Os Jungle chegam a ‘Sunshine’ num momento particularmente interessante da sua carreira. O quinto álbum de estúdio chega hoje, 14 de agosto de 2026, depois do salto dado por Volcano e do impacto internacional de “Back On 74”. A questão já não é saber se J Lloyd e Tom McFarland conseguem fazer um disco com groove. Isso está demonstrado. A questão é outra: quanto ainda conseguem retirar de uma linguagem que se tornou imediatamente reconhecível?
A resposta não está numa reinvenção radical. Está no aperfeiçoamento. Sunshine mantém a mistura de soul, disco, funk, hip-hop e eletrónica que acompanha os Jungle desde o início, mas apresenta-a com uma confiança diferente. O álbum é mais aberto, mais luminoso e, em vários momentos, emocionalmente mais vulnerável. Não tenta esconder as fórmulas que funcionam. Trabalha-as até encontrarem novas formas.
E existe uma mudança importante dentro do próprio grupo. Lydia Kitto passa a integrar oficialmente os Jungle como terceiro elemento, depois de uma colaboração que já tinha ganho peso em Volcano. A mudança ajuda a explicar parte da nova dinâmica de Sunshine.
Os Jungle já não precisam de correr atrás do próximo passo
Formados em Londres em 2013 por Tom McFarland e J Lloyd, os Jungle construíram uma identidade assente numa combinação muito própria de ritmo, vozes em camadas, disco moderno, soul e hip-hop. Lydia Kitto juntou-se ao projeto em 2024, e a sua presença foi crescendo até chegar a este novo estatuto dentro da banda.
Volcano, lançado em 2023, foi o momento anterior de maior expansão. O álbum levou ainda mais longe uma linguagem que já vinha sendo desenvolvida desde Loving in Stereo, enquanto “Back On 74” se tornou uma das canções mais reconhecíveis do grupo.
Agora, Sunshine aparece sem aquela necessidade de provar que os Jungle conseguem ocupar salas maiores ou chegar a públicos diferentes.
Essa segurança nota-se.
O grupo parece mais interessado em trabalhar as pequenas diferenças dentro do seu próprio universo do que em procurar uma mudança de direção apenas para surpreender.
É uma escolha arriscada. Quando uma banda encontra uma fórmula tão reconhecível, pode facilmente transformar identidade em repetição.
Os Jungle escapam parcialmente a esse problema porque continuam a tratar o ritmo como matéria de composição, e não apenas como decoração.
Lydia Kitto muda a equação
A entrada oficial de Lydia Kitto merece mais atenção do que uma simples atualização da formação.
Kitto já estava profundamente ligada ao universo Jungle. Em Sunshine, a relação torna-se mais estrutural, com participação em composição, produção e voz. O trio passa a funcionar de maneira diferente, e isso ajuda a explicar a maior amplitude vocal e emocional que atravessa o álbum.
A própria banda tem destacado a importância da voz de Kitto. Essa voz acrescenta uma dimensão soul que se encaixa naturalmente no som dos Jungle, mas também abre espaço para uma relação diferente entre as vozes masculinas e femininas.
Não é apenas uma questão de acrescentar uma nova voz.
É uma questão de alterar a arquitetura das canções.
A música dos Jungle sempre foi muito dependente de camadas. Vozes, sintetizadores, baixos, percussão e efeitos aparecem como peças de uma mesma estrutura. Com Kitto integrada no núcleo criativo, essa arquitetura ganha outra possibilidade.
Sunshine beneficia disso.
Onze faixas sem abandonar o groove
O álbum tem 11 faixas, começando com “Come Back to Me” e passando pelo tema-título, “Where Are You Now?”, “Move Like You Do”, “Romeo II” com Bas, “Carry On”, “The Wave”, “Someday, Somewhere”, “Natural”, “Reflection” e “Heavy on My Soul”. A tracklist está confirmada na loja oficial dos Jungle.
