Quinta-feira, 29 de Outubro de 2026
Destaque

MESA: «O mais interessante nesta fase é não sentirmos a obrigação de repetir o passado»

Por Jorge Silva Medeiros 29 Out 2026

Quinze anos depois de «Automático», os MESA regressam aos originais com «Amor de Papel», uma canção que cruza a intimidade de uma história de amor com a realidade de quem vive a guerra à distância. O reencontro entre JP Coimbra e Mónica Ferreira não se faz de nostalgia nem da vontade de recuperar fórmulas antigas. Faz-se da curiosidade musical, de uma cumplicidade construída ao longo de mais de duas décadas e da liberdade de descobrir o que ainda podem criar juntos. Nesta conversa com o MusicaTotal.net, os MESA revisitam o percurso da banda, falam sobre o processo criativo, a relação entre música e emoção e a possibilidade de um novo capítulo, sem a obrigação de repetir o passado.

 

 

Os MESA nasceram de um encontro musical que, ao longo dos anos, construiu uma identidade própria na música portuguesa. Quando olham para o início do projecto, o que mudou mais em vocês, enquanto músicos e enquanto pessoas, e o que continua exactamente igual?

 

JP – Mudou muita coisa, naturalmente. Passaram mais de vinte anos, acumulámos experiências, desenvolvemos outros projetos e fomos descobrindo novas formas de criar, estar e fazer música. Acho que hoje temos uma relação mais livre com o processo criativo, talvez menos preocupada com expectativas ou com a necessidade de corresponder a uma determinada ideia do que devem ser os MESA.

O que permanece é a curiosidade musical, a vontade de experimentar e, sobretudo, uma identidade que surge naturalmente quando trabalhamos juntos. Há qualquer coisa na relação entre a voz da Mónica e a minha forma de escrever e produzir que continua a fazer sentido, independentemente do tempo que passa.

«Automático» foi editado em 2011 e, desde então, passaram quinze anos até ao lançamento de «Amor de Papel». O que aconteceu durante esse intervalo? Os MESA ficaram à espera do momento certo para regressar ou foi preciso redescobrir a vontade de fazer música juntos?

 

JP – Na verdade, os MESA continuaram a ter atividade depois de «Automático», mas esse foi o último álbum que fizemos juntos. Entretanto, seguimos percursos musicais diferentes, com outros projetos, experiências e interesses artísticos.

Não houve propriamente um plano de regresso nem uma espera pelo momento ideal, mas os vinte anos sobre o lançamento do primeiro disco serviram de pretexto para olharmos criticamente para o nosso percurso. Esse reencontro permitiu-nos perceber que tínhamos vontade de voltar a trabalhar juntos e que a nossa identidade musical continuava presente e que podíamos explorá-la a partir das pessoas e dos músicos que somos hoje.

Em 2025, voltaram aos palcos para dois concertos, na Casa da Música e no Lux Frágil, revisitando canções que fazem parte da história dos MESA. O que sentiram ao reencontrar esse repertório e perceber que, apesar do tempo passado, aquelas músicas continuavam a ter lugar no presente?

 

JP – Foi uma experiência muito interessante, sobretudo porque nos obrigou a olhar novamente para canções que já não tocávamos juntos há muitos anos. O mais surpreendente foi perceber que não estávamos apenas a revisitar uma memória. As canções continuavam a funcionar no presente e a estabelecer uma relação muito direta com o público. Isso deu-nos também uma perspetiva diferente sobre o nosso próprio percurso. Às vezes precisamos de alguma distância para compreender melhor aquilo que fizemos.

«Amor de Papel» nasceu num mundo em que a guerra voltou a fazer parte do quotidiano de milhões de pessoas. JP Coimbra, de onde surgiu a vontade de escrever esta canção e aproximar uma história de amor de uma realidade tão dura? Houve algum acontecimento ou imagem que tenha desencadeado a composição?

