Meu General: “Estamos sujeitos a constantes estímulos que nos dividem enquanto pessoas”

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Entre a urgência do presente, a dúvida permanente e a necessidade de continuar a avançar, os Meu General preparam o lançamento de A Programação Segue Dentro de Momentos, novo álbum que chega a 22 de julho. O primeiro avanço, “Quero e Não Quero”, apresenta uma banda atenta ao desgaste emocional dos nossos dias, mas sem perder a energia e a atitude que sempre marcaram o seu percurso.

Nesta conversa, os Meu General falam sobre a origem do novo single, o significado do título do álbum, a influência dos anos 80, o papel do rock enquanto força motriz e a experiência especial que estão a preparar para a apresentação do disco no Arda Recorders. Pelo meio, refletem sobre indecisão, tecnologia, criatividade e a importância de continuar a fazer música num tempo cada vez mais acelerado.

“Quero e Não Quero” transmite uma sensação de ansiedade constante e conflito interior. Em que momento perceberam que esta tinha de ser a primeira porta de entrada para o novo álbum?

Este tema vem de um conjunto de riffs que o Pedro Santos apresentou para serem desenvolvidos. Sempre me soou a um riff old school, algures entre o hard rock e o punk. Permitiu ser conciso, direto e muito eficaz na abordagem que tínhamos em mente para uma música rápida. Liricamente, o tema foi-se arrastando exatamente para um lado de indecisão muito presente nos nossos dias: querermos tudo e, ao mesmo tempo, não querermos nada. Estamos sujeitos a constantes estímulos que nos dividem enquanto pessoas. Pareceu-me necessário abordar este tema de quase sufoco coletivo.

O título A Programação Segue Dentro de Momentos parece quase uma frase saída de um sistema em falha. Como nasceu esse nome e o que representa para vocês?

É um título que me andava a perseguir. Parece que estamos programados para qualquer coisa futura. Mesmo que sejamos nós os programadores, é uma ideia dúbia. Do esperar para ver o que acontece, à tal programação que nos é apresentada e nos condiciona, ou à nossa própria vontade e pensamento, que é a programação definida por nós. Seja como for, segue sempre dentro de momentos, porque o futuro está sempre ao virar da esquina.

Há uma tensão muito atual na letra e na energia do single. Sentem que a geração de hoje vive mais cansada emocionalmente do que revoltada?

A geração atual vive de acordo com o que lhe é colocado em cima da mesa. A revolução tecnológica veio mudar o jogo de tal forma que deixou de haver a sensação de perda. Tudo é adquirido rapidamente e isso faz com que a volatilidade da sociedade esteja ao rubro. O constante estímulo e a exigência sobre cada um de nós fazem com que haja mais competição e comparação. Isso traz desafios emocionais muito perigosos. O cansaço e a revolta podem estar muito próximos e, muitas vezes, ter desfechos imprevisíveis.

O conceito de “No Future” aparece ligado ao presente da música. Acham que o punk deixou de ser estética para voltar a ser sobrevivência?

O conceito de “No Future” sempre me pareceu ser um slogan de procura por algo quando achamos que não temos futuro e que devemos lutar por ele, seja de que maneira for.

O punk começou por ser um movimento mais estético em Inglaterra, associado ao conceito de Malcolm McLaren, mas acabou por ter um impacto na mentalidade de que se pode fazer muito com quase nada. Isso é válido para sempre. A atitude é eterna.

O som da faixa é rápido, nervoso e quase sufocante. Isso surgiu naturalmente durante a composição ou foi uma decisão consciente para refletir o ritmo dos dias de hoje?

Como disse anteriormente, a música cresceu a partir do riff de guitarra e rapidamente foi desenvolvida para ser intensa, sem deixar respirar. Senti que era necessário um refrão forte e repetitivo para encaixar na ideia base que queríamos transmitir. “Quero e Não Quero” é a ideia de indecisão pensada para ser injetada no inconsciente de cada um quando o refrão chegasse.

Quando falam do rock como “recusa em ficar parado”, estão a falar de música ou também de postura perante a vida?

O rock é, sem dúvida, uma força motriz de vida. Não aceitamos muito bem as “derrotas” que aparecem pelo caminho. Tentamos sempre acreditar que o melhor está para vir. Há sempre uma música melhor para fazer, um concerto melhor para tocar, uma ideia sui generis para implementar ou um ensaio para estarmos juntos, convivermos e celebrarmos o facto de continuarmos.

O que mudou nos Meu General entre os trabalhos anteriores e este novo disco?

Uma maturidade musical que o tempo se encarregou de trazer. Mas também se preservou alguma ingenuidade, uma singularidade que sempre existiu no rock dos Meu General.

Existe alguma influência literária, cinematográfica ou até social que tenha marcado particularmente a construção deste álbum?

Influências, de certeza que haverá. Explicitamente, não se notarão. Mas existe toda uma linguagem dos anos 80 que certamente se encontrará por aqui e por ali.

Como equilibram a urgência emocional das músicas com a necessidade de não cair apenas no ruído ou na descarga imediata?

As músicas encaminham-se rapidamente para um universo estético que depois tentamos complementar com a parte escrita.

Neste disco existem três zonas que foram colocadas em cima da mesa: a parte clássica do rock tradicional dos Meu General, a parte mais punk e rápida e uma parte mais estranha. Tentámos fazer canções que nos permitissem sair da zona de conforto.

O lançamento no Arda Recorders foi pensado desde início como algo mais do que um concerto. O que estão a preparar para essa noite?

Essa ideia surgiu da necessidade de fazer algo diferente. Nem todas as pessoas têm acesso a visitar um estúdio deste calibre e perceber como funciona todo o equipamento. Então colocou-se a hipótese de apresentar o disco na sala principal para 50 pessoas e fazer um lançamento exclusivo para quem adquirir o pack de Vinil e CD, dando a oportunidade de estarem connosco num ambiente intimista e único.

Vamos ter o privilégio de ser acompanhados pelo João Cabeleira, dos Xutos & Pontapés, que também participa no disco. Tudo será gravado ao vivo para, quem sabe, uma futura edição em áudio e vídeo.

Num momento em que muita música parece feita para consumo rápido e distraído, ainda acreditam no álbum como experiência completa?

É exatamente isso. Uma obra deve ser interpretada dessa forma: um conjunto de músicas que fica perpetuado num objeto físico.

Está ali o resultado de horas e horas de decisões, indecisões, escolhas, avanços, recuos e erros. Tudo isso foi palpável, tocado e guardado.

Depois de “Quero e Não Quero”, qual é a sensação que gostavam que ficasse nas pessoas quando o disco terminar pela primeira vez?

Gostava que vissem o disco como uma extensão do que é um projeto na vida de cada um. Este álbum é como algo que qualquer pessoa se pode propor a realizar, seja pintura, voluntariado ou qualquer outro projeto.

Este disco começou numa folha em branco. Passo a passo, teve o seu desenlace. E o mais bonito é o processo que teve até chegar ao fim. Quando digo fim, refiro-me ao culminar do processo que agora nos vai permitir desencadear outra etapa: os concertos ao vivo.

A Programação Segue Sempre Dentro de Momentos.

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