Em 1984, António Variações estava a gravar o segundo álbum da sua carreira.
Não estava a fazer uma despedida.
Não estava a deixar um testamento.
Estava a continuar.
Depois de anos à espera de uma oportunidade e de um primeiro álbum que finalmente o tinha transformado numa figura popular em todo o país, António entrava em estúdio para perceber até onde podia levar a sua música.
O disco chamou-se Dar & Receber.
Quando ficou pronto, a sua saúde já não estava bem. A editora queria esperar. António não quis.
Insistiu que o álbum fosse lançado.
Pouco tempo depois, já internado, recebeu a notícia de que o disco tinha finalmente sido editado.
A carreira estava a avançar.
Ele já não podia acompanhá-la.
Um segundo álbum que parecia um começo
A carreira discográfica de António Variações foi curta, mas a velocidade com que tudo mudou nos últimos anos foi extraordinária.
Em 1978, assinou contrato com a Valentim de Carvalho. Mas demorou anos até conseguir lançar um disco. A editora tinha dificuldade em perceber onde encaixar aquele artista.
António Variações não parecia pertencer a nenhum lugar confortável.
Trazia referências da música popular portuguesa, do fado, do pop e do rock. A imagem chamava a atenção. As canções também. O problema era que, no início dos anos 80, a indústria ainda não sabia muito bem o que fazer com alguém assim.
Quando finalmente chegou Anjo da Guarda, em 1983, tudo começou a acelerar.
António tornou-se uma presença popular. Atuou em festas, romarias e palcos por todo o país. Aquilo que durante anos tinha parecido difícil de classificar começou finalmente a encontrar um público.
Depois entrou outra vez em estúdio.
Entre 6 e 25 de fevereiro de 1984, gravou Dar & Receber. Desta vez, trabalhou com Pedro Ayres Magalhães e Carlos Maria Trindade, responsáveis pela produção e direção musical, além de músicos ligados aos Heróis do Mar. Eugénia Lima participou no acordeão e Paulino Vieira esteve entre os colaboradores do disco.
Musicalmente, Dar & Receber avançava.
Os sintetizadores ganhavam maior presença. A produção era mais moderna e trabalhada. Mas António continuava reconhecível em cada canção.
A terra ainda estava lá.
A cidade também.
O Minho, Lisboa, a tradição e a modernidade continuavam a viver dentro das mesmas músicas.
O resultado não era uma repetição de Anjo da Guarda.
Era um passo em frente.
A própria gravação, no entanto, não foi fácil. A saúde de António já estava debilitada. Os músicos que estiveram envolvidos nas sessões recordaram um processo exigente, marcado por tosse, cansaço e momentos em que terminava os takes ofegante.
Mesmo assim, o disco avançou.
E talvez seja impossível não ouvir hoje Dar & Receber sem sentir essa tensão.
Não porque António estivesse a gravar um álbum de despedida.
Mas porque o corpo começava a impor limites a uma carreira que, artisticamente, parecia estar finalmente a ganhar velocidade.
A editora queria esperar. António não
Quando o álbum ficou pronto, a doença tornou-se impossível de ignorar.
A EMI pretendia adiar a edição de Dar & Receber devido ao estado de saúde de António. A ideia era esperar.
Do ponto de vista da indústria, era uma decisão compreensível.
Um novo álbum precisava de promoção.
Televisão.
Concertos.
Entrevistas.
António Variações já não estava em condições de fazer aquilo que tinha feito com o disco anterior.
Mas António não quis esperar.
Segundo a biografia publicada no seu site oficial, foi por insistência do próprio que Dar & Receber acabou por ver a luz do dia. A editora pretendia adiar a edição devido à doença, mas António queria que o disco fosse lançado.
É aqui que a história deixa de ser apenas sobre um álbum.
Passa a ser sobre uma decisão.
António sabia que o disco estava pronto.
As canções existiam.
E queria que chegassem às pessoas.
O título acabou por ganhar uma dimensão que provavelmente ninguém poderia prever naquele momento.
Dar & Receber.
António ainda tinha algo para dar.
Queria entregá-lo.
A edição avançou.
Mas o corpo já não acompanhava o calendário.
Quando o disco chegou, António já estava no hospital
A promoção de Dar & Receber não foi aquilo que poderia ter sido.
