Há festivais que crescem. Outros encolhem. Este faz isso de propósito. O Microsons não quer muito mais do que uma sala, pessoas sentadas, silêncio a tempo inteiro. E funciona assim há anos. Em Grândola. Pronto.
Nos dias 6 e 7 de fevereiro de 2026, no Cine Granadeiro, voltam a acontecer quatro concertos. Entrada livre. Horas normais, 21h30 e 22h30. Nada de confusões. O festival é uma parceria entre o município e a Luckyman Music, com apoio da Antena 3, mas isso aparece quase como nota de rodapé. O que importa é outra coisa. A proximidade. A ideia de que a música cabe ali. Toda.
Às vezes pensa-se que isto da música de autor precisa de grandes discursos. Aqui não. É só sentar, ouvir. Se calhar tossir uma vez. Está-se bem.
A sala pequena onde tudo se ouve
O Microsons insiste numa coisa simples. Misturar nomes conhecidos com outros menos óbvios. Não há cabeças de cartaz no sentido clássico. Há noites. Há pessoas em palco. Há uma vila que abranda o passo quando chega fevereiro.
Grândola ajuda, claro. O frio, a rua vazia depois das dez, a sensação de que nada está a acontecer noutro sítio mais importante. Isso conta. Conta mesmo.
E depois entra-se no Cine Granadeiro. As cadeiras. A luz. Aquela acústica que não perdoa nada. Nem aos artistas, nem a quem está a ouvir.
Lena d’Água, ainda aqui
No dia 6, às 22h30, aparece Lena d’Água. Dispensa apresentações, mas mesmo assim convém dizer qualquer coisa. Ganhou um Globo de Ouro recentemente. Continua activa. Continua curiosa. Foi… foi ali que muita gente percebeu que ela não ficou parada no tempo.
Os discos mais recentes, Desalmadamente primeiro, Tropical Glaciar depois, não soam a regresso nostálgico. Soam a presente. Pop Toma, Sem Pressa. Canções que não pedem licença.
Em palco, num espaço destes, não há muito onde esconder. E ela sabe isso. Sempre soube.
Jhon Douglas e o desconforto quieto
Mais cedo, às 21h30 do mesmo dia, toca Jhon Douglas. Um artista que não cabe só numa gaveta. Música, artes visuais, ideias sobre política, tecnologia, essas coisas todas que nos atravessam mesmo quando fingimos que não.
Começou com Mato, depois veio JungleBoys & Maritacas. Agora anda com Arapucagongon, um projecto que cruza Brasil e Cabo Verde sem pedir autorização. Às vezes é desconfortável. Mas não no mau sentido. No sentido necessário.
Há crítica. Há ruído. E depois silêncio outra vez.
Jorge Cruz e a terra debaixo dos pés
Dia 7, às 22h30. Jorge Cruz. Conhecido por muita gente por causa dos Diabo na Cruz, mas aqui aparece sozinho. Ou quase. O disco Transmutante saiu em 2024 e anda muito colado à ideia de mundo rural. À terra. À palavra dita devagar.
As canções não têm pressa. Misturam raiz portuguesa com folk americana, sem grande conversa teórica à volta disso. É o que é. Funciona.
Há momentos em que parece… não, é mesmo alguém a contar histórias baixinho. E pronto.
Cristóvam, antes disso
Antes, às 21h30, entra Cristóvam. Indie folk, dizem. Internacionalmente reconhecido, dizem também. Mas no fundo são canções. Do álbum Desert of Fools. Algumas novas, outras que já viajaram bastante.
Fever, com os Boy & Bear. Andrà Tutto Bene, aquela que muita gente ouviu vezes sem conta durante a pandemia. Crooked Lines. Setting Sun. Milhões de streams, sim. Mas ali isso interessa pouco.
O Microsons acaba assim. Ou melhor, pára. Não há grande fecho. As pessoas levantam-se. Vão embora. A rua continua fria. E fica qualquer coisa no ar. Ou não. Não sei.



















