Radicado no Porto há oito anos, o multi-instrumentista prepara The Match Factory Strike, um álbum de 19 faixas em que toca todos os instrumentos e procura afastar-se das histórias habituais da música pop.
Quando começou a gravar o novo álbum, Pevin Kinel tinha uma ideia clara: estava na altura de escrever sobre coisas maiores do que a sua própria vida. Num mundo marcado por guerras, corrida ao armamento e imagens de violência transmitidas em direto, o músico sentia dificuldade em compreender a insistência da música pop nas mesmas histórias de corações partidos e amores não correspondidos.
Dessa inquietação nasceu uma decisão que orientou a composição de The Match Factory Strike, o álbum que deverá chegar em novembro. Mas nem todas as canções seguiram o plano. «Mirrors», o primeiro single, é uma delas. Em vez de olhar para o que acontece lá fora, a letra regressa aos sentimentos do próprio músico.
A pergunta que deu origem ao disco
Pevin Kinel começou a escrever e a gravar o álbum em janeiro, com vontade de mudar o foco das suas canções. Não por considerar que as histórias pessoais deixaram de ter importância, mas porque sentia falta de outras perguntas na música que ouvimos.
A violência dos conflitos armados, a corrida ao armamento e o sofrimento de pessoas que, apesar da distância, não são assim tão diferentes de nós fazem parte das preocupações que levaram o músico a questionar o papel da sua própria escrita.
«Se tenho uma voz, também tenho uma responsabilidade», refletiu durante o processo de criação. A questão seguinte era inevitável: o que vale a pena dizer quando o mundo parece ter tantas coisas urgentes por resolver?
É uma inquietação que vai além da composição. Para Pevin Kinel, trata-se de perceber o que quer colocar no mundo através da música, numa altura em que considera demasiado frequente o regresso às fórmulas sentimentais da pop.
«Mirrors» não seguiu as regras
A ironia está no facto de uma das primeiras canções a chegar ao público ser também uma das exceções à ideia que orientou o álbum.
«Mirrors» tem uma letra introspectiva. Em vez de abordar diretamente as preocupações sociais e políticas que motivaram a mudança de rumo, a canção concentra-se nos sentimentos do próprio Pevin Kinel. O músico reconhece que esta faixa, juntamente com outras duas do disco, acabou por escapar à regra que tinha estabelecido.
Não tenta esconder a contradição nem encontrar uma explicação complicada para ela. A canção surgiu assim, mais próxima da experiência pessoal do que da reflexão sobre o mundo exterior que pretendia privilegiar.
Essa diferença ajuda a perceber o ponto de partida do álbum. Uma intenção artística pode orientar a escrita, mas não determina necessariamente o lugar a que cada canção chega. «Mirrors» é o exemplo mais evidente dessa distância entre aquilo que o músico queria fazer e aquilo que acabou por escrever.
Dezanove faixas, todos os instrumentos tocados pelo músico
Em The Match Factory Strike, Pevin Kinel assume a execução de todos os instrumentos ao longo das 19 faixas. A base é a formação clássica de bateria, baixo, guitarra e voz, a partir da qual construiu o novo trabalho.
Radicado no Porto há oito anos, o multi-instrumentista prepara agora o lançamento do álbum, previsto para novembro. «Mirrors» funciona como primeiro contacto com este novo capítulo, embora não represente inteiramente a orientação temática que procurou seguir durante a gravação.
O músico espera concluir a mistura dentro de aproximadamente um mês e disponibilizar uma cópia antecipada do álbum a quem demonstrar interesse e se identificar com a canção.
Por enquanto, «Mirrors» deixa uma primeira pista sobre o disco, mas também uma questão que o próprio processo de criação parece ter colocado a Pevin Kinel: até que ponto conseguimos escolher aquilo de que queremos falar quando começamos a escrever uma canção?
