Lee “Scratch” Perry e Mouse on Mars revelam “To The Rescue” e deixam pistas do último capítulo de uma lenda

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Uma colaboração que atravessa décadas, geografias e linguagens musicais volta a ganhar forma com o novo single “To The Rescue”, retirado de Spatial, No Problem., o disco que marca o adeus definitivo de Lee ‘Scratch’ Perry enquanto criador em estúdio. O álbum, assinado em conjunto com Mouse on Mars, chega a 5 de junho com o peso simbólico de ser o último projeto oficial do produtor jamaicano.

Depois da textura mais experimental de “Rockcurry”, este novo avanço revela outra camada da parceria. “To The Rescue” surge mais direto, mas não menos estranho. Há uma tensão constante entre o caos controlado da eletrónica alemã e a presença espiritual de Perry, que continua a soar como alguém fora do tempo, a narrar de um lugar que não é bem terrestre.

Um encontro improvável que faz sentido

A ideia de cruzar o universo dub de Lee “Scratch” Perry com a eletrónica fragmentada de Mouse on Mars podia soar improvável à partida. Mas basta ouvir alguns segundos para perceber que há aqui uma lógica interna. Ambos sempre trabalharam fora de convenções, moldando som como matéria viva.

Perry, figura central na construção do dub e responsável por redefinir o papel do estúdio como instrumento, encontra nos alemães um terreno fértil para continuar essa exploração. Mouse on Mars, por sua vez, mantêm a sua assinatura caótica, cheia de cortes abruptos, ritmos desalinhados e detalhes que parecem fugir ao controlo… mas nunca fogem totalmente.

“Spatial, No Problem.” como cápsula final

Este álbum não funciona apenas como mais um lançamento colaborativo. Existe uma carga emocional inevitável. Trata-se do último registo oficial de Perry, o que transforma cada faixa numa espécie de documento.

“Spatial, No Problem.” parece assumir essa condição sem cair na nostalgia. Em vez de olhar para trás, projeta-se para um espaço estranho, quase abstrato. O título não é inocente. Há uma ideia de deslocamento, de ausência de limites físicos, que encaixa na própria forma como Perry sempre trabalhou o som.

Entre o motorik e o dub cósmico

Se “Rockcurry” piscava o olho ao motorik, com aquela pulsação repetitiva herdada da tradição alemã, “To The Rescue” abre mais espaço para o imprevisível. As estruturas são menos lineares, mais soltas, quase como se a música estivesse sempre prestes a desmoronar… mas nunca chega a cair.

A voz de Perry surge como um elemento fantasmagórico. Não guia necessariamente a música, mas paira sobre ela. É presença, textura e memória ao mesmo tempo. E isso muda completamente a forma como se escuta o tema.

Um legado que continua a expandir-se

Falar de Lee “Scratch” Perry é falar de uma das figuras mais influentes da história da música moderna. Do reggae ao dub, da eletrónica ao hip-hop, a sua influência é transversal e contínua.

Este disco com Mouse on Mars não tenta fechar esse legado. Pelo contrário, deixa-o em aberto. Como se dissesse que a história não termina aqui, mesmo que esta seja a última gravação oficial.

E talvez seja isso que torna “To The Rescue” tão interessante. Não soa a despedida. Soa a continuação… só que de outro lado.

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