Há histórias que não acabam. Andam por aí. Voltam quando menos se espera. A de Bob Marley é assim. Nunca ficou quieta.

 

E este filme pega nela sem pedir licença. Às vezes com cuidado. Outras nem tanto. Funciona na mesma. Ou talvez por isso.

Bob Marley: One Love não tenta pôr tudo em ordem. Ainda bem. Escolhe uns pedaços. Uns momentos. Uns silêncios. E segue. Não é aula de história. Não é santinho em vitrine. É um gajo a tentar cantar num sítio onde cantar dava problemas. Dá problemas. Dava.

Cantar quando o mundo pede silêncio

A coisa passa-se em partes muito concretas. A criação de Exodus. A tentativa de assassinato em 1976. O concerto da paz, em 1978. Aquele momento meio impossível em que a música tentou fazer o que a política não estava a conseguir. Resultou? Não sei. Se calhar não. Mas aconteceu. E isso conta.

Quem segura o filme é Kingsley Ben-Adir. Não imita. Não exagera. Está ali. Quieto quando é preciso. Tenso quando não dá pra fugir. Há uma contenção que ajuda. Marley não era barulhento. A música era. Ele, nem sempre.

Ao lado, Rita Marley. Interpretada por Lashana Lynch. Não está ali só para equilibrar a coisa. Há desgaste. Há escolhas difíceis. Há aquela sensação constante de estar à beira de algo. De perder. Ou de aguentar mais um bocadinho. Foi… foi ali que o filme me apanhou.

Uma voz entre a fé, a violência e a música

O realizador, Reinaldo Marcus Green, não força emoção. Deixa espaços. Confia no silêncio. Às vezes até demais. Mas pronto. Prefiro assim. A dimensão espiritual está lá, mas não vem explicada com cartazes. O rastafarianismo aparece como vivência. Não como nota de rodapé. Faz diferença.

A banda sonora, premiada nos Grammy Awards de 2025, não entra para agradar. Entra porque tem de entrar. As canções fazem parte do corpo do filme. Não são decoração. Quando aparecem, é quase sempre porque as palavras já não chegam. Isso sente-se. No peito. Um bocadinho.

Não é um filme confortável. Também não quer ser. Marley fala de união num país dividido. Fala de paz num contexto de violência real. Fala de amor quando há armas à vista. Contradição? Sim. Claro. A vida é isso. O filme não tenta resolver. Mostra. E segue.

A estreia é esta sexta-feira, 30 de janeiro, às 21h30, no TVCine Top e no TVCine+. Isto aparece aqui no meio do texto porque é assim que as coisas acontecem. A informação entra enquanto estamos a pensar noutra coisa. Quem quiser, vê. Quem não quiser, também está tudo bem.

Bob Marley: One Love não fecha a história. Nem devia. Sai-se com canções na cabeça. E com perguntas. Sobre música. Sobre política. Sobre até onde uma voz consegue ir antes de ser silenciada. Ou não.