Quarta-feira, 22 de Julho de 2026
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Carmen Raposo: “Ser músico independente nos Açores é uma questão de sobrevivência e teimosia”

Por Mafalda Matos 21 Jul 2026

Com um percurso marcado pela música de raiz açoriana, pela descoberta de novas sonoridades e por uma carreira construída sem atalhos, Carmen Raposo regressa com um novo single que reforça a identidade artística que tem vindo a afirmar nos últimos anos. Entre a tradição e a contemporaneidade, a cantora, compositora e percussionista continua a criar um universo muito próprio, onde a memória, a paisagem e a poesia ocupam um lugar central.

Nesta conversa com o Música Total, Carmen Raposo fala sobre o novo lançamento, recorda o impacto das experiências vividas em Lisboa e na Guiné-Bissau, reflete sobre os desafios da música de autor e deixa um retrato sincero da realidade dos músicos independentes nos Açores. Uma entrevista onde também revela os projetos que prepara para o futuro e a forma como encara o seu percurso artístico, sempre ao ritmo do seu próprio tempo.

 

O novo single chega agora ao público. O que representa este lançamento nesta fase da sua carreira?

Mostra o meu desejo de continuar a fazer música após o Estios e Tormentas (2023) e os singles que se seguiram, a solo ou em parceria. Traz também, julgo eu, algum amadurecimento destes últimos anos. Vamos aprendendo à medida que concretizamos projetos: ora com os erros que cometemos, ora com as pequenas conquistas que vamos alcançando.

Cresceu em São Miguel rodeada pela música de raiz açoriana. De que forma essa herança continua presente nas canções que escreve hoje?

É uma herança tão entranhada em mim que se torna imediatamente reconhecível na minha música. Apesar disso, procuro sempre que o meu trabalho seja um projeto original e com uma identidade vincadamente minha.

Foi a primeira mulher açoriana a integrar, como baterista, uma banda de metal gótico. Que impacto teve essa experiência na artista que é atualmente?

Para além de uma bagagem prática que hoje se manifesta através dos instrumentos de percussão tradicional que integro nos meus projetos, essa experiência foi fundamental em vários níveis. Despertou em mim o gosto genuíno pela criação artística e pela dinâmica de tocar em banda. Mas, acima de tudo, penso que me trouxe a obstinação e a resiliência necessárias para conciliar a paixão pela música com uma carreira profissional que, por si só, já é bastante exigente.

Viveu em Lisboa e na Guiné-Bissau, onde aprofundou o contacto com a percussão tradicional africana. Que marcas deixaram essas vivências na sua linguagem musical?

Abrir horizontes através do contacto com outras realidades traz-nos sempre novas perspetivas. Se viver em Lisboa me permitiu assistir a concertos dos mais diversos estilos, em Bissau o impacto veio do contacto com a genuinidade de um povo que tem o ritmo a correr-lhe nas veias, sem que a escassez material seja um impedimento para o manifestar. Foi lá que, através de aulas de djambé com o grande percussionista Wilson da Silva, tive a oportunidade de pôr as mãos na massa, aprender a tocar e mergulhar nos ritmos da África Ocidental.

O álbum Estios e Tormentas revelou uma compositora muito ligada à memória, à paisagem e às emoções. Considera que o novo single abre um novo capítulo ou prolonga esse universo?

Penso que este trabalho prolonga esse universo, talvez com um pouco mais de maturidade na voz e na interpretação, mas a linha musical e o seu conteúdo poético não são marcadamente diferentes. Representam a minha verdade musical.

A identidade açoriana surge frequentemente nas suas letras, mas sem cair em clichés. Como encontra esse equilíbrio entre tradição e contemporaneidade?

Para mim, a letra é um elemento fulcral numa canção. Ela tem de conciliar aspetos que considero essenciais: uma mensagem transmitida de forma poética, sem cair no facilitismo da oralidade coloquial, e que encaixe perfeitamente na sonoridade musical. Este equilíbrio não é fácil e não descanso enquanto não o alcanço. Procuro também trazer sempre elementos da nossa realidade açoriana para ilustrar a mensagem. Além de vivermos numa envolvência cheia de identidade e de ela fazer parte de mim, acredito que essa proximidade permite que as pessoas compreendam melhor a mensagem que estou a transmitir.

Nos concertos utiliza instrumentos como o djambé e o adufe, criando uma dimensão muito própria em palco. O que procura transmitir ao público através dessa combinação?

Não comecei a levar estes instrumentos para o palco de forma premeditada. Eles é que se fizeram levar! Quando dei por mim, eles já lá estavam e passaram a fazer parte. Em miúda, já massacrava a cabeça aos meus pais porque não parava de fazer percussão na mesa das refeições. É algo que, genuinamente, faz parte de mim. Pelo facto de serem instrumentos de cariz tradicional, associo-os naturalmente à minha paixão pela música de raiz tradicional, seja ela portuguesa ou não.

