Uma guitarra acústica pode parecer pouco material para um disco inteiro. Em Pata Lenta, Norberto Lobo transforma essa limitação numa vantagem. Não tenta esconder o instrumento atrás de produção, convidados ou arranjos. Fica praticamente sozinho com a guitarra e deixa que cada tema descubra o seu próprio caminho.
É um disco que pede atenção, mas não paciência no sentido negativo da palavra. A música está sempre a mover-se. Uma melodia começa num lugar e, quando parece que já percebemos para onde vai, muda de direcção. A guitarra abranda, acelera, tropeça numa nova frase e continua. Nada parece completamente fixo.
Uma guitarra que nunca fica parada
O título Pata Lenta é quase enganador. A música de Norberto Lobo tem uma agilidade constante. Mesmo quando o andamento abranda, há movimento dentro do dedilhado.
A grande qualidade do disco está nessa capacidade de fazer uma guitarra parecer vários instrumentos sem recorrer ao truque de a transformar artificialmente noutra coisa. O som continua a ser reconhecível. O que muda é a maneira como as mãos ocupam o espaço.
Em “Ayrton Senna”, por exemplo, percebe-se bem a importância que Norberto Lobo dá à melodia. Não é apenas uma demonstração de técnica. Existe uma linha que fica, uma espécie de memória que regressa enquanto a guitarra abre novos caminhos à sua volta.
É aqui que Pata Lenta se separa de muitos discos instrumentais. A técnica está presente, mas raramente é o assunto principal.
Entre Lisboa, a folk e lugares que não têm nome
A música de Norberto Lobo não pertence facilmente a um único território. Escutamos folk, blues, ecos da guitarra portuguesa e uma abertura para sonoridades que parecem vir de geografias diferentes.
Mas o disco não funciona como um catálogo de influências.
“Brisa Biónica” aproxima-se da tradição da guitarra acústica norte-americana, mas não abandona a estranheza própria de Norberto Lobo. “Sra. do Monte” tem uma dimensão mais contemplativa. “Samantra”, pelo contrário, abre-se e cresce até parecer uma viagem que já não precisa de saber onde termina.
Essa diversidade poderia transformar o álbum numa sucessão de exercícios. Não acontece porque existe uma identidade forte a unir tudo: a maneira como Norberto Lobo pensa a guitarra.
Cada tema parte de uma ideia relativamente simples e permite-lhe mudar. O músico não parece interessado em repetir uma fórmula apenas porque encontrou algo que funciona.
A virtude de não querer controlar tudo
O mais interessante em Pata Lenta é a sensação de risco.
Algumas passagens parecem estar a acontecer naquele momento, como se a composição deixasse espaço suficiente para a interpretação decidir o que fazer a seguir. Essa liberdade dá ao disco uma qualidade quase física.
Ouvimos dedos nas cordas, pequenas mudanças de intensidade, frases que parecem aproximar-se do silêncio antes de encontrarem uma nova saída.
Existe também um lado imperfeito que joga a favor do álbum. Uma música excessivamente limpa teria retirado parte da sua personalidade. Norberto Lobo não parece preocupado em esconder o gesto.
E isso faz diferença.
A guitarra não aparece como um objecto distante, admirado pela sua precisão. Está perto. Por vezes demasiado perto. Ouvimos o esforço, a velocidade e o momento em que uma ideia parece quase escapar.
Quando tocar muito não significa dizer demais
É fácil ouvir Norberto Lobo e pensar primeiro na técnica. A rapidez do dedilhado chama imediatamente a atenção.
Mas Pata Lenta ganha importância precisamente quando conseguimos ultrapassar essa primeira impressão.
A técnica é uma ferramenta. O que interessa é a capacidade de construir música com ela.
Nem todos os temas têm o mesmo impacto. Em alguns momentos, a liberdade da interpretação aproxima-se de uma espécie de dispersão e há passagens que vivem mais da atmosfera do que de uma ideia melódica realmente memorável.
Ainda assim, o disco nunca perde completamente o rumo.
A sua força está na maneira como aceita a mudança. Uma canção pode começar como uma peça de folk, ganhar uma pulsação diferente e terminar noutro lugar. Não existe a preocupação de fechar tudo correctamente.
Pata Lenta é um disco que continua a caminhar mesmo depois de a música parar.
Ficha do Disco
Ano: 2009
Artista: Norberto Lobo
Género: Folk instrumental, guitarra acústica, experimental
Temas essenciais: “Ayrton Senna”, “Brisa Biónica”, “Sra. do Monte”, “Samantra”, “Unravel”
O que o distingue: A capacidade de transformar uma guitarra acústica num espaço aberto, onde folk, blues, tradição portuguesa e improvisação se cruzam sem perder identidade.
Pontuação Música Total: 8,5/10
Veredicto: Um dos discos portugueses mais importantes da guitarra instrumental da sua geração. Pata Lenta impressiona pela técnica, mas resiste pelo que consegue fazer depois de a técnica deixar de ser o centro da atenção.
