“Brasil de Janeiro”, primeiro avanço, já apontava o caminho. Agora, com o disco completo disponível, percebe-se melhor a ambição: cada faixa funciona como um destino, onde ritmo, textura e referência cultural se cruzam de forma orgânica. O resultado é um álbum pensado para escuta contínua, com identidade própria e coerência estética.
DJ Vibe e Paulo Pedro Gonçalves voltam a cruzar caminhos
A base deste projeto está na história. DJ Vibe é uma das figuras mais influentes da eletrónica portuguesa, com décadas de carreira e impacto na cultura de dança. Já Paulo Pedro Gonçalves construiu um percurso que atravessa várias fases da música nacional, dos Heróis do Mar ao experimentalismo dos LX-90.
O reencontro recente reacendeu uma ligação criativa que aqui ganha nova forma. Não se trata de nostalgia. Trata-se de evolução. O disco mostra dois músicos experientes a procurar novos caminhos sem perder identidade.
Oito faixas que funcionam como mapa sonoro
A estrutura do álbum é clara: oito temas, oito geografias. De “Pine Ridge”, nos Estados Unidos, até “Yokohama Clouds”, no Japão, o disco constrói uma narrativa global através do som.
“Motel Danakil” evoca o universo de Fela Kuti, com percussões densas e pulsantes. “Acqua Della Medici” aproxima-se da estética de Giorgio Moroder, com sintetizadores envolventes e cinematográficos.
Já “Reeperbahn”, segundo single, transporta-nos para Hamburgo, território associado ao crescimento dos The Beatles, mas aqui reinterpretado através da eletrónica de matriz alemã, com referências aos Kraftwerk e ao krautrock.
Cada faixa funciona de forma autónoma, mas o conjunto ganha força quando ouvido como um todo.
Produção analógica e detalhe sonoro
Apesar da base eletrónica, o disco não soa mecânico. O processo criativo passou pelo estúdio de DJ Vibe em Lisboa, com recurso a sintetizadores clássicos como Moog e Roland TB-303, combinados com guitarras e manipulação direta de som.
Essa abordagem cria uma sonoridade mais orgânica. Há textura, há dinâmica, há intenção em cada camada. O disco evita a frieza digital e aproxima-se de uma experiência mais física e imersiva.
Vinil, edição limitada e identidade própria
O lançamento em vinil não é apenas uma escolha estética. É também uma afirmação de posicionamento. Num mercado dominado pelo streaming, Mão aposta num formato físico, limitado e colecionável.
A edição sai com o selo Chic Choc Music, criado pelos próprios artistas. O nome recupera uma memória ligada a Lisboa e ao contacto inicial com a cultura de discos, reforçando a dimensão pessoal do projeto.
Entre BPMs vibrantes e melodias detalhadas, este álbum abre espaço para uma escuta mais atenta. Fica a ideia de que este é apenas o primeiro capítulo de algo que ainda está a crescer.