Sábado, Fevereiro 21, 2026

Musicatotal em Nova Etapa: Jorge Silva Medeiros fala sobre identidade, exigência e ambição

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Há projetos que existem. E há projetos que persistem, que teimam em manter-se fiéis a uma voz quando tudo ao redor empurra para a pressa, para o superficial, para o conteúdo descartável. O Musicatotal é do segundo tipo.

Entrar numa nova fase técnica e visual seria, para muitos, motivo suficiente de celebração. Para Jorge Silva Medeiros, coordenador geral do Musicatotal, é apenas o ponto de partida. O que importa, o que sempre importou, é a forma como se pensa a música. Com profundidade. Com identidade. Com a consciência de que cada texto publicado carrega um compromisso.

O email que ficou

Às vezes, uma frase simples diz tudo. Recentemente, uma profissional ligada à promoção de eventos culturais enviou uma mensagem que Jorge Silva Medeiros não esqueceu tão facilmente: “Deveria haver muitos mais sites como o Música Total, com essa dedicação em trabalhar os textos e cuidado em transmitir duma forma pessoal a informação que vos chega.”

Não era um elogio à estética. Não era um comentário sobre números ou alcance. Era o reconhecimento de algo mais raro e mais difícil de conquistar: método, voz própria, humanidade editorial.

“Teve impacto porque fala de método e não de visibilidade,” admite o coordenador geral. “Num tempo em que muitos conteúdos são produzidos em série, saber que alguém identifica uma dimensão humana no trabalho é sinal de que a identidade está a ser percebida. Isso motiva, mas também aumenta a responsabilidade.”

Recusar o óbvio

Desde o início, o Musicatotal recusou ser apenas um canal de divulgação. A intenção foi sempre outra: contextualizar, analisar, situar culturalmente cada lançamento, cada artista, cada momento. Partir do som e chegar mais longe, às gerações, às geografias, às tensões invisíveis que atravessam a música mas raramente aparecem nas notas de imprensa.

“A música não existe isolada,” explica Medeiros. “Trabalhar essa dimensão dá mais trabalho, mas cria profundidade.”

E foi essa profundidade que, num dado momento, fez o projeto ganhar peso real. Não quando os números cresceram, mas quando a conversa começou. Quando artistas responderam a críticas. Quando leitores chegaram à procura de interpretação, não apenas de notícia. Foi então que o Musicatotal deixou de ser plataforma e passou a ser parte do diálogo cultural.

Uma nova casa, a mesma alma

A renovação técnica e visual que marca esta nova etapa não é cosmética. A plataforma passa a permitir registo de membros, apoio direto, maior interação. O leitor deixa de ser apenas recetor e passa a poder envolver-se na sustentabilidade de algo que considera seu.

Mas talvez a afirmação mais carregada de sentido seja outra: o reforço do Mapa Açores como eixo estruturante do projeto. Num país que ainda tende a confundir centralidade geográfica com centralidade cultural, esta é uma tomada de posição clara. A produção musical açoriana tem identidade própria, tem peso, tem história e merece análise consistente, não condescendência periférica.

“Ao tornar o Mapa Açores eixo estruturante, o Musicatotal assume que a geografia não deve limitar centralidade cultural,” diz Medeiros. E poucas frases resumem tão bem o espírito do projeto.

A par disso, a curadoria internacional diária, com referências à Rolling Stone, ao NME e a outras publicações de referência, não é um exercício de replicação. É organização crítica. É dar ao leitor português um mapa do mundo sem lhe fazer perder o chão.

O verdadeiro teste

Quando imagina o futuro do Musicatotal, o coordenador geral não fala em métricas. Fala em coragem.

“Imagino-o mais influente e mais exigente consigo próprio. O desafio é manter coragem editorial, aprofundar análise e continuar a escrever com identidade reconhecível.”

E termina com uma honestidade que diz muito sobre quem é: “O sorriso provocado por aquele email é importante. Mas o verdadeiro teste continua a ser o próximo texto publicado.”

É essa frase, despida de vaidade e cheia de consciência, que melhor retrata o que o Musicatotal representa. Não um projeto acabado, orgulhoso de si mesmo. Mas um projeto vivo, sempre a caminho, sempre a dever-se ao próximo texto.

E é isso que o faz durar.

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