Em 1994, Honório Aguiar tinha 14 anos quando subiu pela primeira vez a um palco. Foram apenas dois concertos com os Bifanagain. Podia ter ficado por ali. Mais de três décadas depois, continua a cantar em palco com os Drvzka. Pelo meio ficaram várias bandas, mudanças de instrumento, viagens, gravações e uma passagem pelo Canadá que levou o músico açoriano para muito longe da cena onde tudo começou.
A história de Honório é também uma história de continuidade. Não a continuidade de uma única banda ou de um único estilo, mas a de um músico que atravessou diferentes momentos do underground micaelense sem perder a ligação à música pesada.
Quando o palco ainda era o princípio de tudo
A entrada nos Bifanagain aconteceu quando Honório tinha apenas 14 anos. Dois concertos foram suficientes para deixar a primeira marca, mas seria em 1996, com os Hangover, que o percurso começaria a ganhar outra dimensão.
Em 2004, os Hangover passaram a chamar-se Tolerance 0. A mudança de nome acompanhou uma nova fase e uma banda que rapidamente ganhou espaço dentro da cena pesada açoriana. Honório assumiu sobretudo a voz e tornou-se uma das figuras centrais da presença da formação em palco.
Os Tolerance 0 tinham uma ambição (tinham qualidade e inovação) que não ficava limitada aos concertos nos Açores. Essa vontade ficou particularmente evidente em 43 Minutes of Hate, trabalho com uma forte componente conceptual inspirada em 1984, de George Orwell. O próprio título recupera a ideia dos “Two Minutes Hate” do romance, transformando-a num ponto de partida para uma reflexão sobre ódio coletivo e manipulação social.
Mas a história dos Tolerance 0 não ficou apenas registada em discos e concertos.
Dos Açores para o Canadá
A determinada altura, os Tolerance 0 fizeram uma escolha que alteraria a escala da experiência: foram para o Canadá.
A banda permaneceu cerca de 18 meses no país, procurando desenvolver uma carreira internacional e testar a sua música num contexto muito diferente daquele em que tinha crescido. Para uma formação nascida numa cena insular, a mudança significava mais do que atravessar uma fronteira. Significava entrar num circuito musical de outra dimensão e perceber o que acontecia quando uma banda dos Açores deixava de estar protegida pela familiaridade da sua própria cena.
A experiência canadiana tornou-se um dos capítulos mais marcantes do percurso de Honório. Quando regressou, a história não tinha terminado. Apenas tinha mudado de forma.
Entre a guitarra e a voz
Nos Trauma Prone, Honório trocou o microfone pela guitarra. A mudança mostra uma característica que atravessa toda a sua carreira: a relação com a música nunca ficou presa a uma única função dentro de uma banda.
Pouco depois, voltaria à voz com os Hatin’ Wheeler. A banda aproximava hardcore, punk e metal, apostando numa linguagem directa e particularmente intensa em palco.
A 18 de julho de 2009, os Hatin’ Wheeler editaram o EP From the Core, reunindo temas que o público já conhecia dos concertos. O lançamento ajudou a consolidar a identidade da formação e, nesse mesmo ano, a banda recebeu a distinção de Melhor Banda em Palco nos Prémios Metalicídio 2009.
A passagem seguinte aconteceu com os Trigger Made Solution, ou TMS. Mais uma vez como vocalista, Honório integrou uma formação composta por músicos provenientes de diferentes projectos da cena pesada açoriana.
O grupo editou o promo EP Bound At Birth, com os temas “Bound At Birth”, “I Am Ghost” e “Cracks in the Hourglass”. O trabalho foi gravado, misturado e masterizado nos Açores por Carlos Cabral, com as vozes captadas por José Miranda.
A actividade de Honório estendeu-se ainda a colaborações com outros nomes da cena local. Em 2010 participou com os Morbid Death na faixa “Insane”, acrescentando mais um capítulo a uma história que nunca se desenvolveu em linha recta.
Uma geração passa, outra começa
É precisamente essa ausência de uma linha recta que torna o percurso de Honório interessante.
As bandas mudaram. Os estilos também. Em determinados momentos esteve atrás de um microfone; noutros, com uma guitarra nas mãos. Algumas formações ficaram pelo caminho, outras ganharam uma segunda vida através de novos nomes e novos músicos.
A ligação aos Açores, porém, permaneceu.
Hoje, essa ligação passa pelos Drvzka, banda de uma geração mais recente do metal açoriano. Honório integra a formação como vocalista, partilhando as vozes com Ruben Bento.
Os Drvzka também representam uma transformação sonora. Depois de uma fase inicialmente associada ao gothic metal, a banda aproximou-se de uma abordagem mais pesada, incorporando influências de melodic death metal. O grupo tem vindo a apresentar novas composições e a participar em iniciativas ligadas à divulgação da música pesada produzida nos Açores, incluindo as compilações Azores & Metal.
Há aqui uma espécie de passagem de testemunho, mas sem que Honório tenha abandonado o seu próprio lugar. Continua dentro da cena, agora ao lado de músicos de outra geração.
É talvez essa a imagem mais reveladora deste percurso.
Em 1994, eram dois concertos com uma banda chamada Bifanagain. Em 2026, são mais de três décadas de palcos, bandas, mudanças e experiências acumuladas.
Honório Aguiar não ficou associado a uma única formação porque a sua história nunca foi a de uma única banda.
Foi a história de continuar.
E, enquanto houver palco, a história ainda não acabou.

