Quarta-feira, 30 de Setembro de 2026
Curtas

De NAPA e MAQUINA a PMDS e Buried by Lava: 10 bandas e projetos para acompanhar na música portuguesa em 2026

Por Jorge Silva Medeiros 30 Set 2026

Em 2026, a música portuguesa está a acontecer em vários lugares ao mesmo tempo. Lisboa e Porto continuam a concentrar grande parte da atenção, mas basta olhar um pouco mais longe para encontrar outras linguagens, outras salas e outros percursos. Nos Açores e na Madeira, mas também no circuito independente de várias cidades do continente, há artistas a construir agora aquilo que poderá definir o seu percurso nos próximos anos.

Este é o nosso radar.

Não é uma lista dos artistas mais populares nem uma classificação. São dez bandas e projetos que, por razões diferentes, vale a pena acompanhar durante este ano. Alguns já deram passos importantes. Outros estão precisamente naquela fase em que ainda é possível descobrir a música antes de ela chegar a públicos maiores.

“Não existe uma única nova música portuguesa. Existe uma rede de projectos a trabalhar em direcções diferentes.”

 

NAPA

 

 

Os NAPA chegaram a um ponto em que já não faz sentido falar apenas de uma banda emergente.

A banda madeirense conseguiu transformar canções de estrutura pop numa identidade reconhecível, com uma escrita em português que não depende de grandes artifícios para funcionar. O percurso construído nos últimos anos colocou-os perante públicos cada vez maiores e 2026 surge como um ano importante para perceber como vão consolidar esse crescimento.

O desafio passa agora por continuar a evoluir sem perder a simplicidade que esteve desde cedo no centro da sua música.

 

Ana Lua Caiano

 

 

Existe uma espécie de fio invisível entre a música tradicional portuguesa e a electrónica de Ana Lua Caiano.

Voz, percussão, samples e elementos da tradição aparecem reorganizados numa linguagem contemporânea que não tenta reproduzir o passado. A artista parte dele para construir outra coisa.

É essa capacidade de transformar referências antigas sem as tornar decorativas que torna o projecto particularmente interessante para acompanhar em 2026.

MAQUINA.

O som dos MAQUINA. não pede licença.

A banda construiu uma linguagem onde rock, electrónica e repetição rítmica se encontram numa música particularmente física. A experiência ao vivo é parte essencial desse universo, e a circulação do projecto por festivais e salas tem ajudado a alargar o seu público.

Em 2026, interessa acompanhar precisamente essa passagem: como cresce uma banda que nasceu com uma identidade tão marcada quando começa a chegar a palcos cada vez maiores?

PMDS

Nos Açores, a música electrónica também tem uma história própria.

PMDS, formado por Pedro Sousa e Filipe Caetano, vem construindo um percurso ligado à experimentação e à criação electrónica. Em 2026, o projecto apresenta Redenção, o quarto álbum de estúdio, reforçando uma trajectória que já ultrapassou a fase da primeira experiência.

É um nome particularmente interessante para quem acompanha aquilo que acontece musicalmente fora dos circuitos mais visíveis do continente.

Buried by Lava

São Miguel tem uma relação forte com o rock e com as linguagens mais pesadas, e os Buried by Lava fazem parte dessa paisagem.

A banda do Nordeste foi uma das propostas seleccionadas para a edição de 2026 da Faísca, iniciativa ligada ao Tremor, colocando-a num contexto de descoberta e circulação dentro da própria cena musical açoriana.

O interesse está também aí: perceber como uma banda nascida numa ilha trabalha uma linguagem musical que não precisa de esconder a sua origem para dialogar com o exterior.

Baleia Baleia Baleia

Baleia Baleia Baleia ocupa um espaço muito próprio dentro da música independente portuguesa.

A banda trabalha o rock e a canção com uma abordagem que ganha outra dimensão quando passa para o palco. Existe intensidade, mas também uma preocupação evidente com a construção das músicas.

É um daqueles projectos que vale a pena acompanhar não apenas pelo próximo lançamento, mas pela forma como continua a desenvolver uma identidade construída ao longo do percurso.

Hetta

Hetta representa uma das zonas mais interessantes da nova música alternativa portuguesa.

A passagem pelo Palco Coreto do NOS Alive 2026 colocou a banda perante uma audiência mais ampla e funcionou também como sinal de crescimento dentro do circuito nacional.

Agora interessa perceber o que acontece quando uma banda passa dos espaços de descoberta para palcos com maior exposição. O crescimento pode mudar uma banda. Nem sempre muda aquilo que realmente importa.

Xico Gaiato

A Cada Passo Que Dou marcou uma nova etapa no percurso de Xico Gaiato.

O álbum de estreia, editado pela Omnichord Records, é sobretudo um ponto de partida. Depois do primeiro disco desaparece parte da expectativa criada pela estreia e começa a fase em que um artista precisa de demonstrar para onde quer levar a sua música.

É exactamente esse momento que torna Xico Gaiato um nome para continuar a acompanhar.

Mães Solteiras

Mães Solteiras aparece num território onde a descoberta continua a ser fundamental.

A presença no circuito de festivais independentes em 2026 ajuda a colocar o projecto perante novos públicos e permite observar uma banda ainda em construção, sem a pressão de ter já uma identidade completamente fechada.

E talvez seja esse o ponto mais interessante. Acompanhar um projecto enquanto ele ainda está a descobrir até onde pode ir.

Romeu Bairos

A música açoriana contemporânea também passa pela relação entre tradição e criação actual.

Romeu Bairos tem trabalhado precisamente nesse espaço, mantendo uma ligação evidente à identidade musical açoriana enquanto procura levá-la para outros contextos e públicos.

É um percurso que merece atenção porque levanta uma questão importante para a música das ilhas: como transportar uma identidade local para fora do território sem a transformar num simples cartão-postal?

O que estes nomes dizem sobre a música portuguesa

Não existe uma única nova música portuguesa.

Existe uma rede de projectos, salas, festivais, editoras e artistas que estão a trabalhar em direcções diferentes. Uns procuram novas formas de fazer pop. Outros recuperam elementos tradicionais. Outros aproximam rock, electrónica, hip hop ou música experimental.

E os Açores e a Madeira fazem parte dessa história.

Talvez essa seja uma das mudanças mais interessantes dos últimos anos: já não é necessário esperar que um projecto saia de Lisboa ou do Porto para começar a ser ouvido.

É possível encontrá-lo numa ilha, numa pequena sala, num festival independente ou numa plataforma digital.

Por isso, este radar não termina aqui.

2026 ainda vai dar muitos nomes novos à música portuguesa.

Jorge Silva Medeiros

Jorge Silva Medeiros é técnico de som na RTP e fundador do Música Total, um dos projetos editoriais dedicados à música com maior longevidade em Portugal, dentro da plataformas. Ligado ao setor da comunicação e da música há mais de duas décadas, criou também a Rádio Atlântida e tem desenvolvido um trabalho contínuo na divulgação da música portuguesa, dos artistas emergentes e dos grandes eventos culturais, assim como produção de eventos.

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