Daphné Chenel encontrou em Lisboa mais do que uma cidade para viver. Foi aqui que atravessou uma parte decisiva da vida adulta, construiu novas rotinas, se descobriu enquanto mulher e artista e começou a perceber de que forma um lugar pode acabar por fazer parte da nossa identidade.
“Lisbonne”, o primeiro single de Les contours, nasce precisamente dessa relação. A canção olha para Lisboa sem a transformar num postal, mas como uma cidade real, quotidiana, feita de subidas, descidas, contradições, memórias e pequenas paisagens que se tornam familiares com o tempo.
Nesta conversa com o Música Total, Daphné Chenel fala sobre a relação com Lisboa, a construção sonora de “Lisbonne”, o processo de criação de Les contours, a importância da autodescoberta e a colaboração musical com o irmão, Barnabé Chenel. Fala também sobre a avó portuguesa, a ligação crescente a Portugal e a forma como viver entre diferentes países começou a moldar a sua identidade artística.
“Lisbonne” fala de uma cidade que escolheste para viver, mas também da pessoa em que te tornaste enquanto vivias nela. Quando percebeste que Lisboa já fazia parte da tua identidade?
Acho que foi sobretudo ao longo dos últimos anos que percebi o quanto Lisboa acabou por moldar a pessoa em que me tornei. É engraçado porque, no fundo, uma cidade está ali, não muda propriamente, e pode parecer um pouco abstrato pensar que pode ter uma influência tão grande na nossa identidade.
Mas acho que sair do nosso país, recomeçar a vida noutro lugar e ter de construir uma nova rotina muda inevitavelmente muitas coisas dentro de nós. Lisboa foi, e continua a ser, uma etapa muito importante da minha vida. É uma cidade onde me sinto em casa, onde tive espaço para me descobrir enquanto jovem mulher e onde me senti livre para ser cada vez mais a pessoa que queria ser.
Na canção dizes “Ma capitale, on se ressemble, toujours en montées et en redescente”. O que é que Lisboa tem de ti e o que é que tu tens de Lisboa?
Uma das coisas de que sempre gostei em Lisboa é precisamente esse lado um pouco caótico. Está presente na arquitetura, na calçada, no barulho, no facto de nem tudo estar perfeitamente alinhado. Eu venho de Paris, onde, pelo menos na minha perspetiva, tudo parece muito mais organizado e simétrico.
Eu sou uma pessoa muito emocional. Às vezes sinto tudo com muita intensidade, as coisas transbordam, fazem barulho, vão um pouco em todas as direções. E acho que, de certa forma, faz sentido para mim sentir-me mais em sintonia com uma cidade assim.
Quando digo que Lisboa está «sempre a subir e a descer», é obviamente também uma coisa muito literal. É a cidade das sete colinas e estamos constantemente a subir e a descer. Mas, no fim, a vista quase sempre compensa. Às vezes damos por nós a subir uma ladeira enorme e, de repente, aparece-nos uma das vistas mais bonitas da cidade.
Isso fez-me pensar muito na minha própria vida e na minha personalidade. Há dias em que sinto que nada está a correr bem, que nada vai resultar, e depois esse momento passa e, algum tempo mais tarde, estou numa fase em que tudo está muito melhor e em que até as coisas mais difíceis começam a fazer sentido.
Acho que é aí que está também a nossa semelhança: nas subidas e nas descidas. É um pouco a minha forma de olhar para a vida: sei que há momentos mais difíceis, mas também sei que acabam por passar. E acho que é preciso aceitar a subida para, depois, conseguirmos aproveitar a descida.
Quiseste evitar uma visão demasiado turística ou romântica de Lisboa? Que Lisboa querias realmente colocar dentro desta canção?
Sim, completamente. Acho que simplesmente quis falar de Lisboa tal como a vejo, com os meus próprios olhos. Uma cidade que se tornou parte do meu dia a dia e cujos recantos fui conhecendo cada vez melhor com o tempo.
Já passei aquela fase de lua de mel com Lisboa. Hoje também vejo os seus defeitos, as suas contradições, como acontece com qualquer lugar quando passa a fazer parte do nosso quotidiano. E estou a aprender a gostar dessas coisas também. Um pouco como acontece comigo própria, no fundo.
Era essa Lisboa que queria pôr na canção: não necessariamente a cidade perfeita e idealizada dos postais, mas uma cidade com a qual fui construindo uma relação muito mais íntima.
“Lisbonne” começa apenas com voz e guitarra e vai incorporando piano e sons da cidade. Como nasceu esta construção sonora e em que momento percebeste que os próprios sons de Lisboa tinham de fazer parte do tema?
É engraçado porque a ponte instrumental de «Lisboa», onde entram os sons da cidade, foi, na verdade, uma das últimas coisas que acabámos no álbum.
