A música, para João Pimenta Gomes, não fica necessariamente presa ao momento em que é ouvida. Pode ocupar uma sala, provocar um movimento, surgir numa imagem ou transformar a relação de quem está diante de uma obra.
É a partir dessa ideia que o artista constrói uma prática onde a música, as artes visuais e a performance se encontram. Sintetizadores modulares, imagens, vídeos e objetos tornam-se ferramentas para explorar relações entre o analógico e o digital, o sensorial e o conceptual.
Quando ouvir também implica estar dentro da obra
Nos trabalhos de João Pimenta Gomes, o espaço não é apenas o lugar onde uma obra acontece. Passa a fazer parte dela.
A aproximação do espectador, o afastamento ou simplesmente a forma como o corpo se posiciona podem alterar a experiência. A obra deixa assim de ser apenas algo para observar e transforma-se num encontro.
É também nesse cruzamento com a performance e com os acontecimentos ao vivo que o artista desenvolve uma das dimensões mais particulares do seu trabalho: tornar perceptível a origem de uma ideia musical e o próprio processo de construção de uma composição sonora.
Do som aos objetos, das imagens à performance
O percurso de João Pimenta Gomes tem passado por diferentes espaços e contextos artísticos, cruzando instalação, performance, exposição e experimentação sonora.
Entre os projetos mais recentes encontram-se Dois Stereos, apresentado na Galeria da Boavista em 2025, e Line Array, na Casa da Cerca, também em 2025. O percurso inclui ainda Love Cry, na Central Artística de Bueño, em 2023, Two Virgins, no Gnration, em Braga, e a participação na exposição coletiva Esfíngico Frontal, com curadoria de Germano Dushá, na Galeria Mendes Wood DM, em São Paulo.
Em 2022, apresentou Poly-Free, no MAAT – Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia, em Lisboa, e Alto Mar / Metavox, entre o Palácio Nacional de Belém e Les Laboratoires d’Aubervilliers, em França. Nesse mesmo ano realizou Doppelganger III, na Plataforma Revólver, e Doppelganger VII, no Lux Frágil, ambos em Lisboa.
O percurso inclui ainda Clouds, apresentado no Kunstraum Botschaft, em Berlim, em 2021, e projetos desenvolvidos enquanto membro do grupo Matéria Simples, entre os quais A Ilha de Calipso, na Appleton Garagem, e Micro Ressonâncias, na Appleton Box, em Lisboa.
Uma investigação que continua em 2026
O ano de 2026 abre um novo momento neste percurso com Dois Desertos, disco que prolonga a investigação de João Pimenta Gomes em torno do som e da composição.
Ao mesmo tempo, o artista prepara New Age, exposição no MAAT, em Lisboa, dando continuidade a uma relação com o espaço expositivo onde o som não surge isolado, mas integrado numa experiência mais ampla.
Entre sintetizadores, imagens, objetos e performance, João Pimenta Gomes trabalha num território onde as fronteiras entre música e artes visuais se tornam menos evidentes.
Talvez seja precisamente aí que o seu trabalho ganha maior força: quando já não sabemos se estamos apenas a ouvir uma obra, a observar uma instalação ou simplesmente a ocupar o espaço onde tudo acontece.
