iNWATER: “A banalidade e a facilidade podem tornar-se atalhos perigosos para a criação artística”

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Num tempo em que a velocidade parece valer mais do que a profundidade, os iNWATER seguem um caminho diferente. A banda lisboeta tem vindo a construir um universo próprio onde rock alternativo, eletrónica, narrativa visual e reflexão existencial coexistem sem concessões. Com mais de 250 mil visualizações acumuladas no YouTube e uma crescente atenção internacional, o grupo prepara a chegada de Wet Dreams With You, um álbum de estreia que promete revelar um projeto pensado como uma experiência completa e não apenas uma coleção de canções.

À boleia do lançamento de “In Code”, o mais recente single da banda, conversámos com os iNWATER sobre as origens do projeto, o impacto do crescimento além-fronteiras, a importância da identidade artística e a visão que continuam a defender numa indústria cada vez mais dominada pelo consumo rápido. Pelo meio, há referências a David Lynch, Fernando Pessoa, liberdade criativa e à necessidade de continuar a sonhar quando tudo parece empurrar para o contrário.

Antes dos iNWATER existirem oficialmente, qual foi o momento em que perceberam que havia aqui uma identidade própria e não apenas uma experiência entre músicos?

Olá a todos os que acompanham a Música Total.

Não existiu propriamente um momento isolado ou uma revelação instantânea. Foi um crescimento gradual, quase orgânico, à medida que nos fomos conhecendo enquanto músicos, mas sobretudo enquanto indivíduos. A amizade entre todos acabou por consolidar profundamente a forma como comunicamos, criamos e nos entregamos à música.

A identidade dos iNWATER nasceu muito dessa fusão entre personalidade, sensibilidade e visão artística. Desde o início percebemos que, para nós, fazer música nunca poderia ser apenas um exercício casual. Tinha de existir uma experiência singular, intensa e o mais profissional possível, algo capaz de refletir verdadeiramente aquilo que somos por dentro.

O vosso som mistura rock alternativo e eletrónica de uma forma muito visual. Que artistas, discos ou filmes ajudaram a moldar esse imaginário?

É uma pergunta muito interessante, porque existe realmente uma intenção deliberada em traduzir imaginários cinematográficos para dentro da música. Procuramos quebrar a barreira entre aquilo que se escuta e a dimensão cognitiva onde habitam os pensamentos mais profundos, subconscientes e difíceis de verbalizar, quase como se tentássemos transformar estados emocionais em paisagens sonoras.

Há uma procura constante por criar imagens dentro da cabeça do ouvinte.

Se tivéssemos de resumir algumas influências, talvez diríamos que existe uma mistura entre o surrealismo inquietante de David Lynch, a profundidade conceptual de Pink Floyd e a dimensão estética e emocional de Marilyn Manson. Gostamos dessa ideia de arte que não entrega respostas diretas, mas que cria atmosferas capazes de provocar interpretação e introspeção.

Lisboa ainda influencia diretamente a forma como escrevem música ou o projeto já vive mais num espaço digital e internacional?

(Risos)

Lisboa é uma cidade maravilhosa, sem dúvida, mas talvez nunca tenha influenciado diretamente a nossa abordagem musical de uma forma óbvia. Se tivéssemos de retirar alguma inspiração da alma lisboeta, seria provavelmente através da literatura e da sua dimensão melancólica e contemplativa.

Pensamos, por exemplo, em Fernando Pessoa e na sua capacidade de viajar pelo foro psicológico à procura de expressão e identidade. Existe algo dessa introspeção que nos fascina.

E depois há também a nostalgia silenciosa da Lisboa antiga, aquelas madrugadas quase vazias, suspensas no tempo, onde a cidade parece respirar de outra forma. Talvez exista um pouco dessa atmosfera dentro da nossa música.

Os vossos lançamentos recentes ultrapassaram as 250 mil visualizações no YouTube. Sentem que existe finalmente um público a descobrir a banda fora de Portugal?

