Quarta-feira, 4 de Novembro de 2026
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Mau Uivo: «A voz surge como uma ferramenta de textura e ambiente»

Por Jorge Silva Medeiros 4 Nov 2026

Entre a música instrumental, o contrabaixo e a composição de canções, Mau Uivo marca o início de um novo capítulo no percurso de um músico que há muito procurava dar espaço à sua própria escrita. «Berçário», o EP de estreia, nasce desse encontro entre diferentes experiências musicais e explora o contraste entre sonoridades acústicas, manipulação eletrónica e uma voz que assume também uma dimensão instrumental.

Em temas como «Casa Branca» e «Do Berço», a aparente simplicidade das canções esconde outras camadas de leitura, cruzando intimidade, inquietação e reflexão sobre a infância, os vínculos afetivos e o ciclo da vida. Nesta conversa com o Música Total, Mau Uivo fala sobre a construção do EP, as escolhas sonoras, o processo criativo e a vontade de transformar em música um universo que durante anos permaneceu à espera do momento certo.

 

 

 

«Do Berço» parte de uma ideia aparentemente simples, a de uma canção de embalar, mas transforma-a numa experiência bastante mais inquietante. De onde nasceu essa contradição?

Nasce de uma proximidade muito direta com o universo da infância. Através de um projeto de intervenção social em que trabalho a música como ferramenta para o desenvolvimento de aptidões sociais em comunidades mais vulneráveis, contacto diariamente com realidades onde o tecido emocional é fragilizado.

A ideia da canção surgiu dessa observação e da necessidade de refletir sobre temas como a negligência, a distância parental e os silêncios que ficam por preencher no processo de criação de vínculos afetivos. A estrutura da canção de embalar surge precisamente por isso: é a forma tradicional de amparo e conforto na infância, mas que aqui se desconstrói para dar espaço aos desequilíbrios e às ausências reais que muitas crianças atravessam.

A voz tem um papel muito particular na faixa, com diferentes registos e camadas a cruzarem-se. Quando percebeste que a tua própria voz poderia funcionar como um instrumento dentro de Mau Uivo?

A ideia de tratar a voz como um instrumento puramente tímbrico já me acompanha há bastante tempo. Há vários anos, enquanto cantava e tocava numa banda de pós-rock chamada Bypass, dávamos primazia ao arrojo na composição de canções com estruturas fora do convencional, recorrendo a instrumentos menos óbvios e utilizando a voz como parte de uma paleta de recursos expressivos para vestir esteticamente os temas.

Essa vivência, aliada ao facto de fazermos muitos temas instrumentais e ao meu percurso continuado na música instrumental, tanto no contexto da música clássica e orquestral como no jazz, fez com que essa abordagem passasse de forma muito natural para o Mau Uivo. Na canção «Do Berço», a voz surge precisamente enquanto ferramenta de textura e ambiente: as diferentes camadas, os registos agudos e graves e a manipulação vocal funcionam quase como vozes instrumentais que dialogam entre si, traduzindo-se em perspetivas, idades e estados emocionais distintos.

Existe em «Do Berço» uma sensação de diálogo entre diferentes idades, memórias ou estados emocionais. Essa leitura estava presente quando escreveste a canção ou surgiu durante a produção?

Surgiu precisamente durante o processo de aprofundar e limar as ideias líricas que tinha desenhado para os movimentos melódicos da canção. A meio do caminho, seduziu-me muito a ideia de ter dois narradores em cena: a criança e o cuidador.

Interessava-me colocar em diálogo perspetivas, memórias e idades distintas, em que cada uma carrega a sua própria bagagem de experiências e vivências. A partir do momento em que essa intenção ficou clara, a produção e o trabalho sobre as vozes serviram para materializar esse contraste, traduzindo-o nesses diferentes estados emocionais que se cruzam e se confrontam ao longo do tema.

Vens de um percurso ligado ao contrabaixo, à música clássica, às orquestras e ao jazz. O que procuravas fazer em Mau Uivo que não encontravas nessas outras linguagens?

A verdade é que o gosto pelas canções e a vontade de as escrever nasceram muito antes de começar a tocar contrabaixo ou de me envolver com orquestras, música clássica e jazz. Já escrevo canções desde muito novo.

O que acontece é que este projeto a solo, centrado na escrita de canções e na força da letra, acabou por ser protelado ao longo dos anos, absorvido por outros caminhos e prioridades no meu percurso. Senti que era o momento certo para dar espaço a essa vertente que sempre esteve cá, fazendo finalmente este movimento para a frente com o Mau Uivo.

Em que momento percebeste que as canções que estavas a escrever poderiam deixar de ser apenas uma prática pessoal e transformar-se num projeto com identidade própria?

Como escrevo canções para mim há bastante tempo, essa intenção sempre esteve lá. Soube desde o início que, mais cedo ou mais tarde, essas canções iriam cristalizar-se num projeto em nome próprio, carregado da minha identidade.

Por isso, não houve propriamente um momento de revelação em que percebi que aquilo podia ser um projeto. Foi mais uma questão de maturidade e de oportunidade: perceber quando seria a altura certa na minha vida e no meu percurso para dar esse salto e partilhar finalmente esse trabalho.

Grande parte de Berçário foi escrita, produzida, gravada e interpretada por ti. Trabalhar praticamente sozinho deu-te maior liberdade ou também trouxe dificuldades que não esperavas?

