Quinta-feira, 29 de Outubro de 2026
Radar Nacional

João André: o produtor que liga diferentes gerações da música portuguesa

Por Mafalda Matos 29 Out 2026

De Pedro Abrunhosa a Bárbara Tinoco, passando pelos The Black Mamba e Miguel Araújo, João André construiu um percurso que atravessa diferentes momentos da música portuguesa. O seu trabalho passa pela produção, gravação e mistura, numa carreira em que o estúdio se tornou um espaço de encontro entre artistas, canções e identidades musicais.

Antes de uma canção chegar à rádio ou às plataformas digitais, existe um trabalho que raramente recebe a mesma atenção do que a voz que ouvimos. É no estúdio que muitas decisões ganham forma, desde os arranjos à escolha dos sons, passando pela relação entre os instrumentos e a interpretação. João André conhece bem esse processo.

Natural do Porto, o músico e produtor português desenvolveu uma carreira que cruza diferentes funções. É produtor, engenheiro de som, compositor, cantor e instrumentista, com um percurso que começou muito antes de algumas das canções que hoje associamos ao seu nome chegarem ao público.

A sua discografia inclui trabalhos com Pedro Abrunhosa & Bandemónio, projeto ao qual esteve ligado em álbuns como Tempo, de 1996, Silêncio, de 1999, e Momento, de 2002. São registos de uma fase importante da música portuguesa, num período em que o rock, o funk e a canção de autor encontravam novas formas de convivência.

Do trabalho com bandas à produção de canções

Ao longo dos anos, João André alargou a sua atividade a diferentes artistas e linguagens musicais. Trabalhou com nomes como Emmy Curl, WE TRUST, The Weatherman, Mónica Ferraz e Tatanka, construindo um percurso que não ficou limitado a um único género ou a uma fórmula de produção.

A experiência como músico ajuda a compreender a dimensão do seu trabalho. Produzir uma canção não significa apenas gravar instrumentos ou procurar um som tecnicamente equilibrado. Implica perceber o que o tema pede, identificar os elementos que merecem destaque e encontrar uma forma de servir a interpretação sem retirar personalidade ao artista.

Essa relação entre conhecimento técnico e sensibilidade musical acompanha o percurso de João André. Os créditos da sua discografia mostram uma participação frequente na produção e na mistura, mas também na composição e na execução instrumental, consoante as necessidades de cada projeto.

«Love Is on My Side» e «Sei Lá»: dois momentos de destaque

Dois trabalhos ajudam a perceber a dimensão da sua presença na música portuguesa contemporânea.

Em 2019, João André trabalhou na produção e mistura de «Sei Lá», de Bárbara Tinoco. A canção ganhou particular visibilidade em 2020, tornando-se um dos temas mais reconhecidos da fase inicial da carreira da cantora.

O produtor esteve também ligado a «Love Is on My Side», dos The Black Mamba, tema vencedor do Festival da Canção de 2021. A canção levou o grupo à Eurovisão, onde Portugal foi representado pela primeira vez com um tema inteiramente cantado em inglês.

São projetos diferentes, com identidades próprias. O interesse está precisamente nessa diversidade: um produtor que trabalha com artistas de universos distintos tem de encontrar soluções adequadas a cada canção, sem transformar essa diversidade numa assinatura demasiado rígida.

A colaboração com Bárbara Tinoco prolongou-se por outros temas, enquanto o trabalho com os The Black Mamba incluiu também o álbum Mamba King, editado em 2018. A estas colaborações juntam-se trabalhos com Miguel Araújo, Carolina de Deus, Nena, Joana Almeirante, Rita Rocha e outros nomes da música portuguesa.

O estúdio como espaço de criação

A atividade de João André não se limita à produção discográfica. O músico dedica-se também ao ensino, com formação nas áreas da gravação, mistura, masterização e tecnologias musicais.

Esta vertente aproxima o seu percurso de uma dimensão menos visível da indústria: a transmissão de conhecimentos técnicos e artísticos a quem procura trabalhar profissionalmente com música.

A produção musical exige domínio do equipamento, mas também capacidade de escuta, comunicação e adaptação. Cada artista chega ao estúdio com uma ideia, uma intenção e uma forma particular de interpretar. O trabalho do produtor passa por ajudar a transformar esses elementos numa gravação que faça sentido, tanto para quem a cria como para quem a vai ouvir.

No percurso de João André, a variedade de colaborações mostra uma atividade construída ao longo de diferentes gerações e contextos musicais. Dos álbuns de Pedro Abrunhosa & Bandemónio aos singles de artistas mais recentes, o seu nome aparece associado a canções que encontraram espaço na música portuguesa contemporânea.

Nem sempre conhecemos quem esteve do outro lado da mesa de mistura. Mas, quando olhamos para os créditos de uma canção, percebemos que a sua história não começa nem acaba na voz que a interpreta. Entre a ideia inicial e a gravação final existe um trabalho coletivo, feito de decisões e de escolhas que ajudam a definir aquilo que ouvimos.

João André faz parte desse lado da música portuguesa.

Mafalda Matos

Mafalda Matos é jornalista no Música Total, onde assina sobretudo peças sobre [novidades musicais / entrevistas / cultura regional]. Com [10 anos] ligada ao jornalismo cultural, tem acompanhado de perto [festivais, lançamentos nacionais, etc.] e é uma das vozes mais regulares do Radar Nacional e da secção de Entrevistas do site.

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