Uma composição de John Cage está a ser tocada numa igreja alemã desde 2001 — e não terminará antes de 2640

Em setembro de 2001, um órgão de tubos começou a tocar numa pequena igreja medieval na cidade alemã de Halberstadt. Não há nada de extraordinário nisso — exceto que essa mesma peça ainda está a tocar hoje, e não vai parar antes do ano 2640.
A obra chama-se As Slow As Possible e foi composta pelo vanguardista norte-americano John Cage em 1987. Concebida originalmente para piano ou órgão, a partitura dá ao intérprete uma única instrução: tocar o mais devagar que for humanamente possível. Um grupo de músicos e filósofos em Halberstadt levou essa instrução à letra — e decidiu que a performance demoraria exactamente 639 anos.
“O que é música? É possível o silêncio ser som? Cage passou a vida a fazer esta pergunta — e em Halberstadt, a pergunta tem 639 anos para ser respondida.”
O número 639 não é arbitrário. Corresponde aos anos que passaram desde que Halberstadt instalou o primeiro órgão de tubos da história da Europa moderna, em 1361. A peça arrancou com um silêncio de 17 meses — as primeiras notas só soaram em fevereiro de 2003.
As mudanças de acorde são raras e tratadas como eventos. Cada vez que uma nova nota é acrescentada ou retirada, músicos, filósofos e curiosos viajam de todo o mundo até à pequena cidade saxónica para testemunhar o momento. A última mudança aconteceu
em 2022; a próxima está prevista para 2026.
A peça levanta questões profundas: o que é uma performance se o público muda completamente ao longo da obra? Quem a “ouviu” no início morreu há muito tempo. Quem a ouvirá no fim ainda não nasceu.
Cronologia da performance
1987
2001
2003
2022
2026
2640
O órgão foi construído especialmente para este projeto, com sacos de areia a sustentar as teclas premidas, permitindo que os acordes soem continuamente sem intervenção humana. A igreja está aberta ao público — qualquer pessoa pode entrar, sentar-se e ouvir.
John Cage, que morreu em 1992, nunca chegou a ver o projeto de Halberstadt. Mas a sua filosofia está presente em cada segundo de silêncio: a ideia de que a música não é apenas som, mas também tempo, espaço e atenção.

