Poucos músicos deixaram uma gravação tão reconhecível ao primeiro segundo. O som de John Coltrane tinha uma espécie de urgência própria, como se cada solo estivesse menos interessado em confirmar o que já sabia do que em descobrir até onde podia ir.
Essa inquietação atravessou uma carreira gravada que durou apenas uma década. Coltrane trabalhou como músico durante cerca de 20 anos, mas os seus principais registos discográficos concentram-se entre 1957 e 1967. Morreu aos 40 anos, vítima de cancro do fígado. Hoje, 23 de setembro de 2026, passam 100 anos sobre o seu nascimento, numa data que está a ser assinalada internacionalmente e também em Portugal pela RTP Antena 2.
O número impressiona. Dez anos de gravações. Uma quantidade enorme de música. E uma influência que não ficou presa ao jazz.
Antes de procurar novos caminhos, Coltrane teve de aprender os antigos
A história de Coltrane não começa em A Love Supreme nem em Giant Steps. Começa num músico que foi absorvendo linguagens diferentes até perceber que nenhuma delas lhe chegava.
Tocou com Dizzy Gillespie, Johnny Hodges e Miles Davis. A passagem pelo quinteto de Davis foi particularmente importante. Ali encontrou um ambiente onde a contenção, o espaço e a atenção ao que acontecia entre os músicos tinham tanto peso como a capacidade técnica de cada instrumentista.
Coltrane ainda estava a construir a sua voz.
O período com Davis também coincidiu com dificuldades pessoais. A dependência de drogas marcou parte da sua vida e acabaria por ser seguida de uma recuperação que Coltrane associou profundamente à sua dimensão espiritual. Não é um detalhe lateral da biografia. Ajuda a compreender a mudança que aconteceria na sua música nos anos seguintes.
Quando voltou a trabalhar com Davis, e depois quando avançou para os seus próprios grupos, já não era exactamente o mesmo músico.
A diferença começava a ouvir-se.
Giant Steps e a vontade de ir mais longe
Giant Steps, gravado em 1959 e editado em 1960, tornou-se uma espécie de teste de resistência para gerações de músicos. As progressões harmónicas são exigentes e as improvisações avançam sobre mudanças de acordes que obrigavam Coltrane a pensar e tocar com enorme precisão.
Mas o interesse do álbum não está apenas na dificuldade.
Coltrane estava a investigar possibilidades.
Essa distinção importa. Um músico virtuoso pode demonstrar aquilo que consegue fazer. Coltrane queria descobrir aquilo que ainda não conseguia fazer.
Pouco depois, My Favorite Things mostrou que essa procura não precisava de passar sempre pela complexidade. A partir de uma canção conhecida do musical The Sound of Music, Coltrane construiu longas improvisações e encontrou no saxofone soprano uma nova extensão da sua voz musical.
A canção podia ser familiar. O percurso deixava de o ser.
Foi uma das características mais interessantes da sua evolução: Coltrane não precisava de destruir uma forma para a transformar. Por vezes bastava permanecer dentro dela tempo suficiente para descobrir uma saída.
A Love Supreme não apareceu do nada
Em 1965, a procura ganhou uma dimensão diferente.
A Love Supreme é frequentemente tratado como o grande álbum de Coltrane, mas a sua força torna-se mais clara quando se percebe o caminho que o antecedeu. O disco não surgiu isolado. É consequência de vários anos de exploração musical e de uma transformação pessoal profunda.
A obra está dividida em quatro partes e constrói-se como uma declaração espiritual. O quarteto formado por McCoy Tyner, Jimmy Garrison e Elvin Jones tinha desenvolvido uma relação extraordinária. Não era apenas uma questão de acompanhar o saxofonista. Piano, contrabaixo e bateria criavam espaço para que a música pudesse respirar, acelerar, insistir ou mudar de direcção.
É nesse contexto que Coltrane consegue fazer uma coisa difícil: transformar uma experiência profundamente pessoal numa obra que não depende de conhecermos a sua biografia para nos atingir.
Pode ouvir-se A Love Supreme como jazz, como improvisação, como composição ou como expressão espiritual.
Nenhuma dessas leituras esgota o disco.
A RTP Antena 2 colocou precisamente A Love Supreme no centro da programação dedicada ao centenário, depois de ter percorrido em emissões anteriores títulos como Blue Train, Giant Steps, Olé Coltrane e Africa/Brass.
O último Coltrane já estava a procurar outra coisa
Depois de A Love Supreme, a transformação não abrandou.
Pelo contrário.
Ascension, Meditations e Interstellar Space mostram um músico cada vez menos interessado em permanecer dentro das formas que já dominava. A improvisação ganhou uma liberdade maior, os grupos mudaram e a relação entre composição e momento tornou-se mais instável.
Coltrane estava a aproximar-se de uma música em que não havia necessariamente uma resposta prevista.
Isso ajuda a explicar por que razão a sua obra continua a ser tão importante para músicos de gerações diferentes. O seu legado não está apenas nas composições que deixou nem na técnica do saxofone. Está também na ideia de que uma linguagem musical pode continuar a ser questionada mesmo depois de ter atingido um nível extraordinário.
John Coltrane morreu em 1967.
Não teve oportunidade de saber onde aquela última fase poderia levá-lo.
É uma das particularidades mais curiosas do seu legado. O músico que passou grande parte da carreira a procurar novos caminhos deixou precisamente a sua última fase em aberto.
O centenário chega agora com essa procura ainda viva. O programa COLTRANE 100, promovido pelo Coltrane Estate ao longo de 2026, inclui concertos, novas edições e a recuperação de gravações históricas. Entre elas estão as chamadas Tiberi Tapes, gravações privadas feitas por Frank Tiberi no início dos anos 1960 que começam agora a ser disponibilizadas.
Talvez seja essa a melhor forma de olhar para os 100 anos de Coltrane.
Não como uma obra encerrada.
Mas como uma música que ainda deixa espaço para a próxima escuta.
E talvez seja por isso que, tantos anos depois da sua morte, ainda seja possível colocar um disco de Coltrane e sentir que alguma coisa está prestes a acontecer.
Para ouvir
Blue Train (1957)
Um dos grandes momentos da fase inicial de Coltrane e uma entrada natural no seu universo.
Giant Steps (1960)
O disco que tornou evidente a dimensão da sua investigação harmónica.
My Favorite Things (1961)
A descoberta do saxofone soprano e uma demonstração extraordinária de como Coltrane podia transformar uma melodia conhecida.
A Love Supreme (1965)
A obra onde a música e a dimensão espiritual se encontram de forma mais profunda.
Ascension (1966)
Uma das portas de entrada para a fase mais livre e experimental do músico.
