Quinta-feira, 3 de Setembro de 2026
Destaque

Kalorama: a última grande explosão de som que despede os festivais de verão

Por Graziano Tullio 3 Set 2026

No último fim de semana de agosto, o Parque da Bela Vista, em Lisboa, recebe um festival com um cartaz que muitos diriam ser, no mínimo, insólito: de Robbie Williams a Ms. Lauryn Hill, passando por Deftones e Peaches.

O que, à primeira vista, poderia parecer uma mera amálgama de cabeças de cartaz reunidas à pressa para despachar bilhetes reflete, na verdade, uma identidade bem definida: a recusa em fechar-se em caixas ou géneros e uma abertura a contaminações estéticas, em linha com o carácter assumidamente urban da iniciativa. Num tempo de identidades fluidas, o Kalorama revela-se, assim, um festival decididamente sintonizado com os tempos que correm.

Depois de um sábado em que público e crítica se entregaram a análises intermináveis ao concerto-evento de Lauryn Hill, o domingo apresentou-se substancialmente mais sólido e focado. Convenhamos: um dia dedicado ao hard rock e ao hardcore não se pode dar ao luxo de brincadeiras; por estas bandas, se algo corre mal, alguém se magoa a sério.

Comecemos, então, pela tarde.

TRAVO

O arranque coube a uma das grandes promessas do rock alternativo nacional. Intensidade e psicadelia são os cartões de visita daquela que é, atualmente, uma das bandas mais promissoras de Portugal. Não foi por acaso que até a influente KEXP publicou uma sessão ao vivo do grupo, dando um novo impulso à sua projeção internacional.

As guitarras distorcidas erguem uma parede sonora em constante expansão, enquanto o groove do baixo e da bateria oscila habilmente entre a introspeção e a explosão. A estética move-se entre o heavy psych e o garage rock.

Temas como «Sleeper» e «Way Down» dão corpo a uma atuação crua, mas magnética, em que se percebe uma coerência inequívoca por baixo de um caos meramente superficial. Apesar do horário ingrato, tocar às 17h, em pleno mês de agosto, em Lisboa, está longe de ser um manjar dos deuses, conseguiram induzir um transe coletivo e provocar vários momentos de mosh, uma tendência que se manteria ao longo de todo o dia, até altas horas da madrugada. O novo álbum do grupo, Wasteland, tem lançamento previsto para 2 de outubro, uma data que convém ter debaixo de olho.

PELADOS

 

Esta jovem banda brasileira saiu pela primeira vez do país natal para espalhar a sua energia. A fórmula combina eletrónica synth-pop com guitarras distorcidas, coroada por uma atitude de frontwoman que faz lembrar as [frase incompleta no original].

O concerto construiu-se quase integralmente em torno do álbum mais recente, Contato (2025), antes de recuarem alguns anos com «Vampirinhos do Amor», de Foi Mal (2022).

É um espetáculo não linear, mais próximo de uma performance punk-pop contemporânea do que de um concerto convencional. Os temas surgem fragmentados, com estruturas propositadamente irregulares e referências pop que incluem samplers «emprestados» a Lady Gaga ou aos Weezer. A voz de Manu Julian, entre o etéreo e o visceral, pode não estar sempre cirurgicamente afinada, mas encaixa na perfeição na estética do grupo, que rejeita a procura da perfeição técnica em favor de um som imediato e de uma forte componente cénica. Afinal de contas, como elas próprias recordam nas letras, «music is supposed to be fun».

HIGH VIS

 

 

São, sem margem para dúvidas, a banda mais badalada da atual cena post-punk e hardcore britânica. No entanto, Graham Sayle passa o tempo entre canções a insistir que não esperava ver ali tanta gente: parece genuinamente surpreendido e visivelmente elétrico. O público responde à altura, mostrando-se muito caloroso: há tanto crowd surfing a acontecer como garrafas de água e bonecos de peluche a voar pelo ar. Talvez pela juventude da plateia, o mosh não abranda durante uma única canção. Sayle domina o palco com uma presença impressionante, enquanto os restantes membros se concentram nos riffs, gerando uma muralha sonora massiva.

A plateia acompanha cada verso, cantando em uníssono. As letras abordam temas de forte pendor social e identitário, como o luto, a perda e a toxicodependência, transformando várias destas canções em autênticos mantras geracionais.

Sayle é um líder carismático, vulnerável e feroz em doses iguais. A meio do concerto, faz um discurso emotivo e motivacional sobre o álcool e as drogas, exortando todos os presentes a cuidarem da sua saúde mental e a não perderem a paixão pela música. Recorda ainda um amigo que faleceu devido a uma overdose, encorajando quem precisa a procurar ajuda e apoio terapêutico.