Trabalhar ao lado de músicos como Mário Raposo e Aníbal Raposo influenciou a sua forma de compor e interpretar? Em que aspetos?

Quanto ao meu pai, completamente. Como já referi, a inspiração que trago da música dele é reconhecida de imediato. Cresci a ouvir tudo o que ele me dava a conhecer, inclusive a sua música. Relativamente ao Mário Raposo, como é ele quem cria os arranjos dos meus temas, a sua marca musical está muito presente na minha. É uma verdadeira simbiose. Portanto, sim: sou totalmente influenciada por estes dois grandes músicos, algo que assumo com muito orgulho e gratidão por ter esta oportunidade.

A música de autor enfrenta atualmente muitos desafios para chegar ao público. Como olha para o panorama musical português e para o espaço disponível para projetos independentes?

Olho para a música em Portugal com preocupação e alguma tristeza. Atualmente, quem faz música de autor tem muita dificuldade em chegar às pessoas. Quando ligamos a rádio, ouvimos quase sempre os mesmos artistas. Parece que só há espaço para o que é comercial e fácil de vender, e a qualidade, tanto da música como das letras, é muitas vezes deixada para segundo plano.

Se no continente já é difícil, aqui nos Açores é ainda pior. O nosso mercado é pequeno e temos muito poucos palcos para tocar. Somos excluídos dos “festivais das massas”, mas também muitos dos projetos independentes locais acabam excluídos dos festivais regionais alternativos, por estes se fecharem em nichos musicais muito restritos. No final, quase não nos sobra espaço para mostrar o nosso trabalho. Ser músico independente em Portugal já é uma luta; nos Açores, é mesmo uma questão de sobrevivência e teimosia.

Sendo uma artista açoriana, sente que hoje existem mais oportunidades para que os músicos das ilhas consigam alcançar projeção nacional?

Sendo muito honesta, acho que não. A realidade é que os músicos que têm a verdadeira ambição de chegar a um público maior acabam, quase sempre, por ter de fazer as malas e partir.

É verdade que existe um ou outro projeto que até consegue tocar em alguns palcos fora daqui e passar nas rádios nacionais mantendo a residência nos Açores. Mas são exceções à regra e, infelizmente, diria, por tempo limitado. No fim, a distância física ainda pesa muito.

Que artistas ou discos continuam a inspirá-la, mesmo que pertençam a universos musicais muito diferentes do seu?

Sempre ouvi música de estilos muito diversos ao longo da minha vida.

Atualmente, tenho escutado bastante jazz fusion, como Esperanza Spalding, Snarky Puppy, GoGo Penguin ou Avishai Cohen, mas acabo frequentemente sintonizada na Antena 2 a ouvir música clássica. Em paralelo, acompanho de perto a música portuguesa de autor independente, como A Garota Não ou Rita Dias, bem como projetos contemporâneos com fortes raízes na música tradicional, de que são exemplo Emmy Curl, Retimbrar ou os Cara de Espelho.

Consumo também música africana e de expressão lusófona, inspirando-me em nomes como Mário Lúcio, a eterna Sara Tavares, Mayra Andrade e Fattú Djakité. A par de tudo isto, claro, faço sempre questão de acompanhar de perto a riqueza da criação musical que se desenvolve aqui nos Açores.

Depois deste novo single, que projetos podemos esperar de Carmen Raposo nos próximos meses? Há novos concertos, colaborações ou mesmo um novo disco em preparação?

Por decisão pessoal, optei por não agendar concertos para este verão. Após um ano profissional particularmente exigente, sinto necessidade de aproveitar este período para desacelerar e, quem sabe, regressar à criação artística.

Ainda assim, posso adiantar que estou a preparar um concerto noutra ilha, previsto para o primeiro trimestre do próximo ano. Em paralelo, tenho em mãos um projeto coletivo de grande fôlego: um disco totalmente distinto, criado em coautoria, mas que ainda não verá a luz do dia este ano.

Felizmente, não sinto a obrigatoriedade de estar constantemente em palco. Para mim, a música é, acima de tudo, um espaço de liberdade e uma necessidade de exteriorizar o que trago dentro de mim. E quero que assim continue: sem pressões, respeitando o meu próprio tempo e, acima de tudo, saboreando o caminho.

Carmen Raposo lança novo single e afirma a identidade

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Mafalda Matos

Mafalda Matos é jornalista no Música Total, onde assina sobretudo peças sobre [novidades musicais / entrevistas / cultura regional]. Com [10 anos] ligada ao jornalismo cultural, tem acompanhado de perto [festivais, lançamentos nacionais, etc.] e é uma das vozes mais regulares do Radar Nacional e da secção de Entrevistas do site.