Censurados – Censurados (1990)
Quando os Censurados editaram o seu primeiro álbum, em 1990, o punk português vivia um momento decisivo. Já não era apenas um movimento underground alimentado por cassetes e concertos em pequenos espaços. Começava finalmente a chegar ao disco sem perder a urgência, a raiva e a autenticidade. Censurados tornou-se rapidamente um marco dessa transformação.
O quarteto liderado por João Ribas não procurava sofisticação nem virtuosismo. Procurava dizer aquilo que muitos jovens pensavam e poucos tinham coragem de cantar. O resultado foi um disco direto, veloz e profundamente português, onde a revolta social caminhava lado a lado com melodias capazes de sobreviver ao tempo. O álbum foi gravado em apenas seis dias e acabou por ser editado pela El Tatu, editora criada pelos Xutos & Pontapés, depois de vários atrasos na edição original.
O grito de uma geração
Há discos que definem uma época mais pelas emoções do que pela produção. Censurados pertence claramente a essa categoria. As guitarras são cruas, a bateria avança sem hesitações e a voz de João Ribas transmite uma mistura de revolta, ironia e desencanto que rapidamente conquistou uma geração inteira.
Canções como “Angústia”, “É Difícil”, “Não Vales Nada”, “Tu Ó Bófia” ou “Senhores Políticos” continuam a soar atuais. As letras abordam autoridade, injustiça, alienação e liberdade sem recorrer a metáforas complexas. A mensagem é frontal, característica essencial do melhor punk rock.
Um clássico do punk português
O impacto do álbum foi imediato. Apesar de pertencer ao circuito alternativo, vendeu milhares de cópias nas primeiras semanas e consolidou os Censurados como um dos nomes fundamentais da segunda geração do punk português. A crítica especializada reconheceu desde cedo a importância do disco, que viria a tornar-se uma referência para inúmeras bandas que surgiram nas décadas seguintes.
Grande parte desse legado deve-se também à figura de João Ribas. Muito para além dos Censurados, tornou-se um dos rostos mais importantes do punk nacional e ajudou a construir uma identidade própria para o género em Portugal, recusando sempre compromissos comerciais que pudessem diluir a mensagem da banda.
Porque ocupa o 91.º lugar
Censurados não reinventou o punk rock, mas deu-lhe uma voz portuguesa impossível de ignorar. É um álbum honesto, urgente e cheio de personalidade, que documenta um período de mudança social e cultural através de canções que continuam a ser cantadas mais de três décadas depois.
O 91.º lugar nesta lista reconhece precisamente esse valor. Não se trata apenas de um excelente disco de punk. Trata-se de uma obra que ajudou a consolidar um movimento inteiro e que permanece como um dos grandes símbolos da música alternativa portuguesa.
