilmar Bolla 8 & Combo X
MATE Festival, Coimbra

Data a definir
Exibição de Dynamite Som: O Futuro é Lamento Negro + debate com Gilmar Bolla 8
Casa Brasil, Lisboa

2 de novembro, 21h
Sarapatel Session
Fábrica Braço de Prata, Lisboa

Jorge Silva Medeiros

Jorge Silva Medeiros é técnico de som na RTP e fundador do Música Total, um dos projetos editoriais dedicados à música com maior longevidade em Portugal, dentro da plataformas. Ligado ao setor da comunicação e da música há mais de duas décadas, criou também a Rádio Atlântida e tem desenvolvido um trabalho contínuo na divulgação da música portuguesa, dos artistas emergentes e dos grandes eventos culturais, assim como produção de eventos.

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