Sentimos que este crescimento é consequência de um trabalho muito intenso e consistente que temos vindo a desenvolver para levar os iNWATER a um público cada vez maior. Felizmente, os números mostram-nos que existe um crescimento particularmente significativo fora de Portugal, o que nos deixa extremamente felizes.

Temos recebido muito carinho de vários países, mensagens muito emocionantes e até pedidos para levarmos a tour Wet Dreams With You para fora. Isso significa muito para nós, porque demonstra que a música consegue atravessar fronteiras culturais e criar ligações reais.

Gostaríamos muito que isso acontecesse. Vamos ver o que o futuro reserva.

“In Code” parece uma faixa mais direta e intensa. O que mudou no vosso processo criativo desde os primeiros temas até agora?

Na verdade, não mudou assim tanto quanto possa parecer à primeira escuta. “In Code” faz parte do universo de Wet Dreams With You, um álbum que já se encontra totalmente gravado e produzido. Apesar de apresentar uma energia mais direta e intensa, continua profundamente integrado dentro da narrativa conceptual do disco.

Foi gravado na mesma fase e partilha exatamente a mesma visão estética e uma produção extremamente meticulosa. Talvez revele apenas uma faceta dos iNWATER que ainda não tinha sido tão exposta ao público.

Optámos estrategicamente por lançar os temas de forma gradual porque sentimos que isso permite às músicas respirarem individualmente, quase como capítulos de um livro. Hoje vivemos rodeados de estímulos constantes e de consumo imediato. Para nós, fazia sentido criar espaço para que cada canção pudesse ser absorvida com tempo, atenção e profundidade.

No fundo, gostamos da ideia de existir sempre um livro por terminar, algo que ainda não revelou todas as suas páginas.

O conceito de mensagem cifrada presente no novo single pode ser interpretado de várias formas. O que vos interessava explorar emocionalmente nesta canção?

Temos sempre algum cuidado em revelar demasiado sobre o verdadeiro significado das músicas, porque acreditamos que a interpretação pessoal faz parte da experiência artística. O mais interessante para nós é que cada pessoa possa filtrar a canção através das suas próprias vivências e emoções.

Dentro da nossa narrativa, “In Code” representa uma zona de transição, quase um espaço de perigo e transformação. Existe a necessidade de uma expansão da consciência para que determinado processo ritualístico possa realmente produzir efeito.

É uma música sobre libertação, mas também sobre travessia. Sobre atravessar algo desconhecido para alcançar uma nova perceção de liberdade.

A componente visual dos iNWATER tem um peso muito forte. Hoje uma banda alternativa precisa de pensar a música também como linguagem visual?

Acreditamos que quanto mais riqueza sensorial existir dentro de um projeto artístico, maior será a capacidade de criar impacto emocional. A música, por si só, já é extremamente poderosa e sensorial, mas quando é acompanhada por uma linguagem visual coerente, quase cinematográfica, consegue atingir uma dimensão ainda mais imersiva.

Vivemos rodeados de estímulos permanentes e, por isso, faz-nos sentido que a música dialogue com outras formas de expressão. Para nós, a componente visual nunca deve funcionar como decoração ou estratégia vazia, tem de ser uma extensão genuína da identidade artística.

Acima de tudo, procuramos autenticidade. E a criatividade, para nós, é uma das formas mais puras de liberdade.

Conseguem identificar um concerto, uma sessão de gravação ou um momento específico em que sentiram que a banda deu um salto real?

Um dos momentos que guardamos com mais carinho foi, sem dúvida, a primeira vez que subimos a palco. Existia uma mistura muito intensa entre adrenalina, nervosismo, felicidade e uma energia quase impossível de descrever.

Naquela noite sentimos verdadeiramente que existia algo maior a unir-nos através da música. Pode soar a cliché, mas foi exatamente essa sensação.