“Carry On” foi a primeira amostra do álbum e apresentou uma versão particularmente melódica dos Jungle. “The Wave” aprofundou essa direção, aproximando o grupo de uma dimensão mais quente e orgânica, com referências à música brasileira dos anos 60 e 70.
“Romeo II”, com Bas, recupera a ligação dos Jungle ao hip-hop sem quebrar a fluidez do álbum.
Já “Someday, Somewhere” trabalha uma ideia de esperança que se encaixa no lado mais luminoso do disco. Mas Sunshine não deve ser confundido com um álbum simplesmente feliz. A própria crítica publicada no lançamento identifica essa combinação entre energia dançável e emoções menos lineares.
É precisamente essa contradição que lhe dá algum interesse.
Os Jungle continuam a fazer música para mexer o corpo, mas não precisam de transformar cada canção numa celebração.
A luz também tem sombras
O título Sunshine parece indicar uma direção muito clara.
Mas o álbum não vive apenas de euforia.
“Where Are You Now?” introduz uma sensação de distância. “Reflection” aponta para dentro. “Heavy on My Soul” encerra o disco com uma formulação que, por si só, já contraria a ideia de uma obra completamente solar.
Essa escolha é importante.
Um álbum chamado Sunshine poderia facilmente cair numa estética demasiado limpa, demasiado positiva, quase publicitária.
Os Jungle deixam espaço para outras emoções.
O resultado é um disco que parece procurar esperança sem fingir que tudo está resolvido.
Essa diferença pode parecer pequena, mas é precisamente aquilo que impede Sunshine de se tornar apenas uma coleção de grooves agradáveis.
O próximo teste será Lisboa
O novo álbum terá também uma vida importante fora dos auscultadores.
Os Jungle vão apresentar Sunshine numa nova digressão mundial, com passagem por grandes salas na Europa, América do Norte e Austrália. Em Portugal, o grupo regressa à MEO Arena, em Lisboa, no dia 24 de outubro de 2026, com Rio Kosta na primeira parte. A abertura de portas está marcada para as 18h30 e o espetáculo começa às 20h00.
A dimensão do concerto é coerente com o crescimento da banda.
A música dos Jungle foi construída para o movimento. Os videoclipes, muitas vezes centrados na dança e realizados com uma linguagem visual muito própria, ajudaram a criar uma identidade que ultrapassa a música gravada.
No palco, essa dimensão física ganha outra escala.
Será também uma oportunidade para perceber se as novas canções conseguem competir com temas que já fazem parte do imaginário do público, como “Back On 74”.
Esse é um teste interessante.
Porque uma coisa é criar um álbum coerente.
Outra é colocá-lo perante uma audiência que espera ouvir os grandes êxitos anteriores.
Uma banda que escolheu evoluir sem destruir a própria identidade
Sunshine não é o álbum em que os Jungle abandonam aquilo que os tornou conhecidos.
É quase o contrário.
É o disco de uma banda que percebeu que já possui uma linguagem própria e decidiu trabalhar dentro dela com mais liberdade.
O resultado pode não surpreender quem esperava uma transformação radical. Mas essa talvez seja uma expectativa errada.
Os Jungle não precisam de começar de novo.
Precisam de continuar a descobrir pequenas possibilidades dentro de uma linguagem que construíram durante mais de uma década.
E Sunshine mostra que ainda existem algumas.
A banda sabe fazer groove. Sabe construir refrões. Sabe juntar soul, disco e eletrónica. Agora, com Lydia Kitto integrada no núcleo do projeto, parece também mais interessada em explorar a dimensão emocional dessas ferramentas.
O sol dos Jungle continua a brilhar.
A diferença é que, desta vez, também conseguimos ver as sombras.
Tracklist
- Come Back to Me
- Sunshine
- Where Are You Now?
- Move Like You Do
- Romeo II feat. Bas
- Carry On
- The Wave
- Someday, Somewhere
- Natural
- Reflection
- Heavy on My Soul
A tracklist e a data de lançamento de 14 de agosto de 2026 estão confirmadas pela loja oficial dos Jungle.