As músicas estavam praticamente todas fechadas e, a certa altura, disse ao Barnabé, o meu irmão, que produziu, misturou e masterizou o álbum, que sentia que ainda faltava qualquer coisa na ponte de «Lisboa». Experimentámos várias instrumentações e várias ideias, mas nada nos parecia verdadeiramente certo.
Até que pensei: «Falta qualquer coisa mais orgânica. Na verdade, quero que haja um bocadinho de Lisboa dentro desta música.»
Então desci simplesmente à rua, em frente a casa, liguei o gravador do telemóvel e comecei a andar durante uns trinta segundos. Depois pusemos essa gravação na instrumental e, de repente, tudo fez sentido.
Pensei logo: «É isto. Agora sim, isto é Lisboa.»
O novo álbum chama-se Les contours. O que procuras dizer com esta ideia de “contornos”? São os contornos de uma cidade, de uma relação, de uma fase da vida ou da própria pessoa em que te tornaste?
Les contours pode significar muitas coisas, e gosto precisamente dessa ideia de cada pessoa poder encontrar o seu próprio significado.
É também o título de uma das músicas do álbum, que fala dos contornos do início de uma relação, daquele momento em que ainda estamos a perceber o que aquilo pode vir a ser, em que tudo está a ganhar forma. Mas gosto que a palavra possa aplicar-se a tantas outras coisas.
Para mim, no contexto do álbum, fazia muito sentido porque este é um projeto muito introspetivo. Fala do ano que acabei de viver, de todo o caminho que fiz e das coisas que fui aprendendo. Foi um período em que aprendi muito a estar comigo própria, a ouvir-me, a viver sozinha e a construir-me enquanto jovem adulta e mulher.
Tenho um pouco a sensação de ter começado a desenhar os contornos da minha própria vida: da vida que quero viver e da pessoa que quero ser.
E, a nível artístico, o álbum também foi uma forma de começar a definir os contornos da minha identidade enquanto artista e do meu universo sonoro. De perceber melhor que tipo de música quero fazer, de aprender a ouvir-me e a dar-me espaço para criar aquilo que realmente quero criar.
Les contours é, no fundo, aprender a conhecermo-nos, a perceber as nossas emoções e a nossa história, a desaprender algumas coisas e depois a reconstruirmo-nos. E ainda tenho imenso para aprender. Isto é só o início! É por isso que este título me diz tanto.
Este disco parece apontar para uma sonoridade mais orgânica e orquestral. O que sentias que faltava explorar musicalmente nos teus trabalhos anteriores?
Queria sobretudo dar mais espaço às letras. Eu e o meu irmão pensámos bastante na direção que queríamos dar ao álbum.
O Barnabé vem muito da música instrumental e da orquestração, e adoro o universo dele. Eu também sempre me senti muito atraída pelo folk, por instrumentações mais despidas, pelos sons orgânicos, pela madeira, pelas cordas, por tudo aquilo que traz uma sensação mais física e natural à música.
A ideia era juntar um pouco todos esses universos e tentar criar algo que tivesse uma identidade própria, que acompanhasse e valorizasse as palavras sem nunca se sobrepor a elas.
Queria que a produção envolvesse as canções, em vez de as esconder.
A tua música cruza folk, indie pop e chanson française. Como encontras hoje o equilíbrio entre essas influências e uma identidade que seja verdadeiramente tua?
Sempre tive alguma dificuldade em definir exatamente o meu estilo musical. Acho que estou numa espécie de experimentação constante, e gosto disso.
Oiço música de muitos estilos diferentes, por isso é difícil para mim escolher uma única direção e ficar dentro dela. Há simplesmente demasiadas possibilidades.
Neste álbum, estou muito feliz com as escolhas que fizemos, tanto a nível sonoro como instrumental. Questionei-me imenso durante todo o processo, mas hoje sinto que encontrámos uma direção que realmente serve as músicas e lhes dá espaço.
Acho que, para mim, a chave está precisamente em não tentar encaixar demasiado numa caixa. Continuar a experimentar, a mudar, a evoluir e a confiar naquilo que me toca num determinado momento da vida.
O crescimento e a autodescoberta estão no centro de Les contours. Houve alguma experiência concreta que tenha mudado a forma como escreves ou como te relacionas com a música?
Passei por uma separação importante no ano passado e foi pouco depois disso que comecei a escrever o álbum.
Depois de uma relação longa, fiquei bastante perdida. Acho que este álbum acabou por ser um projeto que me permitiu voltar a encontrar-me. Acompanhou-me durante todo um processo de reconstrução e de redescoberta de mim própria.
Acho que isso mudou muita coisa, tanto na minha vida como na minha relação com a música. Sinto que me descobri mais enquanto artista e que aprendi a confiar mais em mim e na minha forma de criar.
