Terça-feira, 8 de Setembro de 2026
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Rock in Rio foi o festival mais mencionado no digital, revela análise da Buzzmonitor

Por Mafalda Matos 8 Set 2026

O NOS Alive concentrou quase um quarto das referências analisadas, Katy Perry liderou entre os artistas e os Turnstile destacaram-se pela reação espontânea que o seu concerto provocou no público.

 

Dois festivais concentraram quase toda a atenção digital do verão. Rock in Rio Lisboa e NOS Alive representaram, juntos, cerca de 75% das 20.809 menções recolhidas pela Buzzmonitor, deixando os restantes dez eventos analisados a disputar apenas um quarto da conversa.

A análise da plataforma de Inteligência Artificial de monitorização e análise de redes sociais do Elifegroup acompanhou 12 dos festivais de música mais relevantes do verão português: Primavera Sound Porto, Rock in Rio Lisboa, NOS Alive, MEO Kalorama, Vodafone Paredes de Coura, MEO Marés, AGEAS Cooljazz, Afro Nation, Festas do Mar, Sumol Summer Fest, Neopop/Antipop e Jardins do Marquês.

Cada festival foi monitorizado durante uma janela de 15 dias antes do início e 15 dias após o final do evento, através de referências publicadas em perfis públicos.

O resultado é um retrato particularmente revelador da forma como os festivais portugueses vivem para lá dos recintos: alguns dominam o volume da conversa, outros geram momentos facilmente transformados em conteúdo e há concertos que se destacam não pelo número de publicações, mas pelo entusiasmo que despertam.

Rock in Rio Lisboa valeu metade da conversa analisada

O Rock in Rio Lisboa foi responsável por 50,9% de todas as menções recolhidas pela Buzzmonitor.

O NOS Alive surge no segundo lugar, com 24,5%, confirmando a forte concentração da atenção digital nos dois maiores eventos do painel analisado.

O Primavera Sound Porto ocupou a terceira posição, com 6% das referências. Seguiram-se o MEO Kalorama, com 5,5%, e o Vodafone Paredes de Coura, com 5,4%.

Na outra ponta da tabela, Festas do Mar, Sumol Summer Fest, Neopop/Antipop e Jardins do Marquês ficaram individualmente abaixo de 1% das menções.

A distância entre os dois primeiros e os restantes festivais mostra que a dimensão da conversa digital não acompanha necessariamente a diversidade da programação disponível durante o verão.

Enquanto dezenas de artistas e públicos diferentes ocupam o calendário, a atenção online continua concentrada num número reduzido de grandes marcas de festivais.

Katy Perry liderou entre os artistas

Os cinco artistas mais mencionados pertenciam todos ao cartaz do Rock in Rio Lisboa.

Katy Perry liderou com 2,4% das menções relacionadas com os festivais analisados. Pedro Sampaio surge em seguida, com 1,9%, seguido pelos Linkin Park, com 1,8%. Matuê e Rod Stewart completam o grupo, ambos com 1,1%.

No caso de Katy Perry, um momento específico ajudou a prolongar a presença do concerto nas redes sociais.

O crowdsurf dentro de uma garrafa insuflável tornou-se um dos conteúdos mais partilháveis da temporada. Fora do contexto do espetáculo, a imagem continuava a funcionar: era imediatamente reconhecível, visualmente invulgar e facilmente convertida em vídeo curto.

O episódio ajuda a explicar uma das mudanças mais evidentes na relação entre música ao vivo e redes sociais. O que circula com mais força depois de um concerto nem sempre é uma canção ou uma interpretação. Pode ser simplesmente um instante capaz de se tornar autónomo.

O palco termina. O conteúdo continua.

Turnstile foram o caso mais claro de descoberta espontânea

A análise da Buzzmonitor encontrou, porém, um fenómeno diferente no MEO Kalorama.

Os Turnstile destacaram-se pela quantidade de comentários entusiastas e espontâneos associados à sua atuação. Entre as reações recolhidas surgiram mensagens de pessoas que afirmavam ter ficado fãs da banda depois de assistir ao concerto.

É um tipo de resposta que um simples ranking de menções dificilmente consegue explicar.

Um artista pode gerar milhares de publicações porque já possui uma enorme comunidade. Mas um concerto que leva alguém a descobrir uma banda e a mudar a sua relação com essa música revela outra dimensão da experiência ao vivo.