 

JP – Escrevi a letra há cerca de três anos, tendo como ponto de partida a guerra na Ucrânia. Tenho acompanhado atentamente o conflito e considero o povo ucraniano uma verdadeira inspiração. São autênticos heróis, com uma capacidade de resistência extraordinária perante as condições bárbaras a que têm sido sujeitos ao longo destes mais de quatro anos.

Penso muitas vezes no seu dia a dia, não apenas na forma como resistem, mas também em como lidam com a morte, a distância e a incerteza. A canção nasceu dessa inquietação e da ideia de um amor vivido à distância, em tempo de guerra. Hoje, as mensagens de telemóvel ocupam o lugar das cartas, mas a espera, a angústia e a esperança continuam presentes – muda a forma como comunicamos, mas aquilo que nos torna humanos permanece.

A canção cruza uma sonoridade luminosa com um tema marcado pela separação, pela violência e pelo desejo de reencontro. Como encontraram esse equilíbrio? A música foi pensada para contrariar a dureza da letra ou foi a própria composição que acabou por determinar esse caminho?

JP – Não queria escrever uma canção diretamente sobre a guerra, mas sobre aquilo que a guerra interrompe na vida das pessoas. Por outro lado, sempre me interessou a possibilidade de uma canção saber transmitir diferentes emoções. Em «Amor de Papel», esse contraste parece-me particularmente importante porque, apesar do contexto em que decorre a história, a canção é também uma declaração de amor. Há tristeza e incerteza, mas há igualmente esperança e coragem.

A música permite precisamente essa ambiguidade emocional e, por vezes, o contraste torna a história ainda mais expressiva.

Mónica, a tua voz é uma das marcas mais reconhecíveis dos MESA. Quando recebes uma composição de JP Coimbra, procuras interpretar a intenção que ele tinha em mente ou precisas de encontrar uma leitura tua, mesmo que isso signifique levar a canção para um lugar diferente daquele em que nasceu?

 

MF – Se me fizessem essa mesma pergunta há 20 anos, talvez respondesse que procuraria ir ao encontro da intenção do João. Mas, na realidade, e com a distância que estes anos nos dão desde o nosso primeiro single, no álbum de estreia, em 2003, o que sempre aconteceu foi uma simbiose entre aquilo que o João compõe e a minha leitura, o meu universo e a minha própria interpretação do que é o cérebro dentro da canção.

 

Hoje, enquanto compositora, sei que a leitura daquilo que o João faz nunca poderia ser superficial. É a leitura de uma canção pelos olhos de alguém que também compõe, escreve e canta, e que transporta toda essa experiência para a sua própria interpretação, mesmo quando não se trata de uma composição sua.

 

O desafio é fazer com que a canção passe a fazer parte do meu código genético, que se integre no meu universo interpretativo e sentimental. Não se trata apenas de interpretar aquilo que o João imaginou, mas de encontrar um lugar onde os nossos universos se cruzam, onde a intenção dele e a minha sensibilidade se tornam indissociáveis. No fundo, é como se partilhássemos cérebros musicais.

 

Trabalhar em dupla implica cumplicidade, mas também diferenças de perspectiva. Ao fim de tantos anos, como funciona a relação criativa entre vocês? Existem ideias que um defende e o outro recusa, ou aprenderam a reconhecer quando uma canção precisa de seguir um caminho diferente daquele que tinham imaginado inicialmente?

 

MF – Aquilo que sempre defendemos foi a canção. Os nossos interesses individuais ficam em segundo plano porque o mais importante é perceber o que a canção precisa e encontrar o caminho que melhor a serve.

 

Desde o nosso primeiro encontro em estúdio, em meados dos anos 2000, e apesar de termos perspetivas e escolhas diferentes, a cumplicidade musical entre nós sempre fluiu de forma muito natural. Acho que uma parte importante do segredo está na forma como trabalhamos e nos ingredientes que estão sempre presentes: o riso, a boa disposição em estúdio, a leveza e, sobretudo, a capacidade de nos abstrairmos de tudo aquilo que é suposto fazer. Essa liberdade permite-nos experimentar, arriscar e olhar para uma canção sem estarmos demasiado presos à ideia inicial ou a formatos. E é isso que nos dá uma margem tão grande de criatividade e torna o processo de aceitação e recusa tão saudável. Não precisamos de concordar em tudo, nem de defender uma ideia até ao fim. Aprendemos a reconhecer quando uma canção nos pede outra direção. No final, não se trata de saber quem tem razão, mas de perceber o que a canção nos está a pedir.