O círculo fecha-se de forma perfeita quando arrancam com «Trauma Bonds», deixando claro o impacto da mensagem que querem transmitir. Pelo meio, tocam «No Sense No Feeling» (2019), o seu tema mais popular nas plataformas digitais, mas o momento mais avassalador da tarde surge com «Choose to Lose», cantada por todos de olhos fechados.

Desta vez, os High Vis ganharam.

WEDNESDAY

 

 

Apresentados no site do festival como uma das bandas mais influentes do novo alt-country americano, revelam ao vivo uma sonoridade substancialmente mais rock do que o esperado, marcada por riffs pesados e pelo timbre áspero da vocalista. Em palco, erguem uma fusão singular de country, indie rock dos anos 90 e a melancolia de uma pedal steel guitar.

Mesmo nos momentos mais melódicos, como «Wound Up Here (By Holdin’ On)», o reverb das guitarras e a entrega vocal arranham muito mais do que nas gravações do disco.

Karly Hartzman exibe uma voz que é frágil, mas simultaneamente cortante, o que só atesta o seu talento excecional de storyteller. Houve ainda tempo para prestar homenagem a Dolly Parton, um ícone absoluto do country-folk que nos deixou há apenas escassos dias, dedicando-lhe «Phish Pepsi», um tema original de MJ Lenderman (2021).

Seguiu-se «Gary’s II», onde finalmente veio ao de cima a vertente mais puramente country do grupo, com ritmos e texturas que nos transportam diretamente para Nashville. O fecho deu-se com «Bath County», anunciada como o aquecimento ideal para o que aí vinha com os Deftones. Aqui, a voz abre-se por completo sobre a batida em 4/4 e as guitarras ásperas começam a soar-nos bastante familiares.

Despedimo-nos assim dos Wednesday, prontos para aconchegar o estômago e enfrentar, com as baterias carregadas, o bloco nobre do cartaz.

PEACHES

 

A icónica artista canadiana de electroclash, Peaches, nome artístico de Merrill Beth Nisker, regressou este ano às edições com o álbum No Lube So Rude, lançado nada menos do que onze anos após o seu último registo de estúdio. O título do trabalho é descrito pela própria como uma metáfora de cariz político e social: «Quando o mundo está cheio de atritos, o lubrificante não é um luxo: é uma necessidade para transformar a fricção em prazer, em poder e em orgulho.»

O concerto traduziu-se num cocktail explosivo, explícito e ruidoso, que cruza eletrónica, punk, industrial, dance e pop. Peaches atira-se para cima da multidão, faz-se carregar em procissão, caminhando sobre as mãos do público, e deixa-se lamber pelos bailarinos, mantendo-se fiel ao seu registo provocador e ao ativismo queer. A dada altura, despe-se e, seminua, entoa «Fuck How You Wanna Fuck». Esta, como a quase totalidade das suas canções, aborda temáticas cruciais como a autonomia do corpo, a sexualidade e a identidade.

O público que ali se encontrava para ver Turnstile e Deftones não parecia, contudo, totalmente recetivo à performance. Salvo um reduto da comunidade queer lisboeta que se desunhou a dançar junto às grades, a maioria dos presentes encarou o espetáculo quase como se estivesse diante de uma instalação num museu de arte contemporânea: observavam com curiosidade e diversão, mas mantendo uma distância de segurança que evitasse qualquer compromisso físico.

Muito interesse, mas pouco suor coletivo.

O cenário mudou ligeiramente de figura com as batidas irresistíveis de faixas como «You’re Alright», onde os bailarinos, com adereços BDSM, a carregavam triunfalmente. Além disso, as guitarras de «Boys Wanna Be Her» despertaram a fação mais rockeira da audiência, que finalmente se dignou a participar.

Não deixa de ser bizarro, e até divertido, ver rapazes com t-shirts de Tool ou Korn a dar tudo num tema electroclash. Se bem que, pensando melhor, estes mundos não são assim tão distantes, se nos recordarmos de que Peaches já andou em digressão com os Nine Inch Nails.

 

TURNSTILE

 

Os primeiros acordes de «Birds» bastaram para esclarecer os mais desatentos sobre a razão pela qual os Turnstile são considerados uma das forças mais dinâmicas do hardcore planetário atual: uma proposta artística que combina na perfeição a descarga física com um sentido de quase transcendência.

As letras focam-se em ideias de liberdade, espírito comunitário e espiritualidade, muito embora a sonoridade dos primeiros temas do alinhamento evoque, de alguma forma, a clássica «Welcome to the Jungle», dos Guns N’ Roses, cujo conteúdo lírico aponta numa direção bastante distinta. Ou será que não?