António ainda apareceu publicamente em 1984, mas a doença agravou-se rapidamente. A Antena 1 recorda que não estava apto para promover o seu derradeiro álbum e que, pouco depois de o disco chegar às lojas, foi internado no Hospital Pulido Valente.
A história tem, porém, um detalhe que torna tudo ainda mais difícil de imaginar.
António recebeu no hospital a notícia da edição do segundo álbum.
A arte final da capa foi-lhe mostrada no quarto.
E Canção de Engate, escolhida para avançar para as rádios, começou a chegar ao público quando António já estava internado.
A carreira continuava.
Mas agora acontecia fora do seu alcance.
Esta é talvez a imagem mais forte de toda a história.
Um artista passa anos à espera de conseguir lançar discos.
Finalmente grava o segundo.
A editora quer esperar.
Ele insiste.
O disco sai.
E quando as canções começam a encontrar o público, António está num quarto de hospital.
Não sabemos quantas vezes terá pensado no que poderia acontecer a seguir.
Mas sabemos uma coisa.
Ainda não tinha terminado.
A morte de António Variações, a 13 de junho de 1984, interrompeu uma carreira que estava apenas a ganhar dimensão.
Tinha gravado dois álbuns de originais.
Dois.
O segundo tinha acabado de chegar.
O que António Variações nunca chegou a ver
O mais impressionante é perceber o que aconteceu depois.
Dar & Receber não ficou preso a 1984.
“Canção de Engate” cresceu.
Outros músicos começaram a recuperar as suas canções.
Em 1987, os Delfins gravaram “Canção de Engate”. No mesmo período, Lena d’Água voltou a dar voz a “Estou Além”. Mais tarde, o álbum Tu Aqui recuperou canções inéditas de António.
Décadas depois, os Humanos mostraram que ainda existia outro António Variações escondido nas gravações e nas canções que tinham ficado para trás.
A obra continuou a crescer sem o autor.
E talvez essa seja uma das razões pelas quais António Variações continua a parecer tão presente.
A sua carreira terminou cedo.
A música não.
Cada geração encontrou uma porta diferente.
Uns chegaram através de “Estou Além”.
Outros por “O Corpo É Que Paga”.
Muitos descobriram-no através de “Canção de Engate”.
E alguns chegaram mais tarde, quando começaram a ouvir os discos completos e perceberam que António Variações não era apenas uma coleção de canções famosas.
Era um artista que ainda estava a construir o seu mundo.
É isso que torna Dar & Receber tão difícil de ouvir.
Não é um disco que feche uma história.
É um disco que abre possibilidades.
A produção aponta para outro lugar.
As canções deixam perceber novos caminhos.
A carreira parecia estar a expandir-se.
António Variações não entrou em estúdio para gravar o último capítulo.
Entrou para fazer o segundo disco.
E, quando finalmente conseguiu que esse disco chegasse ao mundo, já não teve tempo para descobrir até onde aquelas canções podiam ir.
Sabias que?
- António Variações assinou contrato com a Valentim de Carvalho em 1978, mas só começou a editar discos em 1982.
- Dar & Receber foi gravado entre 6 e 25 de fevereiro de 1984.
- A EMI pretendia adiar o lançamento devido à doença de António, mas o álbum foi editado por insistência do próprio.
- A arte final da capa de Dar & Receber foi mostrada a António no quarto do hospital.
- “Canção de Engate” começou a chegar às rádios quando António já estava internado.
- António Variações morreu a 13 de junho de 1984, aos 39 anos.
Ficha do Lado B
Artista: António Variações
Ano: 1984
Álbum: Dar & Receber
Produção e direção musical: Pedro Ayres Magalhães e Carlos Maria Trindade
A descoberta central: a editora queria adiar o lançamento devido à doença de António Variações. O próprio insistiu que o disco fosse editado.
O verdadeiro Lado B: António conseguiu fazer chegar o segundo álbum ao público, mas a doença já não lhe permitiu assistir à carreira que começava a nascer em volta dessas novas canções.
Vale a pena ouvir outra vez?
Ouve Dar & Receber sem pensar que é o último álbum de António Variações.
Ouve-o como aquilo que era quando entrou em estúdio.
Um segundo disco.
Uma continuação.
Uma tentativa de avançar.
Talvez então seja possível ouvir a verdadeira tragédia desta história.
Não foi alguém ter deixado de gravar no momento certo.
Foi alguém ter começado finalmente a descobrir até onde podia ir.
