Quinta-feira, 30 de Julho de 2026
Entrevista

Mariana Pinheiro: “Nunca acreditei na perfeição, acredito na autenticidade”

Por Jorge Silva Medeiros 30 Jul 2026

Há artistas que cantam sobre o mundo. Mariana Pinheiro canta sobre si própria — e é aí que reside toda a força de “O Dom de Estar Errada”. Nesta conversa, a cantautora açoriana não se esconde atrás de metáforas fáceis: fala-nos de amores que a marcaram, de inseguranças que carregou e da coragem de transformar tudo isso numa canção. Entre o mar de São Miguel, onde gravou o videoclipe, e as lendas que ouviu em criança, Mariana revela como os Açores moldaram não só a sua música, mas a forma como olha para o mundo e para si mesma. É uma conversa sobre erros, sobre recomeços e sobre a beleza de sermos, simplesmente, autênticos.

“O Dom de Estar Errada” parte de uma reflexão muito pessoal. Em que momento da sua vida sentiu que esta canção precisava de ser escrita?

 

Esta canção nasceu no momento em que me apercebi de que vivemos rodeados por uma necessidade constante de valorizar a beleza exterior em detrimento daquilo que realmente somos por dentro. O Dom de Estar Errada fala precisamente sobre isso: aceitar que errar faz parte da condição humana e que não faz sentido procurarmos uma perfeição que nunca existiu. A imperfeição torna-nos únicos e é nela que encontramos a nossa identidade.

Ao mesmo tempo, é também uma canção de amor. Explora a vulnerabilidade de estar apaixonado, com todas as suas dúvidas, falhas, medos e inseguranças. A canção lembra-nos que não há problema em sermos diferentes e em abraçarmos aquilo que nos torna únicos, porque é precisamente aí que reside a nossa autenticidade.

O título chama imediatamente a atenção. Porque decidiu assumir o “erro” como algo positivo e transformá-lo no centro desta canção?

Mais do que tudo, a arte é imperfeita e também erra. Não é por acaso que existe a expressão “errar é humano”. A minha vida foi feita de muitos erros e vários deles ajudaram a transformar-me na pessoa que sou hoje. Sou o resultado desse conjunto de tentativas, falhas, paixões e desilusões. Tudo isso me foi moldando e levou-me a tornar-me alguém de quem, neste momento, me orgulho. Por isso, quis assumir o erro como algo positivo: como uma parte inevitável da criação, do amor e do crescimento.

A vulnerabilidade é um dos temas mais fortes do tema. Foi difícil expor esse lado mais íntimo através da música?

É sempre difícil despirmo-nos das camadas que nos protegem. Como referi, este tema foi escrito há já algum tempo, atravessado por amores e desamores, mas também pela forma como observo a sociedade. Quis mostrar que ainda existe uma luz ao fundo do túnel e que ser positivo também é uma forma de vulnerabilidade.

Vivemos num mundo onde dizer a verdade parece, muitas vezes, um castigo. Existe uma pressão constante para sermos sempre certos e para encaixarmos numa ideia de perfeição. Quando somos imperfeitos, diferentes ou escolhemos lutar por aquilo em que acreditamos, acabamos muitas vezes por ser postos de lado.

Essa vulnerabilidade nasce também da tentativa de perceber quem somos. Passamos muito tempo à procura de uma versão ideal de nós próprios, quando, na realidade, somos feitos de imperfeições. E talvez seja precisamente isso que nos torna humanos. Acredito que a beleza está em aceitarmos quem somos, sem esconder as falhas, porque elas também contam a nossa história.

O videoclipe foi gravado em São Miguel. De que forma as paisagens açorianas ajudam a contar a história de “O Dom de Estar Errada”?

Há um verso na canção que diz: “Eu não sou nem luz, nem água, mas carrego tudo em mim.” Esse verso resume muito da forma como vejo a relação entre o ser humano e a natureza. Durante muito tempo esquecemo-nos de que fazemos parte dela. Olhamo-nos como algo separado, quando, na verdade, sempre dependemos dela para sobreviver, para criar e até para compreender aquilo que sentimos.

Os Açores têm uma energia muito própria. Crescer rodeada pelo mar, pelas lagoas, pelas florestas e pela constante presença dos elementos faz-nos olhar para a natureza de outra forma. Há uma dimensão quase espiritual nestas ilhas. São lugares onde coexistem a força e a tranquilidade, o silêncio e a violência da terra. Basta pensar que vivemos em ilhas vulcânicas, moldadas por erupções, tempestades e pelo oceano. Há uma beleza muito particular nessa ideia de transformação constante.