 

A forma de descobrir e consumir música mudou profundamente desde os primeiros anos dos MESA. Hoje, uma canção pode chegar rapidamente a milhares de pessoas, mas também desaparecer entre tantos lançamentos. Sentem que estas mudanças alteraram a vossa relação com a música ou continuam a criar sobretudo de acordo com aquilo que vos faz sentido artisticamente?

 

JP – Mudou profundamente a forma como a música circula e chega às pessoas, mas não tanto aquilo que nos leva a fazê-la. Hoje existe uma enorme facilidade de acesso à música, mas também uma velocidade de consumo que nem sempre favorece a atenção e o tempo que algumas canções precisam para serem descobertas.

Naturalmente, não somos indiferentes a essas transformações, mas nunca fez muito sentido para nós criar música em função das tendências ou das expectativas do mercado. Continuamos a partir daquilo que temos vontade de dizer e dos sons que nos interessa explorar. A música tem de fazer sentido para nós antes de procurarmos encontrar o seu público.

«Amor de Papel» marca o regresso aos originais, mas deixa também uma pergunta em aberto: este reencontro com a criação despertou a vontade de trabalhar num novo álbum ou preferem deixar que as próximas canções encontrem o seu próprio tempo? O que gostariam de explorar musicalmente nesta nova fase?

 

JP – O reencontro musical e a gravação de «Amor de Papel» mostraram-nos que continuamos a ter vontade de criar música juntos. Não sabemos ainda se isso se traduzirá num álbum, e também não queremos impor um calendário ou um formato ao processo criativo.

Mais do que recuperar uma sonoridade, interessa-nos descobrir o que podemos fazer hoje com a identidade musical dos MESA. Ambos temos experiências e referências diferentes das que tínhamos há quinze anos, e parece-me muito mais interessante partir daí do que tentar reproduzir aquilo que já fizemos.

Com concertos anunciados para Lisboa e Porto, os MESA voltam a encontrar-se com o público num momento diferente da sua história. Se pudessem escolher livremente o próximo capítulo do projecto, sem expectativas comerciais nem a obrigação de corresponder ao que fizeram no passado, que música gostariam de fazer e que caminho ainda sentem que falta percorrer?

 

JP – Acho que essa liberdade sempre fez parte da nossa forma de trabalhar. Nunca tivemos grande preocupação em corresponder a uma fórmula, mesmo quando algumas das nossas canções tiveram bastante exposição.

Gostava que os MESA continuassem a ser um espaço onde podemos experimentar, cruzar referências e explorar novas ideias, mantendo a canção como ponto de encontro entre as nossas diferentes sensibilidades musicais.

O mais interessante nesta fase é precisamente não sentirmos a obrigação de repetir o passado.

Jorge Silva Medeiros

Jorge Silva Medeiros é técnico de som na RTP e fundador do Música Total, um dos projetos editoriais dedicados à música com maior longevidade em Portugal, dentro da plataformas. Ligado ao setor da comunicação e da música há mais de duas décadas, criou também a Rádio Atlântida e tem desenvolvido um trabalho contínuo na divulgação da música portuguesa, dos artistas emergentes e dos grandes eventos culturais, assim como produção de eventos.

Newsletter Semanal

RECEBE A
MÚSICA PRIMEIRO.

Curadoria semanal das melhores novidades musicais, entrevistas exclusivas e agenda de festivais — direto na tua caixa de entrada.

Subscreve gratuitamente

Ao subscrever aceitas os nossos Termos e Condições e Política de Privacidade. Podes cancelar em qualquer momento.