Tentei preocupar-me um pouco menos com o resultado final, com aquilo que as pessoas poderiam pensar, e mais com aquilo que o próprio processo de criação me estava a dar e com aquilo que eu realmente queria contar.
O teu irmão, Barnabé Chenel, produziu, misturou e masterizou todas as canções do álbum. Como funciona essa colaboração entre irmãos quando estão a trabalhar em material tão pessoal? Há momentos em que essa proximidade ajuda e outros em que dificulta?
É claro que há sempre algum risco quando trabalhamos com família. Não queremos misturar demasiado o trabalho com a relação pessoal, e às vezes é preciso saber manter uma certa distância profissional.
Mas, entre nós, isso nunca foi propriamente um problema. Conseguimos separar muito bem o trabalho da relação de irmãos e, na verdade, é até muito bom trabalhar com alguém de quem somos próximos.
Escolhi trabalhar com o meu irmão porque gosto mesmo muito de trabalhar com ele e porque a música é uma coisa que nos une desde muito pequenos. Mas também porque adoro o universo artístico dele e aquilo que faz. Aliás, lançou recentemente o primeiro álbum instrumental dele, Orbs, Vol. I, que vos convido mesmo a ouvir!
E, musicalmente, tudo acontece de forma muito natural entre nós. Sinto que falamos a mesma língua. Ele percebe rapidamente aquilo que quero dizer, temos muitas referências em comum e, muitas vezes, percebe aquilo que estou a tentar encontrar antes mesmo de eu conseguir explicar.
Desde 2023 tens levado a tua música a vários países europeus e partilhado palcos com artistas como Léo Middea, Anna B Savage e Cari Cari. O que aprendeste sobre a tua própria música ao apresentá-la perante públicos tão diferentes?
Acho que me fez muito bem levar a minha música a públicos tão diferentes.
Fez-me perceber, sobretudo, como tudo é subjetivo. A mesma música pode tocar profundamente uma pessoa e não dizer absolutamente nada a outra. E está tudo bem.
Também percebi que podemos ser profundamente tocados por uma música mesmo sem perceber a língua em que está a ser cantada. No fundo, a música consegue ultrapassar as palavras.
Depois de viveres em Lisboa e de levares a tua música por diferentes países, sentes que estás a escrever a partir de um lugar específico ou já de uma identidade mais europeia e sem fronteiras?
É uma pergunta interessante. Às vezes sinto mesmo que estou um pouco entre vários lugares, vários países e várias identidades. Tenho amigos de todo o mundo e, por vezes, é difícil perceber exatamente onde me situo no meio de tudo isso.
Mas acho que isso também é interessante: encontrarmo-nos a nós próprios fora de uma parte da identidade que construímos quando somos muito novos e começarmos a questionar e a desconstruir algumas dessas coisas.
Portugal ocupa, de qualquer forma, um lugar muito importante neste álbum, tal como ocupa na minha vida.
Penso, por exemplo, em «Alice», uma música que escrevi para a minha avó e que fará parte do álbum. O refrão é em português. A minha avó era portuguesa e foi, de certa forma, ao mudar-me para Portugal, que comecei a descobrir mais coisas sobre ela e sobre a sua história e que senti que me aproximei dela de uma maneira diferente.
Ela morreu no ano em que me mudei para Lisboa, e tudo isto aconteceu de uma forma muito natural, quase por acaso.
Há também «Não te quero magoar», o segundo single do álbum, uma colaboração com a artista portuguesa Marta Lima, que sai no próximo mês.
Por isso, não sei se diria que escrevo a partir de uma identidade completamente sem fronteiras. Acho que é mais isso: os lugares onde vivemos e as pessoas que encontramos vão-se acrescentando à nossa história e, inevitavelmente, também à nossa música.
Hoje, Portugal faz profundamente parte da minha história.
Se tivesses de escolher uma única memória de Lisboa para explicar a alguém que nunca ouviu “Lisbonne”, qual seria e porquê essa memória?
Acho que teria alguma dificuldade em escolher uma memória específica de Lisboa. O que melhor representa a minha relação com esta cidade é, na verdade, algo muito mais quotidiano.
Acho que «Lisboa» pode dizer muito a qualquer pessoa que tenha construído uma vida longe do lugar de onde veio. É uma casa que escolhemos.
Passamos pelas mesmas ruas milhares de vezes, conhecemos as mesmas subidas, os mesmos cantos, as mesmas paisagens. Aos poucos, as coisas mais banais tornam-se familiares e, sem darmos por isso, começamos a sentir-nos em casa.
E acho que é, no fundo, isso que «Lisboa» representa para mim: esta vida quotidiana que construí aqui. Porque é uma sorte podermos construir uma vida num lugar onde nos sentimos bem.