Foi por isso que nunca tive dúvidas de que o videoclipe teria de ser filmado em São Miguel. Não queria utilizar a paisagem apenas como um cenário bonito. Queria que ela fosse uma personagem da história. A natureza acompanha a canção do princípio ao fim e traduz aquilo que as palavras, por vezes, não conseguem dizer. Quando estou rodeada por aqueles lugares sinto que tudo abranda. Existe espaço para respirar, para errar e para existir sem máscaras.

Acho que há também uma enorme magia nas nossas ilhas. Crescemos rodeados de lendas, de histórias de bruxas, de fadas encantadas, de lagoas que nasceram de lágrimas e de lugares que parecem saídos de um conto antigo. Esse imaginário faz parte da minha identidade enquanto açoriana e acaba inevitavelmente por entrar naquilo que escrevo. Mesmo quando não estou a falar diretamente dos Açores, eles continuam presentes na forma como observo o mundo. O videoclipe é quase uma carta de amor a essa terra que me ensinou que a beleza nunca está na perfeição, mas naquilo que permanece vivo e autêntico.

Enquanto artista açoriana, sente que viver ou crescer nos Açores influenciou a forma como escreve, compõe e observa o mundo?

Sem dúvida. Crescer nos Açores influenciou profundamente a forma como escrevo, componho e observo o mundo. Quando crescemos rodeados pela natureza, ela deixa de ser apenas uma paisagem e passa a fazer parte da forma como sentimos. Acho que isso acaba por entrar naturalmente naquilo que escrevo.

Os Açores ensinaram-me a respeitar o silêncio. Vivemos num lugar onde o mar muda de humor, onde o nevoeiro transforma completamente uma paisagem e onde a terra nos recorda constantemente que está viva. Isso faz-nos perceber que existem coisas muito maiores do que nós e convida-nos a olhar para o mundo com mais calma. Acho que essa forma de observar passou para a minha música.

Também sinto que crescer aqui alimentou muito a minha imaginação. Desde pequena fui fascinada pelas lendas açorianas, pelas histórias de lugares encantados e por essa ideia de que existe sempre qualquer coisa que escapa àquilo que conseguimos explicar. Esse imaginário continua muito presente na forma como escrevo. Mesmo quando não estou a falar diretamente dos Açores, há sempre uma parte deles nas imagens que escolho, nos símbolos que utilizo e na maneira como construo uma narrativa.

Ao mesmo tempo, viver numa ilha desperta uma enorme vontade de conhecer o mundo. Existe sempre uma curiosidade por aquilo que está para lá do horizonte. Talvez por isso a minha música reúna referências muito diferentes, mas acabe sempre por regressar às ilhas. É nelas que encontro a minha identidade e é delas que parto para contar as histórias que quero contar.

Acho que os Açores ensinaram-me que a natureza tem uma linguagem própria. Basta estarmos disponíveis para a ouvir. É essa atenção ao detalhe que tento transportar para tudo aquilo que crio.

Além da música, também desenvolve trabalho na literatura e na investigação. Como é que essas diferentes áreas dialogam entre si no seu processo criativo?

Para mim nunca existiram fronteiras muito claras entre essas áreas. A música, a literatura e a investigação partem da mesma necessidade de compreender o mundo e de contar histórias. Muitas vezes tudo começa com uma imagem, uma pergunta ou uma inquietação que fica comigo e que sinto necessidade de desenvolver.

A investigação ensinou-me a observar com mais atenção e a não aceitar a primeira resposta. Fez-me perceber que vale a pena regressar ao mesmo tema, porque quase sempre encontramos algo que nos tinha escapado. Essa forma de pensar passou naturalmente para a música. Gosto de escrever letras que deixem espaço para quem as ouve encontrar o seu próprio significado.

A literatura também está muito presente no meu processo. Sempre gostei de autores que conseguem criar atmosferas fortes e dar peso a pequenos gestos. Talvez por isso as minhas canções sejam muito visuais. Enquanto escrevo, vejo quase sempre um filme a acontecer na minha cabeça. Penso na paisagem e na forma como cada palavra pode criar uma sensação.

A música, por sua vez, permite-me abordar aquilo que a investigação nem sempre consegue alcançar. Há emoções que não cabem numa análise e perguntas que não precisam de uma resposta definitiva. A música dá-me liberdade para permanecer nesse espaço.

Penso que tudo aquilo que faço nasce da mesma curiosidade. Seja quando escrevo sobre cinema ou quando componho uma canção, continuo a tentar compreender melhor aquilo que nos torna humanos e a transformar essas perguntas em algo que possa chegar aos outros.

Na letra existe também uma preocupação com o mundo e com o ambiente. Considera que a música pode ser uma ferramenta para despertar consciências?

Acredito que sim, mas sem cair na ideia de que a música tem de dar respostas ou dizer às pessoas aquilo que devem pensar. Às vezes basta uma única frase para despertar uma pergunta.