Foi também por isso que os Turnstile se tornaram um dos casos mais interessantes da análise.

Não foram apresentados como o artista mais mencionado do verão. Destacaram-se porque a conversa em torno do concerto continha sinais claros de descoberta.

Um marco histórico pode gerar pouca conversa

A distância entre importância cultural e volume de publicações também aparece noutros resultados.

T-Rex tornou-se no primeiro artista português a assumir o lugar de cabeça de cartaz na história do Sumol Summer Fest. O momento teve relevância mediática e representou um marco para a presença da música portuguesa no festival.

Ainda assim, o evento registou apenas 112 publicações monitorizadas.

O caso demonstra uma limitação importante das métricas digitais: acontecimentos relevantes não produzem necessariamente grandes volumes de conversa.

A música eletrónica oferece outro exemplo.

O Neopop/Antipop reuniu nomes de destaque no seu cartaz, mas registou apenas 93 menções. Uma possível leitura é que o comportamento do seu público é diferente: há festivais onde a experiência parece gerar uma menor necessidade de ser constantemente transformada em publicação.

A ausência de conteúdo não significa ausência de envolvimento.

Pode significar apenas que nem todas as comunidades vivem a música através da mesma relação com as redes sociais.

As marcas dividiram os festivais por territórios

A presença comercial nos festivais portugueses revela uma estratégia relativamente organizada.

As três grandes operadoras ocuparam territórios diferentes. A NOS manteve a associação ao NOS Alive. A MEO marcou presença no Kalorama e no MEO Marés. A Vodafone esteve ligada ao Vodafone Paredes de Coura e a um palco secundário do Primavera Sound Porto.

Também as marcas de cerveja seguiram uma lógica de distribuição.

A Super Bock esteve presente em Paredes de Coura, no MEO Marés e nas Festas do Mar. A Sagres marcou presença no Kalorama. A Heineken associou-se ao NOS Alive e ao palco principal do Neopop. A Estrella Damm esteve ligada ao Primavera Sound Porto.

O MB WAY surge como uma exceção à lógica de territórios mais exclusivos, aparecendo em eventos como o Rock in Rio Lisboa, o Sumol Summer Fest e os Jardins do Marquês.

O NOS Alive destacou-se ainda pela diversidade do seu ecossistema de patrocinadores, com marcas como Heineken, EY, Galp, Auchan, Fidelidade, EDP, Telpark e Cartão Jovem a apostarem em ativações próprias.

A análise encontrou ainda um fenómeno inesperado nos festivais com menor volume de conversa própria.

Nos Jardins do Marquês e nas Festas do Mar, agentes associados à RE/MAX e à Keller Williams aproveitaram os eventos como contexto para a criação de conteúdos.

Os festivais tornam-se, assim, mais do que espaços de concertos. São também cenários onde diferentes sectores procuram entrar na conversa pública.

O que os números conseguem — e não conseguem — mostrar

A análise da Buzzmonitor estabelece com clareza quem ocupou mais espaço na conversa digital durante o verão. Mas os próprios resultados mostram que o número de menções é apenas uma parte da história.

O Rock in Rio Lisboa dominou o volume porque reuniu uma capacidade de atenção difícil de igualar. Katy Perry destacou-se pela criação de um momento que continuou a circular depois do concerto. Os Turnstile revelaram a força de uma atuação capaz de provocar descoberta espontânea.

Ao mesmo tempo, os casos de T-Rex e do Neopop/Antipop lembram que relevância, presença física e conversa digital podem seguir caminhos completamente diferentes.

Os festivais vivem hoje em dois espaços ao mesmo tempo: no recinto e no ecrã.

Nem tudo o que acontece num palco chega às redes sociais. E nem tudo o que domina as redes sociais explica aquilo que realmente aconteceu diante do palco.

É nesse intervalo entre experiência e publicação que está, talvez, a leitura mais interessante deixada por estes dados.

 

Mafalda Matos

Mafalda Matos é jornalista no Música Total, onde assina sobretudo peças sobre [novidades musicais / entrevistas / cultura regional]. Com [10 anos] ligada ao jornalismo cultural, tem acompanhado de perto [festivais, lançamentos nacionais, etc.] e é uma das vozes mais regulares do Radar Nacional e da secção de Entrevistas do site.

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