Num momento em que o discurso sobre identidade feminina na música portuguesa oscila entre rótulos fáceis e generalizações preguiçosas, surge uma canção que decide responder com ironia.

O novo single de Joana Almeirante chega hoje às plataformas digitais como primeira amostra do segundo álbum de originais, com edição marcada para outubro, e não se limita a apresentar música nova: apresenta posição.
“Soamos Todas Iguais” antecipa um disco que terá apresentação ao vivo a 21 de março, na sala principal do Cine-Teatro António Lamoso, numa noite já esgotada. O concerto contará com a participação especial de Nena e Miguel Araújo, dois nomes que cruzam o percurso recente da artista e ajudam a contextualizar esta nova fase.
Uma frase transformada em manifesto pop
O ponto de partida é uma crítica tantas vezes repetida que se tornou quase automática. A ideia de que as vozes femininas se confundem entre si serve aqui como matéria-prima para um exercício de inversão. Joana pega nessa frase, desmonta-a e devolve-a em forma de canção pop afirmativa, com humor e precisão.
Musicalmente, o tema equilibra leveza melódica com uma escrita que não se esconde atrás de metáforas vagas. Existe ironia, mas também confronto direto com discursos que se apresentam como seguros e objetivos, embora revelem pouco mais do que desatenção. Ao assumir essa tensão, a cantora reforça uma identidade artística que não pede autorização nem validação externa.
O palco como extensão da narrativa
A apresentação marcada para março ganha outro peso à luz deste lançamento. O regresso ao Cine-Teatro António Lamoso não é apenas um concerto, é a primeira afirmação pública de um ciclo criativo que começa agora a revelar-se.
A presença de Nena e Miguel Araújo não surge como detalhe promocional. Com a primeira, Joana partilha cumplicidade recente através do projeto 2 Pares de Botas. Com o segundo, mantém uma ligação sólida enquanto guitarrista na sua banda. São relações que ajudam a compreender o contexto colaborativo em que a artista se move, sem diluir a sua assinatura pessoal.
2 Pares de Botas e a expansão de horizontes
Em paralelo com a carreira a solo, o projeto 2 Pares de Botas, criado com Nena, tem consolidado uma proposta que cruza linguagem country com repertório original e revisitação de êxitos de ambas. Depois de uma atuação no Coliseu do Porto, a dupla prepara-se para duas datas no Teatro Maria Matos, a 28 e 29 de abril.
Este percurso revela uma artista interessada em explorar formatos distintos sem perder coerência. A partilha em palco, a construção de harmonias e a aproximação a um imaginário country demonstram curiosidade estética e abertura criativa. Não se trata de dispersão, mas de expansão consciente do seu território musical.
Um percurso consistente na nova geração
Com um EP, um álbum de estúdio e um disco ao vivo já editados, Joana Almeirante tem vindo a afirmar-se como uma das vozes mais consistentes da nova geração. No repertório destacam-se temas como “Leva-me Pra Longe”, “Dois Corações Partidos”, ao lado de Samuel Úria, “Bem Me Quer” ou “Erro”, canções que evidenciam equilíbrio entre escrita íntima e ambição pop.
A experiência como guitarrista na banda de Miguel Araújo acrescenta dimensão técnica e maturidade de palco ao seu percurso. Esse trabalho de bastidores, muitas vezes invisível ao grande público, reforça a solidez de uma artista que constrói carreira com tempo, consistência e visão autoral.
“Soamos Todas Iguais” não é apenas um avanço discográfico. Funciona como declaração de intenções. Ao transformar uma crítica redutora em motor criativo, Joana Almeirante reafirma que identidade não se uniformiza. Trabalha-se, afina-se e assume-se. E este novo capítulo começa precisamente aí.