Na canção há um verso que diz: “um planeta que implora, mas ninguém o quer escutar.” É talvez a referência mais direta ao ambiente e, para mim, é suficiente. Não senti necessidade de desenvolver mais esse tema porque a música não fala apenas da relação que temos connosco. Fala também da forma como nos relacionamos com aquilo que nos rodeia. Se somos incapazes de escutar o planeta, muitas vezes também somos incapazes de escutar as outras pessoas e até a nós próprios.

Acho que a arte tem essa capacidade de plantar uma ideia sem precisar de a explicar em excesso. Não gosto de mensagens demasiado literais. Prefiro que seja o ouvinte a completar o caminho. Se alguém ouvir aquele verso e parar por um momento para pensar na forma como tratamos o mundo em que vivemos, então a música já cumpriu o seu papel.

Acredito que toda a criação artística transporta uma visão do mundo, mesmo quando não é assumidamente política ou ambiental. Esta canção também o faz. Lembra-nos que fazemos parte da natureza e que aquilo que lhe acontece acaba inevitavelmente por acontecer também a nós.

Como foi trabalhar com Mário Raposo nos arranjos e com Ana Cláudia e Nelson Félix neste projeto? O que trouxe cada um deles ao resultado final?

Costumo dizer que esta canção deixou de ser apenas minha no momento em que outras pessoas começaram a acreditar nela. Todos trouxeram algo muito próprio e acho que isso sente-se quando a ouvimos.

O Mário Raposo foi absolutamente essencial. Quando lhe mostrei a música, ela existia apenas na sua forma mais crua. Tinha sido composta no meu pequeno sintetizador, com tempos irregulares e uma produção muito rudimentar. Mas o Mário percebeu imediatamente aquilo que eu queria transmitir. Falei-lhe de referências como Hans Zimmer, Aurora e Madredeus, mas, acima de tudo, falei-lhe de uma sensação. Queria que a música tivesse um lado tribal, ligado à natureza e às raízes, sem perder a delicadeza. Ele conseguiu transformar essa ideia num universo sonoro muito maior do que eu imaginava, sem nunca apagar a identidade da canção. Pelo contrário, ajudou-a a encontrar a sua verdadeira voz.

O Nelson Félix também teve um papel muito importante. Conhecemo-nos há vários anos e sempre admirei a forma como toca. Pedi-lhe apenas que fosse ele próprio. Nunca lhe dei grandes indicações técnicas, porque confiava no seu instinto musical. Acho que é isso que torna as colaborações verdadeiramente especiais. Quando damos liberdade a um músico, ele deixa de executar uma ideia e passa a fazer parte dela. Foi exatamente isso que aconteceu.

A Ana Cláudia trouxe uma dimensão completamente diferente à música. Tem uma voz muito bonita e uma sensibilidade enorme. Eu queria que os coros transmitissem uma sensação quase etérea, como se fossem uma extensão da própria natureza. Ela conseguiu criar esse ambiente sem nunca se sobrepor à canção. Há momentos em que parece que a voz dela está simplesmente a respirar com a música, e acho que essa subtileza fez toda a diferença.

Este tema é o resultado da confiança. Cada pessoa acrescentou um pouco da sua identidade e, por isso, nunca os vi apenas como músicos convidados. São parte da canção. Acho que é precisamente isso que torna um projeto artístico especial. Quando todos compreendem a mesma intenção, o resultado deixa de ser a soma de várias pessoas e transforma-se numa única obra.

A componente visual deste lançamento é muito forte. Qual foi a ideia por trás da construção do videoclipe e da sua estética?

A componente visual do videoclipe deve-se inteiramente ao talento do Nelson Correia e da Sílvia, da S&N Intercut Films. Dei-lhes a canção, expliquei-lhes aquilo que ela significava para mim e dei-lhes liberdade para interpretarem esse universo. Acho que essa confiança foi essencial para o resultado final.

Uma das ideias que mais me marcou foi a forma como decidiram representar a ligação entre a personagem e a natureza. Há um momento em que toco no Flecha, o cavalinho, e a cor começa a surgir. Achei essa ideia lindíssima porque transmite a noção de que a natureza reage ao contacto, como se existisse uma energia invisível que desperta quando estabelecemos uma ligação genuína com ela. É uma imagem muito simples, mas tem uma enorme força simbólica.

Gosto particularmente desse momento porque dialoga com a mensagem da canção. Muitas vezes esquecemo-nos de que fazemos parte da natureza e de que tudo aquilo que fazemos tem um impacto. A cor acaba por representar essa vida, essa esperança e essa transformação que podem nascer de um gesto tão simples como tocar ou cuidar.