Brendan Yates é um líder invulgar para os padrões do hardcore, transmitindo uma aura de abertura e partilha em vez da habitual agressividade gratuita. Daniel Fang, na bateria, utiliza com frequência ghost notes para conferir uma elasticidade deliciosa ao groove da banda, enquanto Franz Lyons traz ao baixo um som limpo e hi-fi, bem distante do registo tradicional do género.

O espetáculo beneficia ainda de momentos de grande envolvimento emocional, suportados por teclados e texturas sonoras prolongadas. É um hardcore solar, nada sombrio.

Há uns tempos, li um artigo no NME que descrevia os concertos da banda como «um ritual coletivo, uma verdadeira explosão de cores». Tudo fez sentido quando arrancou «Dull» e um rapaz na plateia ergueu um telefone fixo antigo. O aparelho foi imediatamente focado pelas câmaras do palco, no preciso momento em que o vocalista entoava «And there’s a ringing when you talk to me…».

Se no dia anterior Lauryn Hill e os Fugees optaram por um LED wall marcadamente autorreferencial, centrado no seu legado cultural, capas de discos e clips de galas de prémios, os Turnstile escolheram colocar o próprio público no centro da narrativa visual. O ecrã gigante exibia planos aproximados das reações das pessoas, planos longos e carregados de cumplicidade, promovendo uma ligação direta com a multidão e focando mensagens de amor escritas por quem assistia.

No final do concerto, os próprios membros da banda lançaram do palco as setlists impressas diretamente aos fãs. É nesta proximidade que o espetáculo encontra a sua razão de ser: não se trata apenas de um concerto, mas de uma comunidade que se olha nos olhos e se reconhece.

Estamos, claramente, perante uma nova era para o hardcore.

 

DEFTONES

 

 

É claro que algo mudou nos Deftones que guardávamos na memória. Ao vivo, a banda mostra-se hoje mais atmosférica do que agressiva, mais hi-fi do que propriamente abrasiva e mais emotiva do que raivosa. O novo álbum, Private Music, também se foca nas dinâmicas e texturas sonoras, deixando para trás o impacto bruto de outrora.

O próprio registo vocal de Chino Moreno acompanhou esta transição: há muito menos scream puro e uma maior aposta no falsete, revelando maior controlo técnico e menor exposição ao risco. Chino já não tenta alcançar os registos mais extremos e desgastantes que marcaram o final dos anos 90. Exibe agora um alcance mais contido, mas consideravelmente mais seguro e estável.

O alinhamento acabou por fazer uma retrospetiva abrangente de toda a carreira. A abertura fez-se com «Be Quiet and Drive (Far Away)», de Around the Fur (1997), seguindo-se clássicos como «Feiticeira» e «Korea», retirados do mítico White Pony (2000), o inebriante «Cherry Waves», de Saturday Night Wrist (2006), e o denso «Rosemary», do álbum Koi No Yokan (2012).

Trata-se de um espetáculo onde a componente eletrónica e as texturas ambientais ganham uma nova relevância. A moldura humana seguiu o mesmo tom: o mosh manteve-se restrito à habitual secção mesmo em frente ao palco, com o restante público a preferir deixar-se embalar pelos silêncios, pelos crescendos dramáticos e pelas explosões sonoras controladas.

Algo que também se deveu ao facto de o som, lá atrás, e em particular a voz de Moreno, chegar com bastante dificuldade devido à forte aragem que se fazia sentir.

Em palco, fumo denso e banhos de luz branca criaram um ambiente propício a uma imersão sensorial profunda, que teve o seu ponto alto em «Change (In the House of Flies)». Durante a execução deste hino, a imagem que fica na retina é a de Chino Moreno recortado contra a projeção de um sol poente gigantesco no ecrã de LED.

Uma composição visual que parece quase desenhada de propósito para ilustrar a narrativa que o festival faz de si próprio. Nos seus comunicados de imprensa oficiais, o Kalorama gosta de se apresentar como o festival que dita o fim do verão.

O cair do pano sobre a temporada dos grandes festivais ao ar livre. Uma última e monumental explosão de luz e som distorcido antes de cada um de nós regressar à rotina do dia a dia.

Até à próxima temporada.

 

 

LER: Lauryn Hill no Kalorama: um concerto, três décadas

Graziano Tullio

Jornalista por paixão, quando está fora dos escritórios de ONGs e instituições internacionais, leva para as recensões de concertos a sua crítica acutilante das dinâmicas humanas e a análise rigorosa do contexto - por pura deformação profissional.

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