Nem sempre percebemos o peso de uma canção até ela voltar a soar muitos anos depois. Às vezes é só um acorde e o corpo reconhece antes da cabeça. Memória. Casa. Um certo orgulho que não se explica, sente-se.

A 29 de março, Lisboa recebe Os Tubarões para um concerto exclusivo no LAV – Lisboa Ao Vivo. Não é apenas mais uma data no calendário. É um reencontro com mais de meio século de história cabo-verdiana escrita em música.
Uma história que começou antes de muita coisa mudar
Praia. Um grupo de músicos decide que as canções podem ser mais do que entretenimento. Podem ser afirmação. Podem ser voz. A morna, o funaná, a coladeira, a tabanka deixam de ser apenas tradição e passam a ser discurso.
Com o tempo, a banda deixa de ser só banda. Torna-se referência. Para quem vive nas ilhas. Para quem partiu. Para quem cresceu a ouvir aquelas letras em festas, rádios comunitárias, salas de estar apertadas. Há ali qualquer coisa que atravessa décadas sem pedir licença.
Canções que não envelhecem, mesmo quando tudo muda
“Tunuca”. “Labanta Braço”. “Djonsinho Cabral”. “Tabanka”. Não são apenas títulos numa discografia. São memórias coletivas. São refrões que muita gente sabe antes mesmo de pensar.
Falam de pertença, de resistência, de esperança. Palavras grandes, sim, mas que na prática se traduzem em algo muito simples: reconhecer-se. Talvez por isso continuem a emocionar miúdos, pais e avós na mesma sala. A tradição aqui não é museu. É presente.
Entre revolução e independência
Depois do 25 de Abril, o mundo lusófono estava a redefinir-se. Cabo Verde afirmava a sua independência. A cultura ganhou um papel central nesse processo e a música tornou-se ferramenta de consciência.
O álbum “Tabanka” ajudou a consolidar essa projeção. E houve momentos simbólicos que ficaram na história, como o concerto no Festival do Avante!, perante cerca de 30 mil pessoas. Não foi apenas um espetáculo grande. Foi um sinal claro de que aquela sonoridade tinha atravessado o Atlântico e ganhado palco próprio.
Uma noite que não é só nostalgia
O regresso aos palcos em 2015 já tinha mostrado que este grupo não pertence a um arquivo. Está vivo. Continua a dizer coisas. Continua a juntar gente.
O concerto de 29 de março assume-se como data única em Lisboa. E talvez seja isso que lhe dá ainda mais peso. Num tempo em que se fala tanto de raízes, identidade, pertença, esta atuação parece menos um evento e mais um ponto de encontro. Entre ilhas e cidade. Entre passado e agora. E quando a primeira nota soar, provavelmente ninguém vai precisar de explicação.