Foi isso que mais admirei no trabalho da S&N Intercut Films. Não procuraram ilustrar literalmente a letra. Criaram um universo visual que conversa com a música e lhe acrescenta novos significados. Enquanto autora, é um privilégio ver outras pessoas olharem para uma canção e encontrarem imagens que eu própria nunca teria imaginado.

Vivemos numa época em que existe uma enorme pressão para parecer perfeito, sobretudo nas redes sociais. Acredita que “O Dom de Estar Errada” é também uma resposta a essa realidade?

Acho que sim, embora essa nunca tenha sido a intenção de uma forma direta. Não escrevi “O Dom de Estar Errada” como uma crítica às redes sociais. Escrevi-a porque senti que vivemos numa altura em que existe uma enorme pressão para sermos versões perfeitas de nós próprios.

Hoje parece que estamos constantemente a representar um papel. Queremos mostrar que estamos felizes, que temos sucesso e que fazemos sempre as escolhas certas. Aos poucos, vamos escondendo tudo aquilo que nos torna humanos. Escondemos as dúvidas, os erros e as inseguranças porque sentimos que isso nos torna mais vulneráveis. Mas, para mim, acontece precisamente o contrário. É essa vulnerabilidade que nos aproxima uns dos outros.

Acho que esta canção acaba por responder a essa realidade porque defende exatamente o oposto. Defende que não temos de pedir desculpa por sermos diferentes nem por falharmos. O erro faz parte da nossa construção enquanto pessoas. Se todos procurarmos ser iguais, acabamos por perder aquilo que nos distingue e aquilo que nos torna verdadeiramente interessantes.

Vejo muitas pessoas a viverem quase com medo de serem elas próprias. Acho que isso é triste. Não acredito na perfeição. Nunca a encontrei na arte, nunca a encontrei na natureza e nunca a encontrei nas pessoas de quem mais gosto. O que encontro é autenticidade. E, para mim, isso vale muito mais do que qualquer imagem cuidadosamente construída para agradar aos outros.

Se a canção conseguir levar alguém a sentir-se um pouco mais confortável com as suas imperfeições, então já fez muito mais do que eu esperava.

Que reação espera encontrar nos ouvintes quando escutarem esta canção pela primeira vez? Há alguma mensagem que gostaria especialmente que levassem consigo?

Não espero que todos interpretem a canção da mesma forma. A partir do momento em que uma música é lançada, deixa de pertencer apenas a quem a escreveu. Cada pessoa vai ouvi-la a partir da sua própria experiência e encontrar nela algo diferente.

Gostava que a primeira reação fosse emocional. Que a canção despertasse uma memória, uma sensação ou até uma pergunta. Para mim, a música cumpre o seu papel quando permanece connosco depois de terminar.

Também espero que exista um sentimento de esperança. Apesar de nascer de inquietações muito pessoais, “O Dom de Estar Errada” não é uma canção pessimista. Há nela uma vontade de seguir em frente e de aceitar que nem tudo precisa de estar resolvido para continuarmos a caminhar.

Acima de tudo, gostava que quem a ouvisse sentisse que encontrou ali um espaço onde pudesse parar por alguns minutos. Às vezes, isso é suficiente.

Depois deste lançamento, que novos projetos podemos esperar de Mariana Pinheiro? Há um álbum ou novos temas a caminho?

Para já, não estou a pensar num álbum. A ideia é continuar a lançar temas devagar e bem, dando a cada um o tempo necessário para crescer e encontrar a sua identidade. Prefiro trabalhar com calma e garantir que cada canção tem uma intenção própria, em vez de lançar por lançar.

O próximo tema já está no forno e segue uma direção um pouco diferente, embora continue ligado ao universo que quero construir. Tem inspirações celtas e parte de uma lenda micaelense, o que me entusiasma bastante. Há qualquer coisa de muito especial em pegar no imaginário das ilhas e transformá-lo em música sem perder a ligação ao presente.

Ainda não posso revelar muito mais, mas acredito que será um tema interessante, com uma atmosfera muito própria. Quero continuar a explorar histórias que fazem parte da nossa identidade e dar-lhes uma nova roupagem.

Para terminar, gostaria de agradecer a todos os que têm acompanhado este projeto e recebido a canção com tanto carinho. Cada mensagem e cada partilha têm um significado muito especial para mim. Obrigada também a todas as pessoas que fizeram parte deste lançamento, porque sem elas “O Dom de Estar Errada” nunca teria chegado ao mundo desta forma.

Jorge Silva Medeiros

Jorge Silva Medeiros é técnico de som na RTP e fundador do Música Total, um dos projetos editoriais dedicados à música com maior longevidade em Portugal. Ligado ao setor da comunicação e da música há mais de duas décadas, criou também a Rádio Atlântida e tem desenvolvido um trabalho contínuo na divulgação da música portuguesa, dos artistas emergentes e dos grandes eventos culturais.

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