Também houve uma reação muito positiva por parte do público e das equipas técnicas, o que nos fez perceber que estávamos no caminho certo. Todo o trabalho de estúdio, preparação e dedicação que tivemos para criar uma experiência forte ao vivo começou ali a fazer sentido.

Foi um momento marcante e transformador para a banda.

Como têm vivido o equilíbrio entre independência artística e crescimento internacional? Existe pressão para adaptar o som a mercados maiores?

A independência artística está profundamente ligada à nossa integridade criativa e humana. Até ao momento, felizmente, nunca sentimos uma obrigação real para alterar a nossa identidade ou adaptar o som a tendências exteriores.

As pessoas procuram arte porque necessitam de uma ligação emocional verdadeira. A música existe precisamente para criar essa ponte entre quem cria e quem escuta. Claro que a indústria e a dimensão comercial são importantes para expandir um projeto, mas acreditamos que devem funcionar como plataformas de suporte e não como mecanismos de intervenção artística.

Existe, por vezes, o risco de a lógica comercial esquecer que há emoção tanto no emissor como no receptor. E aquilo que as pessoas procuram, no fundo, é autenticidade, algo genuíno onde se possam reconhecer emocionalmente.

O álbum Wet Dreams With You parece estar a construir um universo muito próprio. Há um fio narrativo a ligar todas as faixas?

Existe definitivamente um cosmos muito próprio dentro deste álbum. Talvez não um fio narrativo linear, mas antes vários sonhos dispersos que orbitam em torno da mesma temática emocional e existencial.

Cada música representa quase um estado diferente de consciência, um estágio necessário para chegar à ideia de que a realidade talvez só exista verdadeiramente quando somos capazes de a sonhar.

Há várias camadas dentro do disco, algumas mais imediatas, outras mais silenciosas e demoradas. Tal como acontece na vida, existem músicas que fazem sentido num determinado momento e outras que apenas muitos anos mais tarde revelam a sua verdadeira dimensão.

É menos um percurso fechado e mais uma viagem infinita.

O panorama alternativo português continua pequeno comparado com outros países. O que acham que ainda falta para mais projetos nacionais conseguirem romper fronteiras?

Gostaríamos muito de ver um investimento mais sério e apaixonado na música e na cultura alternativa em Portugal. E, quando falamos em investimento, não nos referimos apenas à dimensão financeira, mas também ao envolvimento humano, emocional e artístico.

Existe ainda algum desinteresse estrutural em estimular novos projetos e em acreditar verdadeiramente na exportação da nossa criatividade. A música é algo profundamente pessoal e, por isso, torna-se essencial que exista paixão nas pessoas que trabalham diretamente nos diferentes setores da indústria.

Mas essa responsabilidade também pertence aos músicos. É importante continuar a procurar identidade, originalidade e risco artístico. Explorar o desconhecido deveria ser um fascínio constante.

A banalidade e a facilidade podem tornar-se atalhos perigosos para a criação artística. Acreditamos que a cultura portuguesa tem capacidade para atravessar fronteiras de forma muito mais expressiva, desde que exista visão, coragem e investimento real.

Quando olham para os próximos anos, qual é a maior ambição dos iNWATER: crescer em números, alcançar novos palcos ou preservar acima de tudo uma identidade artística própria?

(Sorrisos)

Sem querermos soar demasiado ambiciosos, embora talvez sejamos, acreditamos que todos esses pontos são fundamentais e inseparáveis. Crescer artisticamente, alcançar novos públicos e preservar a nossa identidade fazem parte do mesmo equilíbrio.

Tudo está interligado. Focarmo-nos apenas num único objetivo significaria negligenciar outras partes essenciais do percurso dos iNWATER.

Acima de tudo, queremos continuar a construir algo verdadeiro, sólido e emocionalmente honesto, independentemente da dimensão que a banda possa alcançar.

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