Há discos que entram e ficam ali. Outros entram aos gritos e depois, puff. Este não faz nenhuma das coisas muito bem feitas. I Used to Go to This Bar, dos Joyce Manor, aparece.

Só isso. Curto. Direto. Meio seco até. Não vem dizer que mudou nada. Nem parece querer. Mas traz memória. E hoje a memória pesa. Pesa mais do que devia.

O pop punk.
Sim. Isso.

Pra perceber isto convém recuar um bocado. Anos 2000. Início. Quando isto não era só música. Era uma forma de falar. Canções rápidas. Refrões aos berros. Letras sobre tédio, frustração, crescer em sítios onde nada acontece. Green Day. Blink 182. Sum 41. Não vale a pena fingir que não sabemos. Toda a gente passou por ali. Ou esteve perto.

Cassetes. CDs riscados. Concertos suados. Rádios alternativas. Havia pressa. Havia um nós. Meio confuso, mas havia. Depois isso foi ficando gasto. Repetido. Transformado em fórmula. A coisa morreu um bocado aí. Ou ficou à espera.

Joyce Manor aparecem mais tarde. 2008. Já depois do entusiasmo. O rock a partir-se em bocados. A banda nunca pareceu interessada em ganhar nada. Nem em agradar a ninguém em particular. Nem a algoritmos, nem a modas. Escolheram outra coisa. Canções curtas. Estruturas simples. Emoção ali, sem verniz. Um certo desleixo. Calculado, se calhar. Ou não. Era mesmo assim.

Este disco sai agora. Num tempo estranho. Tudo sai todos os dias. Singles. Playlists. Coisas que nem acabam de ser ouvidas. O tempo encolheu. A atenção também. Lançar um álbum de vinte minutos hoje não é normal. Não é só estética. É um gesto. Ou uma teimosia. Ou só continuar porque sim. Não sei.

Musicalmente não há grandes surpresas. Riffs que já ouvimos. Progressões conhecidas. Letras sobre perda, rotina, estar fora do sítio. Nada de novo. Mas também ninguém prometeu novo. O valor não está aí. Está na persistência. Joyce Manor não querem ser relevantes. Continuam. Só isso. Continuam uma conversa antiga num mundo que já não tem paciência pra conversas longas.

E pronto.

Aqui o jornalismo musical tem de decidir se serve pra alguma coisa. Porque dizer que o disco é derivativo é fácil. Dizer que soa a outros tempos também. O difícil é perguntar porque é que isto ainda existe. Porque é que ainda há quem ouça. Porque é que ainda faz sentido. Se calhar porque nem tudo precisa de ser novo. Se calhar porque repetir também é uma forma de insistir.

Hoje tudo é polido. Medido. Optimizado. Métricas. Sucesso. Há qualquer coisa quase política em manter uma linguagem simples, imperfeita, emocionalmente direta. Não é nostalgia vazia. Não é revival. É resistência silenciosa. Ou só cansaço. Às vezes é a mesma coisa.

Joyce Manor não oferecem respostas. Não prometem futuro. Oferecem continuidade. Um fio fino entre um passado que ainda pesa e um presente cansado de se reinventar sem saber bem pra onde ir. Isso não chega pra toda a gente. Está-se bem. Mas chega pra quem ainda usa a música pra reconhecer coisas antigas em corpos diferentes.

Parar vinte minutos. Ouvir algo que não quer ser maior do que é.
Já é qualquer coisa.

E enquanto houver discos assim. Pequenos. Um bocado gastos. A conversa continua.