Para um projeto com esta natureza, preciso de tempo. Estar sozinho facilita muito esse lado, porque me dá total liberdade para gerir o meu próprio ritmo de trabalho, experimentar sem pressões e maturar as ideias ao detalhe. Nesse sentido, a autonomia é extremamente libertadora.

Por outro lado, o reverso da medalha é a flexibilidade na gestão do tempo. Quando não temos compromissos diretos com outras pessoas no processo criativo, torna-se tentador protelar o investimento no projeto em prol dos meus compromissos enquanto músico contrabaixista, onde há orquestras, concertos, prazos e objetivos muito bem definidos. O maior desafio acabou por ser esse: impor a mim próprio o rigor e a prioridade necessários para concretizar o trabalho.

A guitarra e a voz estão na base de várias canções, mas depois aparecem sampling, manipulação vocal e outras camadas sonoras. Como decides quando uma música precisa de mais elementos e quando deve ficar reduzida ao essencial?

O próprio arranjo da canção acaba por ditar esse caminho. Embora não queira ficar preso a convenções, a estrutura do tema dá-me sempre uma clareza natural, mostrando-me o ponto de equilíbrio entre os recursos que utilizo.

Para mim, a gestão do espaço musical baseia-se num contraste: procuro a tensão e o arrojo dos sons processados e da manipulação eletrónica, mas preciso, logo a seguir, do alívio e da respiração que vêm dos sons orgânicos e acústicos. Gosto de cruzar rasgos de cores mais gritantes e artificiais com tonalidades puramente naturais. A variedade é o tempero da vida.

O título Berçário sugere nascimento, formação e alguma coisa ainda em crescimento. O que é que este EP representa para ti neste momento do teu percurso?

Este EP representa, antes de mais, o nascimento deste projeto a solo e o assumir claro desta identidade musical. É a materialização de canções que durante muito tempo estiveram num estado embrionário, quase como bebés-proveta à espera do momento certo para vir ao mundo.

Representa também um ponto de encontro e de amadurecimento no meu próprio percurso: o diálogo entre o meu trabalho enquanto músico executante e esta minha dimensão como compositor de canções. E, por fim, reflete uma reflexão mais ampla sobre o próprio ciclo da vida: essa proximidade entre a infância e a finitude, entre o nascimento, o crescimento e o inevitável fim. «Berçário» é a síntese desse começo.

«Casa Branca» e «Do Berço» mostram dois lados diferentes do projeto. Que relação existe entre as duas canções e o que é que cada uma revelou sobre a identidade de Mau Uivo?

Ambas partem da mesma premissa: canções simples que, mesmo brincando com estruturas menos convencionais, servem de tela para a forma como se vestem sonoramente. Revelam este contraste que define o universo de Mau Uivo: o diálogo entre a riqueza dos timbres acústicos e orgânicos e a rudeza de elementos mais sintetizados e processados, explorando todo o espectro de experimentação e de dança que existe nesse espaço intermédio.

No plano lírico, essa dança entre contrastes também acontece: «Casa Branca» expressa um olhar abstrato e contemplativo, enquanto «Do Berço» carrega assumidamente um tom mais crítico.

O EP inclui também uma faixa instrumental. O que te permite dizer sem palavras que não consegues dizer através da canção?

Venho da música instrumental, do contrabaixo e da composição sem voz, por isso essa linguagem é uma parte natural de mim. Se uma ideia ganha corpo e consegue carregar um sentimento, um discurso ou uma narrativa apenas através do som, não sinto a necessidade de lhe sobrepor palavras. Há coisas que se dizem melhor no espaço que a ausência de texto deixa aberto.

Trabalhas com dois momentos importantes no acabamento do disco, a mistura de Moritz Kerschbaumer e a masterização de Nelson Carvalho. Até que ponto entregares essas etapas a outras pessoas alterou a forma como passaste a ouvir o próprio trabalho?

Não alterou de todo, porque os temas já vinham de uma pré-mistura e de arranjos muito definidos. O meu papel foi construir o esqueleto e a direção, entregando depois a quem domina a arte de polir esse som. O que o Moritz e o Nelson fizeram não foi mudar a canção, mas sim limpar imperfeições e dar nitidez e peso ao discurso e aos ambientes que eu já tinha desenhado, algo que fazem de forma exemplar.

Depois de «Casa Branca» e «Do Berço», ainda antes da chegada de Berçário, o que gostarias que quem está a descobrir Mau Uivo percebesse sobre este projeto que não é possível perceber apenas através de uma música?

Não procuro necessariamente que percebam uma mensagem fechada, até porque a identidade deste projeto a solo ainda se está a desenhar. Mais do que uma ideia prévia, o que importa é que a música encontre um lugar emocional próprio em quem a ouve, na forma como a voz, a música e os ambientes sonoros se cruzam. Se estas canções conseguirem habitar algum momento ou tornar-se num espaço familiar que apeteça revisitar, já cumpriram o seu propósito.

 

 

Jorge Silva Medeiros

Jorge Silva Medeiros é técnico de som na RTP e fundador do Música Total, um dos projetos editoriais dedicados à música com maior longevidade em Portugal, dentro da plataformas. Ligado ao setor da comunicação e da música há mais de duas décadas, criou também a Rádio Atlântida e tem desenvolvido um trabalho contínuo na divulgação da música portuguesa, dos artistas emergentes e dos grandes eventos culturais, assim como produção de eventos.

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