Em 2026, a música portuguesa está a acontecer em vários lugares ao mesmo tempo. Lisboa e Porto continuam a concentrar grande parte da atenção, mas basta olhar um pouco mais longe para encontrar outras linguagens, outras salas e outros percursos. Nos Açores e na Madeira, mas também no circuito independente de várias cidades do continente, há artistas a construir agora aquilo que poderá definir o seu percurso nos próximos anos.
Este é o nosso radar.
Não é uma lista dos artistas mais populares nem uma classificação. São dez bandas e projetos que, por razões diferentes, vale a pena acompanhar durante este ano. Alguns já deram passos importantes. Outros estão precisamente naquela fase em que ainda é possível descobrir a música antes de ela chegar a públicos maiores.
“Não existe uma única nova música portuguesa. Existe uma rede de projectos a trabalhar em direcções diferentes.”
NAPA
Os NAPA chegaram a um ponto em que já não faz sentido falar apenas de uma banda emergente.
A banda madeirense conseguiu transformar canções de estrutura pop numa identidade reconhecível, com uma escrita em português que não depende de grandes artifícios para funcionar. O percurso construído nos últimos anos colocou-os perante públicos cada vez maiores e 2026 surge como um ano importante para perceber como vão consolidar esse crescimento.
O desafio passa agora por continuar a evoluir sem perder a simplicidade que esteve desde cedo no centro da sua música.
Ana Lua Caiano
Existe uma espécie de fio invisível entre a música tradicional portuguesa e a electrónica de Ana Lua Caiano.
Voz, percussão, samples e elementos da tradição aparecem reorganizados numa linguagem contemporânea que não tenta reproduzir o passado. A artista parte dele para construir outra coisa.
É essa capacidade de transformar referências antigas sem as tornar decorativas que torna o projecto particularmente interessante para acompanhar em 2026.
MAQUINA.
O som dos MAQUINA. não pede licença.
A banda construiu uma linguagem onde rock, electrónica e repetição rítmica se encontram numa música particularmente física. A experiência ao vivo é parte essencial desse universo, e a circulação do projecto por festivais e salas tem ajudado a alargar o seu público.
Em 2026, interessa acompanhar precisamente essa passagem: como cresce uma banda que nasceu com uma identidade tão marcada quando começa a chegar a palcos cada vez maiores?
PMDS
Nos Açores, a música electrónica também tem uma história própria.
PMDS, formado por Pedro Sousa e Filipe Caetano, vem construindo um percurso ligado à experimentação e à criação electrónica. Em 2026, o projecto apresenta Redenção, o quarto álbum de estúdio, reforçando uma trajectória que já ultrapassou a fase da primeira experiência.
É um nome particularmente interessante para quem acompanha aquilo que acontece musicalmente fora dos circuitos mais visíveis do continente.
Buried by Lava
São Miguel tem uma relação forte com o rock e com as linguagens mais pesadas, e os Buried by Lava fazem parte dessa paisagem.
A banda do Nordeste foi uma das propostas seleccionadas para a edição de 2026 da Faísca, iniciativa ligada ao Tremor, colocando-a num contexto de descoberta e circulação dentro da própria cena musical açoriana.
O interesse está também aí: perceber como uma banda nascida numa ilha trabalha uma linguagem musical que não precisa de esconder a sua origem para dialogar com o exterior.
Baleia Baleia Baleia
Baleia Baleia Baleia ocupa um espaço muito próprio dentro da música independente portuguesa.
A banda trabalha o rock e a canção com uma abordagem que ganha outra dimensão quando passa para o palco. Existe intensidade, mas também uma preocupação evidente com a construção das músicas.
É um daqueles projectos que vale a pena acompanhar não apenas pelo próximo lançamento, mas pela forma como continua a desenvolver uma identidade construída ao longo do percurso.
Hetta
Hetta representa uma das zonas mais interessantes da nova música alternativa portuguesa.
A passagem pelo Palco Coreto do NOS Alive 2026 colocou a banda perante uma audiência mais ampla e funcionou também como sinal de crescimento dentro do circuito nacional.
Agora interessa perceber o que acontece quando uma banda passa dos espaços de descoberta para palcos com maior exposição. O crescimento pode mudar uma banda. Nem sempre muda aquilo que realmente importa.
Xico Gaiato
A Cada Passo Que Dou marcou uma nova etapa no percurso de Xico Gaiato.
O álbum de estreia, editado pela Omnichord Records, é sobretudo um ponto de partida. Depois do primeiro disco desaparece parte da expectativa criada pela estreia e começa a fase em que um artista precisa de demonstrar para onde quer levar a sua música.
É exactamente esse momento que torna Xico Gaiato um nome para continuar a acompanhar.
Mães Solteiras
Mães Solteiras aparece num território onde a descoberta continua a ser fundamental.
A presença no circuito de festivais independentes em 2026 ajuda a colocar o projecto perante novos públicos e permite observar uma banda ainda em construção, sem a pressão de ter já uma identidade completamente fechada.
E talvez seja esse o ponto mais interessante. Acompanhar um projecto enquanto ele ainda está a descobrir até onde pode ir.
Romeu Bairos
A música açoriana contemporânea também passa pela relação entre tradição e criação actual.
Romeu Bairos tem trabalhado precisamente nesse espaço, mantendo uma ligação evidente à identidade musical açoriana enquanto procura levá-la para outros contextos e públicos.
É um percurso que merece atenção porque levanta uma questão importante para a música das ilhas: como transportar uma identidade local para fora do território sem a transformar num simples cartão-postal?
O que estes nomes dizem sobre a música portuguesa
Não existe uma única nova música portuguesa.
Existe uma rede de projectos, salas, festivais, editoras e artistas que estão a trabalhar em direcções diferentes. Uns procuram novas formas de fazer pop. Outros recuperam elementos tradicionais. Outros aproximam rock, electrónica, hip hop ou música experimental.
E os Açores e a Madeira fazem parte dessa história.
Talvez essa seja uma das mudanças mais interessantes dos últimos anos: já não é necessário esperar que um projecto saia de Lisboa ou do Porto para começar a ser ouvido.
É possível encontrá-lo numa ilha, numa pequena sala, num festival independente ou numa plataforma digital.
Por isso, este radar não termina aqui.
2026 ainda vai dar muitos nomes novos à música portuguesa.
