Terça-feira, 22 de Setembro de 2026
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Jorge Palma correu os Açores com a sua música. Agora ficam as memórias

Por Jorge Silva Medeiros 22 Set 2026

Tive oportunidade de privar uma vez com Jorge Palma e guardo desse encontro uma memória muito especial. Era uma pessoa especial, um ser iluminado, daqueles artistas cuja presença ultrapassa aquilo que acontece em cima de um palco.

A notícia da sua morte, aos 76 anos, deixa um vazio difícil de medir na música portuguesa. Mas há artistas cuja importância não se explica apenas pelos discos que gravaram ou pelos prémios que receberam. Explica-se também pelas pessoas que encontraram pelo caminho.

Jorge Palma foi um desses artistas.

Uma presença que ficava

Conhecer Jorge Palma, mesmo num encontro, era perceber que havia ali qualquer coisa que não cabia apenas na palavra músico.

A sua carreira falava por ele. O piano, a voz, as canções, os palcos e uma vida inteira dedicada à música tinham construído uma figura reconhecida por várias gerações.

Mas havia também o homem.

E é desse homem que guardo a memória mais forte.

Quando digo que era uma pessoa especial e um ser iluminado, não estou a falar de uma personagem criada à volta do artista. Estou a falar da impressão que ficou daquele encontro.

Há pessoas que conhecemos durante muito tempo e que desaparecem rapidamente da memória.

E há outras que, mesmo num momento breve, deixam uma marca.

Jorge Palma ficou.

Os Açores também fazem parte da sua história

Jorge Palma correu os Açores com a sua música.

Passou pelas ilhas, encontrou públicos e levou aos palcos açorianos uma obra que já fazia parte da vida de muitas pessoas.

Para quem vive numa região insular, a passagem de um artista pelo arquipélago tem sempre uma dimensão diferente. Existe a viagem, a distância e o encontro. O artista chega às ilhas e, durante algumas horas, estabelece uma ligação directa com pessoas que muitas vezes acompanharam o seu trabalho durante anos.

Jorge Palma conheceu esse encontro.

As suas canções chegaram aos Açores muito antes de ele próprio chegar aos palcos das ilhas. Quando finalmente aparecia diante do público, já existia uma relação construída através da música.

“Frágil”, “Deixa-me Rir”, “Bairro do Amor”, “Estrela do Mar” e “A Gente Vai Continuar” fazem parte dessa memória colectiva.

Mas os concertos acabam.

O que permanece são as histórias.

Um artista que nunca coube numa só definição

Jorge Palma começou muito cedo no piano e teve formação clássica. Mas a sua vida musical levou-o muito mais longe.

O rock, a canção de autor, diferentes experiências musicais, os anos passados fora de Portugal e até os períodos em que tocou nas ruas fizeram parte de um percurso que nunca foi completamente previsível.

Essa liberdade acabou por entrar na sua música.

Jorge Palma escreveu sobre amor, perda, solidão, liberdade, noites, encontros e fragilidade sem tentar esconder as contradições da vida.

Talvez por isso as suas canções tenham conseguido atravessar gerações.

Não eram perfeitas.

Eram humanas.

A sua discografia foi crescendo ao longo de décadas, de Como uma viagem na palma da mão a Bairro do Amor, de a Voo Nocturno, passando por É Proibido Fumar, Norte e Com Todo o Respeito.

Em 2023 lançou VIDA, o seu último álbum de originais.

Um título que hoje soa inevitavelmente diferente.

Não foi pensado como despedida, mas tornou-se o último capítulo de uma obra construída ao longo de uma vida inteira.

O que fica depois da partida

Jorge Palma recebeu reconhecimento, prémios e distinções. Mas nenhuma lista consegue medir verdadeiramente a importância de um artista.

Isso mede-se de outra maneira.

Nas canções que continuam a ser ouvidas.

Nas frases que alguém ainda sabe de cor.

Num disco que volta a ser colocado no leitor anos depois.

Num concerto que permanece na memória.

Ou num encontro breve que uma pessoa não esquece.

É também aí que Jorge Palma continuará a existir.

Nos Açores ficam as suas passagens pelas ilhas, os palcos, os músicos, os técnicos e todos aqueles que tiveram contacto com ele.

Eu fico com aquela oportunidade única de ter privado uma vez com Jorge Palma.

Fico com a memória de uma pessoa especial.

De um ser iluminado.

E de um dos maiores artistas portugueses.

A música portuguesa perdeu uma das suas figuras mais singulares.

Mas Jorge Palma deixou uma obra demasiado grande para desaparecer com ele.

As canções continuam.

As memórias continuam.

E cada vez que uma delas tocar, haverá alguém que se lembrará de uma noite, de um lugar, de um concerto ou simplesmente daquele homem que um dia chegou a uma ilha com uma guitarra, um piano na memória e uma vida inteira para transformar em música.

Jorge Palma partiu.

A música ficou.

E nos Açores também ficou um pedaço dessa história.

Jorge Silva Medeiros

Jorge Silva Medeiros é técnico de som na RTP e fundador do Música Total, um dos projetos editoriais dedicados à música com maior longevidade em Portugal, dentro da plataformas. Ligado ao setor da comunicação e da música há mais de duas décadas, criou também a Rádio Atlântida e tem desenvolvido um trabalho contínuo na divulgação da música portuguesa, dos artistas emergentes e dos grandes eventos culturais, assim como produção de eventos.

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